Sergipe

18/05/2018 às 11h52

Manutenção do Hotel Palace na paisagem urbana de Aracaju é o principal objetivo de arquitetos

Arquiteta e Urbanista Carolina Marques Chaves Galvão

Foto: Arquiteta Samira Fagundes
A arquiteta Carolina Marques Chaves Galvão discorreu palavras sobre a preocupação com o esquecimento e o abandono de partimônios históricos que retomam memórias e a identidade de um povo. A atual situação do Hotel Palace de Aracaju foi o estopim para que um grupo de arquitetos desenvolvessem um trabalho de defesa da permanência deste prédio. 

Sobre Abandono, Patrimônio e Esquecimento

Antes de falarmos da parte, iniciaremos pelo todo.

O desabamento do Ed. Wilton Paes em São Paulo (1962 - 2018) levanta várias questões que precisam ser urgentemente discutidas em nossas cidades e que dizem respeito não apenas ao direito à Cidade, mas ao direito à cidadania. Cidadãos que deveriam estar colocados como partes ativas de um processo contínuo de construção e reconstrução de nossas cidades são, em verdade, apartados das escolhas, das decisões e das ações que vão modelando e remodelando a cidade. Aconteceu em São Paulo e acontece em todas as cidades brasileiras nas quais silenciosamente vê-se e deixa-se morrer memórias, histórias, heranças, identidades, patrimônio... abandona-se a cidadania.

A partir do fato paulistano poderiam ser feitos muitos paralelos pelo país e a lista de imóveis abandonados em nossos centros urbanos seguiria se estendendo. Dentre esses muitos imóveis abandonados há bens de relevante valor cultural para suas localidades e para o país, como é o caso do Hotel Palace de Aracaju, também inaugurado em 1962, que tem sofrido do mesmo mal: o abandono. Assim como lá, o abandono de cá também é parcial, pois se por um lado o poder público não enxergou seu valor e sua função social os cidadãos nunca o deixaram de habitar mantendo-o vivo desde o rés-do-chão ao primeiro pavimento.

Nesse sentido, a dinâmica do centro urbano da cidade de Aracaju é prova de que a vida pulsa ali em todos os espaços (públicos ou privados) e em reconhecimento a essa vida o que se espera é que a este sítio seja ratificada sua força social através do respeito a sua história. Aracaju é uma cidade jovem, de memórias recentes e, nem por isso menos importantes, que ainda carece que seus espaços, suas histórias, enfim, suas camadas de humanidade sejam reconhecidas. A cada final de semana que se segue, um imóvel vem ao chão. Deixa-se morrer o neocolonial, deixa-se morrer o art-déco, deixa-se morrer o moderno deixa-se apagar fragmentos de uma memória coletiva que se turva cada vez mais pela miopia de uns muitos.

O Hotel Palace de Aracaju ocupa espaço importante na construção de uma cidade que se queria “moderna” sendo um dos marcos de uma política desenvolvimentista que ajudou a transformar a paisagem urbana de muitas cidades pelo Brasil. Ademais, para o estado de Sergipe, foi símbolo de seu crescimento econômico e de seu progresso tecnológico. Surgiu de natureza mista –  revelada na forma do edifício sendo a torre de propriedade do Estado e a base da iniciativa privada – representando desde cedo a confiança do poder público e da iniciativa privada na economia local. No entanto, o entusiasmo público arrefeceu com o passar dos anos, e dos 56 anos de atividade na vida econômica da cidade, a torre destinada ao Hotel manteve este uso durante 23 anos sendo abandonada a partir de 1985, enquanto o comércio e o serviço local mantiveram-se até o dia 27/05/2018, data determinada para sua desocupação. Como um fim anunciado, por ordem judicial decreta-se o abandono total.

De fato, é preciso reconhecer o estado de risco ao qual seus usuários estão expostos diariamente. Sobre a preservação da vida humana não há subterfúgios, no enquanto, o que não se justifica é quase meio século de negligência. Todo imóvel necessita de reparos e de manutenção para que seja habitado com dignidade e que se cumpra sua função social e o estado de saúde do Hotel Palace é conhecido pelo poder público e por seus cidadãos há décadas. Entre mitos e verdades, é fato o reconhecimento do valor cultural deste imóvel pela sociedade aracajuana. Nesse sentido, o que se questiona nessas linhas não é a necessidade de sanar seus problemas, é que a busca por soluções deve envolver a sociedade civil uma vez que este é um bem cultural de todos, ampliando o debate na busca por soluções técnicas que lhe garantam integridade, a preservação de atributos de sua autenticidade e de sua significância histórica e cultural como importante obra de Arquitetura Moderna em Aracaju.

Entre os dias 09 e 11 de novembro de 2017 foi realizado, no auditório do Museu da Gente Sergipana, o I Seminário do Laboratório de Projeto Ensino e Memória (LaPEM) vinculado ao Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFS, do qual sou vice coordenadora, cujo objetivo foi informar e debater sobre Patrimônio Moderno em Aracaju. Naquela ocasião um dos motivadores do evento foi também o Hotel Palace diante de notícias que vinham sendo veiculadas sobre uma possível ameaça de demolição pelo comprometimento estrutural do imóvel. De lá para cá aprofundamos nossas pesquisas e acreditamos na viabilidade técnica de sua recuperação e estamos desenvolvendo estudos preliminares com o objetivo de investigar possíveis novos usos para o edifício e como sanar patologias em um bem de valor patrimonial. É válido lembrar que o Hotel Palace é um bem de interesse patrimonial listado no Plano Diretor da Cidade de Aracaju, portanto reconhecido pelo Município.

Por fim, dirigimo-nos respeitosamente aos responsáveis pela edificação reforçando a necessidade de que se institua uma equipe técnica, a qual deverá ser multidisciplinar e impreterivelmente ter em sua composição profissionais qualificados na área de intervenção no Patrimônio Moderno, sob o risco de perda de um importante bem patrimonial. A perda, neste caso, não se dá apenas pela demolição, mas pela eliminação de seus elementos e atributos singulares.

A equipe do LaPEM-UFS reafirma seu interesse na busca por soluções que viabilizem a manutenção do Hotel Palace paisagem urbana da cidade de Aracaju colocando-se à disposição para contribuir neste trabalho.


Fonte: Arquiteta e Urbanista Carolina Marques Chaves Galvão