Modelos negros terão cota de 10% em desfiles
Termo foi firmado entre Ministério Público de SP e organização do São Paulo Fashion Week
O Ministério Público de São Paulo e a organização do São Paulo Fashion Week - maior evento de moda do País - fecharam ontem um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) que prevê cota para a participação de ao menos 10% de modelos negros nas passarelas. O documento prevê multa de R$ 250 mil caso as grifes não cumpram a medida.
A empresa Luminosidade Marketing & Produções Ltda., que coordena os desfiles da SPFW, comprometeu-se a comunicar a todas as marcas participantes do evento a inclusão de afrodescendentes, com antecedência mínima de 15 dias a cada edição. O TAC é resultado do inquérito civil instaurado pelo Grupo de Atuação Especial de Inclusão Social (Gaeis) do Ministério Público desde o ano passado, após a constatação de que os desfiles de moda da São Paulo Fashion Week tinham um número muito reduzido de modelos negros ou indígenas.
No documento, a SPFW também se compromete a encaminhar para o Ministério Público, no prazo de 30 dias após cada edição, durante dois anos, a comprovação de cumprimento da cláusula. "Não se trata de querer impor uma cota racial, mas de promover a inclusão social nesse segmento", ressalta a promotora de Justiça e coordenadora do grupo, Deborah Affonso.
Segundo a promotora, na hipótese de impossibilidade de cumprimento da recomendação, em razão, por exemplo, da temática de determinado desfile, a grife poderá apresentar justificativa, que será analisada pelo Ministério Público.
Helder Dias, diretor da HDA Models, que agencia 250 modelos negros, diz que a decisão do MP é positiva, já que, na moda, "o preconceito é escancarado."
"Nossa agência completou nove anos de existência. Durante todo este período, a frase que mais ouvi foi a de que o modelo não atende ao perfil e não representa o cliente", lamenta Dias.
A novidade no SPFW também animou a modelo Juliana Nepomuceno, que apesar de ter completado 18 anos agora, já tem no currículo campanhas na Ásia e Europa. "O preconceito existe em todo lugar, mas é no meu País, marcado pelas diferenças, que eu encontro mais dificuldade para trabalhar", diz. "Até na China e Itália, onde eu achei que as portas sempre estariam fechadas, a beleza negra é mais admirada."
Juliana participou da seleção de modelos do Fashion Rio e, ontem à noite, poucas horas depois da decisão do Ministério Público, participaria de "peneira" da edição paulista. Por sempre ouvir nãos nacionais, os dedos estavam cruzados.
Fonte: Folha OnLine
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