Clínicas depilam crianças de 10 anos, embora haja contraindicação
Clínicas de estética e profissionais da área estão oferecendo nas redes sociais depilação para crianças a partir de 10 anos.
No Instagram, é possível encontrar uma imagem com a promoção: “Traga sua amiga e ganhe até 50% de desconto em seu atendimento”. A frase vem acompanhada da ilustração de duas meninas com laços na cabeça. Entre as hashtags postadas na legenda, está a #depilaçãoinfantil.
Entretanto, a depilação é contraindicada por médicos para crianças menores de 12 anos.
“A gente não recomenda de nenhuma maneira a depilação para crianças abaixo de 12 anos. E a partir dessa idade tem que esperar um ano após a primeira menstruação”, ressalta a dermatologista pediátrica Selma Helene, presidente do Departamento de Dermatologia da Sociedade de Pediatria de São Paulo.
De acordo com a médica, as substâncias usadas para depilar são as mesmas, não importa qual a idade da pessoa que irá se submeter ao procedimento. Entretanto, a pele das crianças é mais vulnerável a complicações.
“A pele é mais fina e não tem a camada de gordura que oferece proteção”, então tem que tomar muito cuidado”, ressalta.
Profissionais que oferecem o serviço dizem que existe uma cera especial para crianças, porém, nada pode garantir que o processo é seguro, enfatiza Selma.
Ela acrescenta que todo tipo de depilação tem um risco inerente: as que são feitas com cera quente e laser podem queimar, a cera fria pode ressecar muito a pele e a lâmina favorece o surgimento de foliculite — pelos encravados junto com infecções.
O trauma da primeira depilação
Um perfil no Instagram compartilhou o relato de uma mulher sobre sua primeira depilação. Ela descreve a experiência como traumatizante e horrível.
“Mamãe me levou pra depilar pela primeira vez depois de um mês da minha primeira menstruação. Eu tinha 12 anos e a calcinha que eu vestia era rosa das princesas da Disney”, relembra.
“Traumatizante. Lembro como se fosse ontem. Não entendi qual a finalidade daquilo, foi horrível”, desabafa, com a última palavra escrita em letras maiúsculas.
Na opinião da neuropsicóloga Deborah Moss, mestre em psicologia do desenvolvimento pela USP (Universidade de São Paulo), as redes sociais proporcionam o acesso a muitas informações, sem qualquer tipo de filtro.
“Então, as meninas são bombardeadas por padrões de beleza irreais e pela noção de que para serem valorizadas não podem ter pelos”, analisa a especialista.
Na avaliação dela, existe um modelo de aparência idealizado que vem ao encontro de uma geração que se torna adolescente cada vez mais cedo.
“A infância é a fase mais curta da vida e está encurtando cada vez mais. Porque se uma menina já se preocupa com pelos, é sinal de que ela não está mais fazendo coisas da sua idade, como brincar”, ressalta.
Deborah chama a atenção para a necessidade de os pais conversarem com suas filhas a fim de identificar o motivo que as faz querer passar por procedimentos de depilação.
“Se realmente incomoda e afeta a autoestima, tudo bem. Mas você tem crianças que nem tinham percebido os pelos e querem se depilar porque foram vítimas de bullying. Elas, na verdade, querem acabar com a zoação e não com os pelos", observa.
No debate que se estabeleceu na web sobre o tema, há muitos relatos de jovens que fizeram a primeira depilação após serem instigadas pelas próprias mães.
“Agora, se são as mães que estão pressionando, já é uma questão de idealizar as filhas nos moldes de beleza que elas alimentam”, pondera a psicóloga.
"Aí, a menina fica tentando corresponder aos ideais da mãe e perde suas próprias referências. Então, tem dois caminhos: se revoltar ou perder a percepção de si mesma", avalia.
A psicóloga ressalta que ná pré-adolescencia — por volta dos 11 anos de idade — o corpo das meninas ainda estão em transformação. "Elas precisam de tempo para sair da infância e reconhecer o próprio corpo."
Ela também destaca que o papel dos pais é conversar com suas filhas e dar a elas diversas referências reais de beleza.
"Meu conselho é não tirar a infância dessas crianças. É preciso permitir que elas se conheçam do jeito que são, pois estão em formação física e psicológica", conclui.
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