Amor que mata: o ciclo da violência visto pelos olhos das filhas

Esta reportagem propõe evidenciar o papel da terapia como caminho para a liberdade de mães e filhas vítimas de violência doméstica

Por Luiza Ferreira 09/05/2026 08h25
Amor que mata: o ciclo da violência visto pelos olhos das filhas
Reprodução/Internet

A casa era uma caixa de ressonância. O amor, uma armadilha silenciosa. Para a criança, o lar é o primeiro mapa do mundo, o lugar onde as regras da afetividade e do convívio são escritas. Mas para milhares de filhas, o primeiro ensinamento sobre o amor não veio em forma de carinho, mas de medo e silêncio. Elas cresceram na linha tênue entre o carinho de uma mãe e o terror provocado pela mão de um pai. Testemunhas involuntárias e invisíveis, essas jovens se tornaram herdeiras de uma herança emocional dolorosa: a crença subconsciente de que afeto e abuso podem, perigosamente, coexistir.

A estudante de Jornalismo Luiza Ferreira fez um mergulho delicado na memória, trauma e afeto, buscando dar rosto e voz a mulheres que viveram dentro do ciclo da violência, investigando como essa experiência molda suas percepções sobre o amor, os homens, e sobre sua própria identidade.

O peso do silêncio: a história de Sandra Regina Melo Silva

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Sandra Melo

Para Sandra Melo, a libertação do ciclo de violência doméstica não veio apenas com o fim do relacionamento, mas com o doloroso despertar para as consequências invisíveis em sua descendência. Sandra foi vítima de violência doméstica por muitos anos e relata ter magoado profundamente a sua filha quando ainda estava no antigo relacionamento. A mesma afirma que presenciar a mãe sofrendo humilhações causou ansiedade e depressão em sua filha por alguns anos.

Fiz muito mal à minha filha e não percebia. Só fui saber quando ela foi ficando maior e me contando. Pois ela viu as violências verbais, ela viu as traições e viu uma mãe submissa e covarde e isso atingiu de uma forma muito ruim a minha filha. Fez dela a mulher forte que ela é hoje, mas também ferida. Foi muito prejudicial."

Afirma Sandra Melo.

Hoje Bacharel em Teologia e estudante de Ciências da Religião, Sandra dedica-se ao estudo da fé e do espírito, mas admite que sua jornada de cura passa, invariavelmente, pelo acerto de contas com o passado.

O desabafo da mesma revela que a "fortaleza" que muitas filhas de vítimas apresentam na vida adulta é, muitas vezes, uma armadura construída para esconder uma vulnerabilidade que nunca pôde ser expressa. A luta de Sandra agora, entre livros e orações, é a de reconstruir não apenas a própria vida, mas os laços de confiança com quem mais sofreu ao seu lado.

O desafio de desaprender o medo: a história de Clarissa Miller Sobrinho Santos

Para as filhas que cresceram sob a sombra da violência doméstica, o maior desafio não termina no momento em que saem de casa; ele se manifesta, muitas vezes de forma silenciosa, na construção de suas próprias relações afetivas na vida adulta.

Esse cenário teórico ganha rosto e voz na história de Clarissa Miller Sobrinho Santos. Enfermeira Assistencial e Agente Comunitária de Saúde, e que alega ter carregado por anos marcas do passado em suas relações interpessoais.

"Sou uma pessoa extremamente ansiosa e um pouco insegura nas relações. Tenho um medo irracional de ser traída, enganada, ou exposta. E por muito tempo eu só resolvia conflitos gritando, sendo também um pouco agressiva, pois foi dessa forma que aprendi a lidar com conflitos em casal. Hoje após muitos anos de terapia isso amenizou, porém tenho que sempre me ‘policiar’ para não repetir o ciclo”.

A luta de Clarissa, e de tantas outras, é a de renomear esses sentimentos. É uma batalha interna para desaprender o roteiro que lhe foi imposto.

Não existe um único desfecho para crianças expostas à violência

A despeito disso, um dos maiores estigmas que cercam filhos de ambientes violentos é o determinismo. A ciência psicológica contemporânea aponta que não existe um único desfecho ou uma sentença para essas crianças. A Doutora em Psicologia Camilla Lima de Araujo, psicóloga clínica especializada em terapia de casal e família, explica que trata-se da construção de modelos internos de relação.

Em muitos casos, a criança vai construindo seus modelos internos de relação a partir das experiências que observa. Isso não significa que ela vá repetir esse padrão na vida adulta — mas pode acontecer de ela naturalizar alguns elementos da violência, como o medo, o silêncio ou a oscilação entre explosão e reconciliação, como se isso fosse parte ‘normal’ de um vínculo".

Explica Dra. Camilla.
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Dra. Camilla Araujo

A especialista ressalta que, quando a violência é uma constante e não há figuras de apoio externas que ofereçam um contraponto, a arquitetura emocional da criança sofre impactos na percepção de segurança. Para quem cresce sob ameaça, o amor e a instabilidade tornam-se faces da mesma moeda.

”Quando a violência é frequente e não há figuras de apoio, a criança pode interpretar que vínculos afetivos são instáveis ou ameaçadores. Isso não determina o futuro dela, mas pode influenciar a forma como ela percebe proximidade, confiança e intimidade. Então, não é que ´a criança vai repetir`. É que ela aprende a organizar o mundo emocional com aquilo que teve disponível”.

A quebra do ciclo

A jornada para curar essa herança emocional envolve, necessariamente, um processo de luto pela infância perdida e pelo pai que deveria ter sido um protetor. Exige que a filha revisite a imagem da mãe, não apenas como vítima, mas como uma mulher que fez o possível dentro de um sistema opressor.

O objetivo final não é odiar os homens ou evitar o afeto, mas sim reconstruir a própria identidade para além da sombra do trauma.

Segundo a Dra. Camilla Araujo, para essas filhas, a maturidade afetiva chega quando elas conseguem traçar novas linhas a partir da:

  1. Regulação emocional: Filhas de mulheres vítimas de violência doméstica geralmente têm dificuldade de nomear e modular emoções. O trabalho clínico ajuda a criar uma linguagem emocional, estratégias de calma e a sensação de que pedir ajuda é possível.
  2. Reconstrução do autoconceito: É comum que filhas de vítimas de violência doméstica cheguem com sentimentos de culpa ou inadequação. A terapia vai ajudar a ressignificar essas narrativas.
  3. Construção de um vínculo seguro: Para muitas filhas de mulheres vítimas de violência doméstica, a relação terapêutica é o primeiro espaço onde o outro não representa ameaça. Essa experiência repetida e estável tem potencial de reorganizar o “mapa afetivo” interno — sem pressa e sem determinismo.

Em outras palavras, o ciclo da violência é poderoso porque é ensinado no berço da afetividade. Mas, como as histórias de Clarissa e Sandra provam, ele não é indestrutível. A reportagem se encerra com a certeza de que a violência doméstica não termina com o fim do relacionamento abusivo; ela deixa rastros que perduram por anos. Mas o amor genuíno e seguro, quando finalmente encontrado ou construído, tem o poder de reescrever a memória, provando que é possível, sim, honrar a dor do passado sem se tornar refém dela.

Queremos a sua voz

Você se reconhece na jornada de Clarissa ou Sandra? Você sente que sua infância impactou o modo como você se relaciona hoje?

Se você está tentando nomear, romper ou transformar a herança emocional da violência, procure apoio profissional. A mudança começa quando quebramos o silêncio.

● Ligue 180 - Central de Atendimento à Mulher

● Procure o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) ou Centros de Atendimento à Mulher (CRM) mais próximos.

*Esta reportagem utilizou nomes fictícios para não revelar a identidade das vítimas.

Por: Luiza Ferreira, estagiária do Portal A8SE, com supervisão da jornalista Laura Marcelino.

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