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Sergipe

Ensino Remoto: atividades que aproximam e participação ativa da família foram pontos estratégicos durante pandemia na Zona Rural de Sergipe

Francimare Araujo

Situada no povoado Triunfo, no município de Simão Dias, Região Centro-Sul de Sergipe, a Escola Estadual Vereador Manoel Sobrinho oferta educação a 110 alunos matriculados. Na unidade estudam crianças e adolescentes nas turmas dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Elas também foram afetadas pelos impactos educacionais provocados pela pandemia do novo coronavírus, porém, o esforço concebido pela unidade para que os estudantes mantivessem as atividades escolares, apesar de tudo, resultou em um movimento que uniu ainda mais as famílias e a comunidade escolar.

Com um plano de trabalho em mãos, a equipe de profissionais da escola aplicaram as soluções encontradas acerca dos efeitos do distanciamento social na vida dos estudantes e a garantia da continuidade do processo educacional. Para tal, acionaram uma metodologia trabalhada no desenvolvimento do ensino não presencial, por meio de um trabalho pedagógico processado de maneira participativa, envolvendo professores, conselho escolar e pais/mães de alunos ou responsáveis.

Com a estratégia de buscar soluções que contemplassem a comunidade rural e adjacências, em função das localidades onde residem as crianças, a escola elaborou atividades de aprendizagem, meios e recursos de comunicação possíveis de serem trabalhados e ao mesmo tempo acessíveis a todos de forma dinâmica, atrativa e instrutiva.

Fundamental para alcançar o objetivo primordial de oferta da educação, a participação ativa das famílias possibilitou o alcance de 100% dos estudantes, considerando, no entanto, as condições socioeconômicas dos alunos para o acesso de atividades por meio digital, disponibilizando material didático e complementar para aqueles sem acesso à internet ou equipamentos tecnológicos, como aparelho celular ou computador.

No campo digital, o WhatsApp foi o principal meio de interação durante as aulas não presenciais, também já era bastante utilizado anteriormente para a divulgação de informes e ações da escola. “Nós optamos, em comum acordo com professores e familiares, trabalhar com um grupo por turma, no formato de postagem apenas por administrador. A escolha desse formato se deu porque os pais reclamavam que a postagem da aula se perdia em meio a tantas informações registradas pelos alunos. Sendo assim, ficou definido que as devolutivas seriam no privado do professor. O grupo só fica aberto quando há atividades interativas como gincanas ou jogos”, cita a gestora Adriana Souza de Santana.

Segundo ela, a comunicação feita para promover engajamento por parte dos professores, estudantes e responsáveis aconteceu por meio de reuniões virtuais realizadas no Google Meet, com pais, professores e comunidade escolar, com a finalidade de sensibilizar e divulgar as estratégias a serem utilizadas no período de ensino remoto; além do uso de cards, vídeos e comunicados escritos e disponibilizado nas redes sociais (whatsapp, facebook e instagram).

Passada a fase de adaptação, o acompanhamento do desempenho dos estudantes se dá com a devolutiva das atividades cumpridas. Para isso, diversas são as formas, não somente digital e online, encontradas para efetivar, ainda que parcialmente, o ensino e a aprendizagem entre professor e aluno na forma remota.

O envio de fotos e vídeos para o professor nos horários das aulas e apresentação dos mesmos no retorno das aulas presenciais, sendo observada a desenvoltura do aluno na exposição de ideias por meio das plataformas interativas e a devolução das atividades impressas na quinzena são meios pelos quais a equipe escolar avalia qualitativamente o desempenho dos estudantes. “Os professores fazem o registro em lista de frequência específica para o momento tendo por base a matrícula do Sistema Integrado de Gestão Acadêmica (SIGA)”, relatou a diretora Adriana.

As principais dificuldades enfrentadas são referentes a uma parcela de alunos que tem pouco apoio da família e apresentam dificuldades na realização das tarefas. “É preciso estar em contato constante com as famílias por meio telefônico para que estas compareçam à escola, a fim de receber as orientações e promover o engajamento dos alunos nas atividades propostas”, completou Adriana.

Para fomentar a reunião de pais, mães ou responsáveis dos alunos, a unidade traçou a meta de realizar um encontro por mês. O momento serve para informar e orientar sobre o ensino remoto, assuntos relacionados às atividades escolares, bem como ouvir opiniões e sugestões. O fato de os pais se tornarem aliados dos agentes educacionais visando o êxito das aulas remotas gera uma rede de apoio e proteção para as crianças que iniciam a trajetória escolar, para amenizar os prejuízos causados pela suspensão temporária das aulas presenciais.

As crianças deveriam estar na escola, no ambiente que promove a vida social, porém, as consequências da pandemia apontam para a alternância de metodologias de ensino e aprendizagem, tangendo a comunidade escolar para o ensino remoto em caráter não permanente. Para substituir a rotina escolar em sala de aula, por meio do grupo de WhatsApp, os professores enviaram áudios explicativos, links de vídeos, proposta de atividades no livro didático ou impressas. A cada quinzena, eram distribuídos os roteiros com as tarefas e um bloco de atividades.

“Os professores ficaram online de segunda a quinta-feira, durante o seu turno de trabalho, geralmente em um período de duas horas para esclarecer dúvidas, mediar o desenvolvimento das atividades e dar retornos sobre o envio dos alunos”, relatou a gestora da unidade, Adriana, ao exemplificar uma das ações de atendimento aos alunos.

A cada quinze dias os pais, mães ou responsáveis dos estudantes se locomovem até a escola para buscar um livro da Carroteca, biblioteca itinerante sediada na própria unidade. Um caderno de registro é preenchido para o acompanhamento destes livros. Quando eles devolvem o material, os mesmos são separados por um período devido aos riscos de transmissão da covid, e depois utilizamos novamente. Os alunos preenchem fichas de leitura, gravam vídeos fazendo o reconto ou a produção textual.

Mas as aulas também acontecem de outras formas para que o ensino se torne não apenas um dever a ser cumprido, mas que também proporcione a diversão suficiente para promover a aprendizagem de um outro jeito. Assim foi a Gincana, realizada para celebrar a independência de Sergipe e o Folclore Brasileiro. Os desafios propostos e estabelecidos por meio de critérios envolviam atividades de História, Cultura Sergipana, Matemática, Língua Portuguesa, etc.

A prática docente da professora Sandra Abreu exemplifica como funcionam as aulas remotas nos anos iniciais do Ensino Fundamental no povoado Triunfo. Ela leciona para a turma do 3º ano, composta por crianças na faixa etária entre 8 e 9 anos. A rotina começa com o planejamento da aula considerando o novo cenário e, em consequência, a nova forma de trabalhar remotamente. Assim, a professora Sandra prepara aulas embasadas nas capacidades e habilidades dos estudantes. Esse processo de montagem das aulas não presenciais conta com a inserção de atividades mais lúdicas, que possam envolver o estudante em meio a tarefa, de modo que o faça esquecer, ainda que ligeiramente, que estão em casa e não na sala de aula, em um momento de concentração.

A professora Sandra percebeu no percurso que algumas crianças bastante inibidas no dia a dia da sala de aula passaram a ser mais expressivas nas atividades onde era necessário gravar um vídeo, por exemplo. A desenvoltura é outra, talvez porque os nativos digitais são essas crianças, já que nasceram e cresceram cercados pelas novas tecnologias. “As devolutivas das crianças mostram que elas eram mais inibidas na escola, o contrário de hoje, que já enviam vídeo com leitura, produções de acordo com o nível e a idade delas, mas que provam estarem construindo dia após dia”, disse.

Já a professora Jéssica Adauto, regente de classe do 4º ano (9 e 10 anos), confessa que foi se reinventando a cada dia ao passo em que ocorriam mudanças significativas na prática docente e na vida de cada indivíduo da comunidade escolar. Segundo ela, o foco foi manter o vínculo com os alunos, dispondo de não somente as aulas, mas verdadeiramente de um apoio para suprir ou minimizar a ausência física da professora, sendo estabelecido a meta de não estacionar no tempo e semear a esperança. “Não foi nada fácil, mas está sendo possível. Estamos dando o nosso melhor a cada dia nos reinventando e nos adaptando“, concluiu.

Segundo Jéssica, a prática docente foi constantemente estimulada pelos gestores, provocando também o engajamento dos alunos, sempre considerando a realidade em que vive cada criança e suas famílias. Alguns dos métodos utilizados por ela promoveu a participação de pais, reforçando no dia a dia que as crianças precisam do apoio da família no processo de ensino e aprendizagem, seja com o pai ou a mãe realizando tarefas conjuntas, como leitura e outras atividades cognitivas.

Para isso, a docente abusou da criatividade e da persistência. Na leitura, Jéssica intensificou as contações de histórias online. Na frente da tela, ela revalidou para as crianças que a prática de leitura deve ser feita em casa, durante as aulas remotas ou nos horários livres. Com a finalidade de fomentar a construção de brinquedos partindo da ideia de sustentabilidade, a professora lançou o desafio de as crianças construírem um brinquedo com caixas de papelão, principalmente, sejam de remédios ou maiores. Os alunos fizeram robôs, maquetes de cidades e casas. Além disso, orientou os alunos a confeccionarem também objetos sólidos, geométricos, diversificando e adaptando o conteúdo de cada disciplina. “Estamos por aqui nos reinventando a cada dia e buscando novas alternativas para suscitar a aprendizagem nos nossos pequenos, mostrando o quanto a educação é importante, o quanto a educação é necessária”, concluiu Jéssica.