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Sergipe

Presépio causa polêmica em Lagarto

Uma linha artística moderna, criada pelo designer Martins Filho, gerou polêmica em Lagarto.O designer Martins Filho criou uma obra artística feita de alumínio, ferro, com pedras e luz

Uma linha artística moderna, criada pelo designer Martins Filho, gerou polêmica em Lagarto, cidade situada na microrregião do agreste de Sergipe. Nela, habitam cerca de 94 mil pessoas, em sua maioria, católicos e que preservam o tradicionalismo.

Presépio de Lagarto (Foto:Laelson Correia )

No ano de 2009, o designer Martins Filho criou uma obra artística feita de alumínio, ferro, com pedras e luz, um monumento que representa o presépio natalino, mas foge dos padrões e arquétipos impostos pelo comum. Não há figuras de anjos, animais e nem feições humanas, dos santos José, Maria. A obra, segundo o autor, possui tendência inovadora e significativa."É algo novo, diferente e feito com dedicação. Possui significados muito importantes e apesar de ser moderno, o sentido é o mesmo, o resgate do espírito natalino".

O presépio é formado por pedras, alumínio e luzes (Foto:Laelson Correia)

Mas parece que os lagartenses não compreenderam o significado da obra. Em enquete realizada pelo site Lagartense.com.br a obra foi reconhecida pelos fiéis como "presépio do inferno". Para o designer, muitos não se redimiram à arte futurista e se renderam ao que é denominado por artistas de arcaico. "Esse presépio é a maior presepada já vista em Lagarto", disse Cleverton Alencar, morador da cidade.

Já o lagartense Claudefranklin Monteiro explora seu ponto de vista com leveza. "Sinceramente, para certas coisas, Lagarto ainda é provinciana, no pior sentido da palavra. O que existe em relação ao artista Martins FIlho é preconceito. As pessoas não são suficientemente sensíveis para perceber a importância de um ato representativo. Uma sociedade tacanha e preconceituosa como a nossa não pode falar em sentimento natalino, sem que antes se livre dos laços conservadores".

Fátima Mara aproveitou a enquete para fazer uma crítica à população. "As pedras do presépio a meu ver, dizem muito mais do que simples adornos.Talvez signifiquem os corações infiéis e impiedosos, de alguns lagartenses, que usam até Deus, pra fazer campanha política! Parabéns a Martins Filho, por mais uma vez fazer o que ninguém tinha feito".

Autor da obra, Martins Filho (Foto:Laelson Correia)

Martins Filho lamenta a opinião negativa de muitos, mas não se deixa desanimar e diz acreditar que toda arte quando se torna real e de potencial, gera polêmica."Eu não sou nenhum artista, mas gosto de misturar o novo explorando criatividade e ao mesmo tempo querendo transmitir uma mensagem importante para as pessoas, de acordo com o material que usei para desenvolver a obra".

Segundo Martins Filho, as pedras por exemplo são frias, duras, representa a frieza das pessoas que precisam acordar para o que é importante, os laços familiares. A cena do nascimento de Jesus é sinônimo de reunião familiar, de paz, amor... mas as pessoas estão esquecendo isso..., é preciso galgar e retirar as pedras, uma por uma, do coração de cada um", disse o autor da obra.

Análise de um artista visual

Elias Santos é artista visual e instrutor de artes do Senac em Sergipe e diversas entidades, há mais de 40 anos.Conhecido internacionalmente, tem suas obras espalhadas em centros comerciais de Nova York e Paris. É destaque por misturar o tradicionalismo sergipano com inovações artísticas explorando a xilogravura e outros artifícios da arte. Ao ser surpreendido com o Presépio polêmico de Lagarto, Elias justificou que a arte causa estranheza e admiração, mas o faz refletir sobre o olhar e gosto.

Artista visual Elias Santos (Foto:Laelson Correia)

"O artista construiu um presépio. Presépio este que foge dos padrões tradicionais, propondo uma nova visão deste momento natalino. A obra possui criatividade e estilo, traduzindo em movimentos, forma, luz, trazendo para a cidade um diferencial que a destaca dos demais municípios do estado", admira.

Elias também explica que o processo de expressão do artista deve ser respeitado. "Aqui e em qualquer lugar gosto não se discute, mas o processo de expressão do artista é livre e infinito, associado à pesquisa e questionamentos, os quais foram possíveis perceber neste trabalho".

E finaliza explicando a importância de não parar no tempo e abrir portas para a modernidade mantendo o real significado. "A obra de Martins, por exemplo representa muito mais que um simples presépio. Nos detalhes do monumento há expressão de sentimento", disse Elias.