No caminho certo
A capital sergipana se destaca, nacionalmente, como a cidade ideal para o uso da bicicleta
Não é preciso percorrer toda a cidade para perceber que Aracaju mudou significativamente, pelo menos nos últimos quatro anos, com relação ao uso da bicicleta. Foram construídas as primeiras ciclovias, o número de ciclistas aumentou visivelmente, as lojas especializadas em bicicletas se proliferaram em toda a capital e foram instalados alguns bicicletários.
Isso tudo fez com que Aracaju se destacasse, inclusive nacionalmente, no quesito ‘cidade ideal para o uso da bicicleta`. Claro que algumas características da capital sergipana já facilitam a utilização desse meio de transporte. A cidade é quase que totalmente plana, seu território é pequeno, o clima é agradável.
Foram construídos mais de 56 km de ciclovias e três bicicletários, sendo um no Parque Augusto Franco (Sementeira) e dois localizados no Centro, com capacidade para 40 bicicletas, equipados com paraciclos duplos e seguindo padrões adotados mundialmente. Mas, para que uma cidade seja considerada modelo para o uso das bikes, é preciso um pouco mais. A infraestrutura necessária para utilização desse modal é importante e inclui ciclovias, ciclofaixas - localizadas nas laterais da pista -, bicicletários, paraciclos, malha viária de qualidade etc.
As ciclistas Nellie Rabanal, Geneviève LeBlanc e Nara Matos (Foto: Silvio Rocha)
Segundo Fabrício Lacerda, coordenador de Ciclomobilidade da Superintendência Municipal de Transporte e Trânsito - SMTT, a sinalização das vias é fundamental para facilitar o dia-a-dia do ciclista. "Não podemos apenas construir ciclovias ou implantar bicicletários. É preciso sinalizar, informar ao ciclista que essas estruturas existem", defende.
Cenário atual
Segundo dados da Prefeitura Municipal de Aracaju, os números existentes com relação ao uso da bicicleta na cidade revelam que houve, nos últimos anos, um movimento de ampliação dos investimentos no que se refere à infraestrutura na área. Foram construídos mais de 56 km de ciclovias e três bicicletários, dois localizados no Centro, com capacidade para 40 bicicletas, equipados com paraciclos duplos e seguindo padrões adotados mundialmente, e um terceiro no Parque Augusto Franco (Sementeira).
Desde 2001, já foram investidos mais de R$ 11 milhões na ampliação e estruturação de vias exclusivas para ciclistas. De acordo com Fabrício, o trabalho feito pela PMA, através da SMTT, tem como base a projeção de novas ciclovias, o acompanhamento da execução dos projetos, a fiscalização das ciclovias já existentes, e ações de educação no trânsito.
Outros dados animadores com relação a Aracaju é que a cidade é hoje a terceira capital brasileira no ranking da extensão de ciclovias, perdendo apenas para o Rio de Janeiro, com 150 km, e Teresina, no Piauí, que tem 60 km. Ainda de acordo com o coordenador de Ciclomobilidade, todas as ações propostas pela SMTT são fruto do constante diálogo estabelecido com os ciclistas. "Contamos sempre com a ajuda dos próprios ciclistas e seus grupos, que estão cada vez mais envolvidos. A melhor forma de dar continuidade às políticas públicas é através do diálogo", afirma ele.
Diversidade de opiniões
Entre os ciclistas, diferentes opiniões habitam o debate sobre a questão do uso das bikes e a estrutura disponível na cidade. Para o pesquisador Paulo Carneiro, Aracaju está no caminho certo para estimular ainda mais a utilização desse meio de transporte. "Acho isso principalmente por conta dos planos de construção de novas ciclovias, além do interesse em analisar características europeias e adaptá-las à cidade", diz.
Para a administradora Geneviève LeBlanc, canadense que mora na cidade há pouco mais de um ano, Aracaju é uma cidade muito boa para se andar de bicicleta, já que é pequena e plana. "Acho que no mundo inteiro não há uma cidade com tanto potencial quanto Aracaju para se tornar uma cidade onde o trânsito é baseado no ciclismo. Mas acho as ciclovias localizadas no meio das vias muito perigosas. O ideal é que se instalem no acostamento, nos dois lados da rua", defende ela.
Já a funcionária pública e cicloativista Nellie Rabanal acredita que, além da cidade ser pequena e plana, a existência de ciclovias é mais um ponto positivo. "Apesar de não cobrirem suficientemente a cidade como um todo, as ciclovias já são um incentivo para não se fazer todo o trajeto pelas ruas", declara, defendendo ainda que, se houvessem caminhos mais seguros para se andar de bicicleta, mais pessoas se sentiriam estimuladas a utilizá-las.
O também estudante Marks Moura acredita que houve melhorias na infraestrutura da cidade, mas diz que as ciclovias ainda não são ideais e que os bicicletários não oferecem total segurança. Para o jornalista Arthuro Paganini, um dos principais avanços notados nos últimos anos é que a Aracaju tem hoje uma rede de ciclovias que integra os principais pontos da capital. "A segurança dos ciclistas também aumentou e isso incentivou outras pessoas a utilizarem a bicicleta", frisa.
Marks Moura, Pedro Dória e Kelvin Tristania (Foto: Silvio Rocha)
O jornalista Arthuro Paganini diz que a segurança dos ciclistas incentivou outras pessoas ao uso da bicicleta (Foto: Arquivo Pessoal)
Novas ideias
Para Arthuro, melhorar o sistema cicloviário é um passo para estimular os aracajuanos a utilizarem cada vez mais a bicicleta. "A melhor forma de incentivar o uso da bicicleta é oferecer ao cliente promoções, descontos e outros benefícios. Imagine uma promoção em que alunos que utilizam bicicletas têm desconto na mensalidade, ou chegar ao banco e ter um caixa exclusivo para clientes que utilizam bicicleta. Isso tudo pode ser concretizado e pensado da melhor forma possível", sugere ele.
Nellie defende que os principais pontos de mudança são a reforma das ciclovias existentes, o aumento da malha cicloviária e a promoção de campanhas que promovam a bicicleta como transporte alternativo. "Nossa cultura é fortemente arraigada à necessidade de um automóvel, não há campanhas de conscientização de respeito ao ciclista, por exemplo. Acho que deveria ser difundido que a bike é realmente um meio de transporte eficiente e alternativo, menos poluente e mais democrático", enfatiza a funcionária pública.
A canadense Geneviève, que durante a maior parte da sua vida teve contato com outra realidade no que se refere ao uso da bicicleta, acredita que a infrastrutura é necessária, mas o que ela mais sente falta em Aracaju é a ‘cultura` do ciclismo. "Parece que aqui, se todo mundo pudesse ter um carro, não haveria mais ninguém nos ônibus e pouquíssimos ciclistas. Acho que é preciso valorizar o uso da bicicleta e não vê-la como a última opção de transporte", defende.
Segundo Fabrício Lacerda, ainda há muita coisa a ser feita para estimular o uso da bicicleta. "Mas também existe bastante coisa boa. Muitas ciclovias estão sendo utilizadas tanto por pessoas que usam a bicicleta para ir de casa até o trabalho quanto por quem pedala como forma de lazer", diz.
Modelo europeu
O pesquisador Paulo Carneiro, que atualmente mora em Valencia, na Espanha, acredita que inúmeras características encontradas em toda a Europa podem ser adotadas em Aracaju, a um custo relativamente baixo e a curto prazo. "O que mais chama a atenção aqui é a quantidade de ciclovias. Pode-se andar por praticamente toda a cidade sem sair delas. Muitas são apenas faixas que percorrem calçadas mais largas, não necessitando, portanto, de custos muito elevados para sua implantação", afirma ele.
Pesquisador Paulo Carneiro em Valência, na Espanha (Foto: Arquivo Pessoal)
O coordenador de Ciclomobilidade da SMTT viajou durante 24 dias pela Europa e teve a oportunidade de conhecer inúmeras iniciativas bem sucedidas em cidades europeias. Nos quatro países visitados - França, Holanda, Bélgica e Alemanha -, Fabrício observou características muito específicas no que se refere à mobilidade urbana.
Ele conta que, na Europa, tudo o que é feito em termos de mobilidade urbana é cuidadosamente planejado e que a relação entre motoristas, pedestres e ciclistas é extremamente pacífica, se comparada ao que se vê no Brasil. "Na Europa, faixa de pedestres é uma coisa sagrada. Todo mundo para e deixa o pedestre e o ciclista passarem, mesmo quando a preferência é dos carros", diz.
Segundo o diretor de meio ambiente da Sociedade Semear, Waldson Costa, que também é cicloativista, é importante salientar que a discussão sobre o uso da bicicleta, tanto em Aracaju como em todo o Brasil, é ainda muito recente, se comparada aos países europeus. "Na Europa, eles vêm pensando soluções a respeito disso há muito tempo. Ainda temos muito para avançar, mas pelo menos já temos bons exemplos a seguir", declara Waldson.
Vantagens
Um meio de transporte barato, democrático, rápido, menos poluente e promotor da qualidade de vida. Essas características são as mais citadas quando se fala da bicicleta. Segundo a canadense Geneviève, andar de bicicleta no Canadá é uma opção muito bem aceita pela sociedade. "Lá, usar bike é percebido como uma escolha para colaborar com a diminuição da poluição e também para a promoção da saúde, já que o tempo gasto para se deslocar é também usado para fazer exercício físico", ressalta.
Para o estudante Marks, pedalar traz tranquilidade, alegria, motivação, além da oportunidade de conhecer novas pessoas no caminho. Na mesma linha está o também estudante Pedro Dórea. "Andar de bicicleta melhora o condicionamento físico, além de ser uma alternativa muito agradável para se locomover", garante.
De acordo com Luciano Aranha, que tem formação em Educação Física, os órgãos públicos ligados à saúde também deveriam incentivar o uso da bicicleta. "Pedalar combate o sedentarismo e reduz a incidência de doenças cardiovasculares", defende. Ele diz também que a bicicleta vai trazer saúde para Aracaju, deixando a cidade mais humana. "Com mais pessoas andando pelas ruas, o número de assaltos vai diminuir sensivelmente. Foi assim em Bogotá. Se isso deu certo lá, porque não funcionaria aqui?", indaga Luciano.
Waldson Costa, um dos fundadores da ONG Ciclo Urbano (Foto: Alejandro Zambrana)
"Pedalar combate o sedentarismo", diz Luciano Aranha (Foto: Alejandro Zambrana)
Waldson Costa, um dos fundadores da ONG Ciclo Urbano acredita que utilizando bicicletas é possível sentir o espaço urbano de uma maneira diferente. "Pedalando, as pessoas vivem o espaço e se relacionam diretamente com a cidade", assegura o cicloativista.
Investimentos
Luciano Aranha, do Projeto Mobilidade Verde e membro da Bicicletada Aracaju, evento por meio do qual os ciclistas se reúnem para reivindicar seu espaço nas ruas, acredita que, com investimentos do poder público, Aracaju tem tudo para se tornar a cidade das bicicletas. "Também precisamos pensar nos outros municípios sergipanos. Seria ótimo ver Sergipe como o estado amigo da bike", diz.
A arquiteta Nara Matos reivindica a realização de campanhas publicitárias que incentivem as pessoas a ir para o trabalho de bicicleta. "Ao invés de investir em vale-transporte, as empresas poderiam financiar a compra de bikes para que os trabalhadores pudessem utilizá-la como meio de transporte", defende ela.
Quem partilha da mesma opinião é Waldson, que acredita que é preciso promover discussões e pensar no planejamento de infraestrutura e de educação no trânsito. "Se compararmos os investimento em estrutura urbana direcionada para quem anda de carro, a infraestrutura necessária para o uso da bike é muito mais barata". Fabrício assina embaixo do que diz o cicloativista. "É preciso pouco dinheiro para fazer essas mudanças acontecerem. Precisamos sim ter vontade de mudar", assegura. Luciano acredita que é uma questão de tempo para que o cenário seja modificado. "Eu sou paciente e sei que vou ver Aracaju se destacando nacionalmente como cidade amiga da bicicleta. Essas mudanças vão acontecer porque estamos lutando por isso".
Por Najara Lima
