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Jornalista é demitido por pressão dos Kirchner

Repórter é afastado por denúncias de sobretaxas; Néstor e Cristina Kirchner têm relação tensa com a mídia

30/09/2015 19h03
Jornalista é demitido por pressão dos Kirchner
A8SE

Associações de defesa da liberdade de imprensa, sindicatos de jornalistas e aos principais meios de comunicação criticaram intensamente a demissão do jornalista Nelson Castro da Rádio del Plata. A remoção do prestigiado analista político, que há 16 anos realizava seu programa "Pontos de Vista", teria sido causada pelas denúncias que fez sobre supostas sobretaxas - de um total de US$ 50 milhões - aplicadas pela empresa de engenharia Electroingeniería na Patagônia, região onde o ex-presidente Néstor Kirchner e sua esposa e atual presidente, Cristina Kirchner, possuem seu feudo político. Os analistas afirmam que trata-se de um caso de "censura encoberta".

A rádio foi comprada em novembro passado pela própria Electroingeniería, empresa famosa por seus vínculos de amizade com o casal Kirchner. Na ocasião, Castro perguntou aos novos diretores como reagiriam se houvesse, por acaso, alguma denúncia de corrupção contra a empresa. Os diretores asseguraram que contaria com total liberdade de imprensa. A promessa durou três meses.

No início do ano, Castro, médico de formação, causou irritação no casal Kirchner quando declarou que a súbita licença da presidente por motivos de saúde "chamava a atenção". Na ocasião, a Casa Rosada anunciou que Cristina havia tido uma lipotimia (pré-desmaio) e que por isso ficaria 48 de repouso (depois ampliado para cinco dias). "Uma lipotimia só precisa duas horas de descanso. Muito estranho", disse Castro, que suspeita de um caso de "depressão".

Os analistas indicam que Castro já estava na mira dos Kirchner desde essas declarações. A denúncia sobre a Electroingeniería teria sido a gota d`água. Os Kirchners possuem uma relação tensa com a imprensa, com a qual costumam não falar ("eles falam direto com o povo, não precisam de intermediários tal como os jornalistas", afirmou um assessor dos Kirchner ao Estado em 2006). Em diversas ocasiões, tanto Néstor como Cristina indicaram que a imprensa estava por trás da preparação de um "golpe de Estado" contra eles.

ONGs de defesa da liberdade de imprensa afirmam que vários jornais, canais de TV e rádios foram comprados nos últimos anos por empresários sem tradição na área de mídia, mas com o ponto comum de serem amigos dos Kirchner. Na quinta-feira, o tradicional jornal "La Nación" criticou os Kirchner em seu editorial, afirmando que são "os que mais `cacarejaram` sobre Direitos Humanos, mas também são os que menos os respeitaram no último quarto de século". O "La Nación" também sustenta que "os meios de comunicação complacentes com a política oficial beneficiam-se com chamativas verbas de publicidade oficial".

Castro declarou à imprensa que o caso é uma demonstração de "que este é o verdadeiro Kirchner. O Kirchner intolerante". Segundo ele, o governo pretende "suprimir vozes críticas em um ano eleitoral". Em outubro a presidente Cristina enfrenta decisivas eleições parlamentares.

Fonte: Estadão

 

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