Vaticano abafou caso do padre que abusou de 200 crianças surdas
Igreja concentrou-se em evitar o escândalo e não nas vítimas
Altos responsáveis do Vaticano - incluindo o Papa Bento XVI - não tomaram medidas contra um padre que abusou de mais de 200 rapazes, noticia o "The New York Times".
Papa Bento XVI ignora o caso para preservar imagem da Igreja (Fonte: Público)
Documentos da Igreja revelam que as autoridades religiosas foram repetidamente avisadas por vários bispos norte-americanos que a ausência de medidas poderia vir a tornar-se num embaraço para a Santa Sé.
O diário refere a existência de correspondência directa trocada entre os prelados de Wisconsin e o cardeal Joseph Ratzinger (agora Papa Bento XVI), que prova que a preocupação central do clero não foi pensar na demissão do padre, mas na forma de proteger a Igreja do escândalo.
O caso, adianta o NYT, envolve o padre americano Lawrence C. Murphy, que trabalhou numa escola de crianças surdas entre 1950 e 1974. Mas este será apenas um dos milhares dos que foram denunciados ao longo de décadas pelos bispos à Congregação da Doutrina da Fé (CDF), dirigida por Ratzinger entre 1981 e 2005.
Em 1996, o arcebispo de Milwaukee Rembert G. Weakland enviou duas cartas a Ratzinger, sem obter resposta. Ao fim de oito meses, o vice da CDF, cardeal Tarcisio Bertone (actual secretário de Estado do Vaticano), deu instruções aos bispos americanos para darem início a um julgamento canónico que poderia levar à demissão do padre Murphy.
Mas Bertone acabou por pôr um travão no processo, depois de o padre ter enviado uma carta de protesto a Ratzinger, afirmando estar arrependido e ter uma saúde frágil, e defendendo que o caso ultrapassava o pelouro da Igreja. "Simplesmente, pretendo viver o tempo que me resta na dignidade do meu ofício", escreveu pouco antes de morrer.
A notícia do diário norte-americano surge um dia depois de Bento XVI ter aceite a demissão do bispo irlandês John Magee, secretário de três papas e acusado de encobrir casos de abusos na diocese de Cloyne.
Os escândalos têm vindo a multiplicar-se. O Papa aproveitou a marcha de sábado do dia de St. Patrick, um feriado importante na Irlanda, para enviar saudações aos irlandeses e lamentar décadas de abusos no país.
Mas na Alemanha, onde nasceu, os fiéis estão ainda à espera de ouvir Bento XVI, referia ontem a Associated Press. Desde Janeiro que mais de 300 antigos estudantes de escolas católicas e grupos corais alemães apresentaram queixas de abusos. O Governo de Berlim anunciou ontem que vai formar um comité de 40 especialistas para investigar.
Fonte: Com Informações do PÚBLICO
