Câncer: mais de 20% das mulheres com idade entre 25 e 64 anos não fizeram exames preventivos nos últimos três anos
Uma pesquisa feita pelo Instituto Oncoguia revelou que a demora em ter acesso a um especialista, a baixa taxa de mulheres que fazem o exame preventivo (Papanicolau) e a tempo de espera para fechar o diagnóstico são fatores que dificultam a cura do câncer de colo do útero. O assunto foi discutido pela Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado, atendendo a uma solicitação da senadora Maria do Carmo Alves (DEM).
A audiência foi presidida pela senadora sergipana e contou com a participação de especialistas no assunto. “Foi uma discussão enriquecedora que trouxe à luz questões importantes sobre a necessidade de conscientizarmos as mulheres para a prevenção desse câncer, cuja chance de cura chega a quase 100%, quando há ação preventiva ou descoberto precocemente”, afirmou Maria.
De acordo com os especialistas, a cada dois minutos, uma mulher morre de câncer de colo de útero no mundo. Eles foram unânimes ao dizer que a prevenção é essencial, pois esse tipo de câncer é evitável. “Estamos falando de uma doença que não deveria existir”, disse a presidente do Instituto Oncoguia, Luciana Holtz.
Baixa adesão
Um dos fatores, salientou Holtz, é a baixa adesão à vacina contra o Papiloma Vírus (HPV), cujas lesões, se não tratadas evoluem para um câncer. “A existência dessa vacina é um dos fatores que tornam a prevenção da doença tão eficaz”, disse o representante da Associação Médica Brasileira, Etelvino Souza Trindade.
Para ele, o câncer de colo de útero apresenta um dos mais altos potenciais de prevenção, perto de 100% de cura, porque, no seu entender, existem duas coisas que agem fundamentalmente na evolução da doença: a prevenção primária, que pode ser feita pela vacina, e uma prevenção secundária, que é o diagnóstico precoce.
“A não ser em casos excepcionais, a doença leva, no mínimo, sete anos para evoluir. E as ações interventivas da medicina são suficientes para chegar praticamente a 100% de cura”, afirmou Etelvino, lembrando que o custo de tratamento no caso de lesões incipientes, totalmente curáveis, é de 18 dólares, com índice de sobrevida de 100%. Quando o câncer está em estágio avançado, o custo vai para 2,2 mil dólares, com chance de sobrevida é de apenas 10%”.
Na audiência, os profissionais ressaltaram que apesar da vacina ser gratuita, ainda há muita resistência e barreiras a serem quebradas. Um deles é o pouco conhecimento sobre o HPV e sobre a própria vacinação. “A gente precisa tirar o foco da vacina da discussão sexual e levar o debate nos moldes do que é a vacinação contra hepatite, por exemplo”, alertou a diretora da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, Angélica Nogueira, enfatizando que a vacina anti-HPV “é uma vacinação anticâncer, e não uma vacinação para doenças sexualmente transmissíveis”.
Precisa educar
Para a médica A médica oncologista Nise Hitomi Yamaguchi, representante da Associação Brasileira de Mulheres Médicas, o mecanismo para que a incidência possa diminuir daqui a dez anos é a vacinação, tanto de meninas quanto de meninos. Ela lembrou que as vacinas são consideradas seguras pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
“Temos que aproveitar o momento para educar a nossa população e fazer com que o nosso programa de vacinação, que é o maior do mundo, tenha eficiência”, destacou, acrescentando ser necessário “integrar ações das redes municipais, estaduais e federal de uma maneira lógica inteligente, de modo a coibir uma doença evitável, que poderia ser rasgada do mapa, tirando o sofrimento desnecessário de tantas mulheres”.
Ela lembrou que as diferenças regionais são significativas e que nove em cada dez mulheres que morrem de câncer cervical uterino são de países de baixa ou média renda. Todos os participantes da audiência concordam que é possível eliminar a doença com as estratégias que o governo já financia. “Então, o que precisamos é adotar instrumentos de informação e difusão sobre o problema, conscientizando a população da importância dessa vacina que é gratuita e deve ser usada, já na adolescência”, finalizou a senadora.
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