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Apaixonado, menino de 15 anos viaja clandestino de SP a AL

30/09/2015 20h31 - Atualizado 29/09/2020 às 10h04
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Uma paixão via internet de um garoto de 15 anos por uma jovem de 19 anos mobilizou, durante 15 dias, polícia e conselhos tutelares em dois estados e deixou duas famílias em desespero. Felizmente, tudo acabou bem. Nesta quinta-feira (14), a mãe do menor vai reencontrá-lo e ele está em segurança.

O garoto P.V.S.L. saiu de Praia Grande, litoral de São Paulo, num ônibus clandestino, só com a certidão de nascimento, algumas mudas de roupa e um pouco de dinheiro, e veio parar em Maceió. Queria encontrar a jovem Erika Taina, de 19, com quem namorava pelo MSN às escondidas dos pais. O garoto desapareceu de casa no dia 29 de março, e só foi encontrado em Maceió porque os diálogos entre os dois (ardentes, da parte dela) foram rastreados na lan-house que ele frequentava, em Praia Grande.

A perigosa aventura que P.V. resolveu fazer - e que poderia ter acabado em tragédia - é resultado de um fenômeno que se multiplica pelo Brasil e o mundo afora: crianças, adolescentes e jovens se relacionam com pessoas que não conhecem, pelo MSN e pelas redes sociais da internet, sem que os pais saibam com quem estão se envolvendo e o que está sendo conversado.

P.V.S.L., um estudante bem-comportado, vinha tendo comportamento estranho nos últimos tempos. Seus pais começaram a ficar preocupados quando souberam que ele estava faltando demais à escola particular em que estuda.

O menino "matava" aulas para ir a uma lan-house teclar no MSN com Erika. Da parte dele (que usava o codinome "Bombeiro"), eram mensagens de um garoto sonhador que descobre estar apaixonado e fica esperançoso para ter iniciação sexual. Da parte dela (que usava seu verdadeiro nome), a conversa era mais adulta, chamando o menino para vir encontrá-la e realizar as fantasias. Ela deu o endereço incompleto. Mas isso bastou para o garoto. Ele partiu para a aventura.

No dia 29, P.V. sumiu de casa. Foi para São Paulo, e não se sabe ao certo onde ficou até conseguir viajar para Maceió. Como é menor e só levava consigo a certidão de nascimento, não poderia comprar passagem de empresa regular de ônibus. Descobriu então que havia ônibus clandestinos, desses que fazem viagens interestaduais e aceitam qualquer passageiro, desde que pague. Embarcou em um deles.

Chegou em Maceió no sábado, dia 3. Conseguiu achar o bairro e a residência da jovem amada, uma morada simples na periferia. Bateu palmas, esperançoso. Não havia ninguém em casa. O garoto perambulou pelo bairro, voltava à casa e não atendiam. Dormiu em um restaurante ali perto. No dia seguinte, encontrou a jovem. A família dela o acolheu em casa, mas ficou apreensiva. P.V. mentiu, disse que os pais sabiam de sua viagem.

Enquanto isso, em Praia Grande, os pais do garoto, desesperados, procuraram a polícia. O delegado disse que não era sua competência, porque tratava-se de um menor. Recomendou que procurassem o Conselho Tutelar de Praia Grande. "Eles chegaram até nós por intermédio de um vereador daqui de Praia Grande", contou ao Tudo na Hora a presidente do conselho local, Michelle Quintas.

"Nós começamos a investigar o que poderia ter causado o sumiço", lembra ela. "Soubemos, por amigos do menino, que ele estava apaixonado por uma garota, que se correspondia com ela pelo MSN e que queria encontrá-la de qualquer jeito", relata a conselheira. A família, de classe média alta, permitiu rastrear o computador de casa. Nada. Então, conseguiram saber onde era a lan-house que o menino frequentava. O dono da loja deu toda ajuda: rastreou todos os computadores, até achar os diálogos de P.V. com Erika. "Ali achamos o endereço, mesmo incompleto", conta Michelle. "Então, entramos em contato com o Conselho Tutelar da área dela em Maceió, e tudo começou a clarear".

A presidente do Conselho Tutelar das regiões 5 e 6 de Maceió (que abrange do Jacintinho ao Benedito Bentes), Cecília Oliveira da Silva, conta que a primeira providência que tomou, ao ser avisada pela conselheira de Praia Grande sobre o sumiço do menino e o endereço que havia no MSN, foi procurar a ajuda da delegada Bárbara Arraes, da Delegacia de Crimes contra a Criança e o Adolescente. "A gente suspeitava de pedofilia ou até coisa pior ainda, que infelizmente nesses casos acontece muito", disse Cecília. A delegada, junto com dois policiais, foi para a região apontada no MSN, o Antares I, na parte alta de Maceió. Acabaram localizando a casa, e encontraram o garoto.

A família da jovem também não sabia de nada sobre o relacionamento dela com o menor pela internet. Erika estuda à noite em escola pública. Teclava no MSN com P.V. em casa, no seu próprio notebook.

Os pais do menino foram avisados. P.V. vai reencontrar a mãe e um tio, que vem com ela de carro, nesta quinta-feira, provavelmente na hora do almoço - eles telefonaram da estrada para a conselheira Cecília e avisaram a previsão de chegada. A alegria do reencontro será enorme - mas a "bronca" que o garoto deve levar, também.

"Isso deve servir de alerta para muitos pais", comenta a conselheira Cecília. "Felizmente, não aconteceu com esse menino uma tragédia, como acontece com muitos outros. Ele foi acolhido por uma família humilde e correta. A jovem que despertou a paixão no garoto não tem maldade, é meio meninona. Mas poderia ter sido muito diferente".

Fonte: Tudo na hora

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