Economia e Inovação

Por: Sudanês B. Pereira

11/08/2021

Setor de Energias Pode Gerar 8 Milhões de Empregos com o Acordo de Paris

Em julho deste ano, Johannes Emmerling, economista ambiental do European Institute on Economics and the Environment (EIEE), publicou o artigo “Meeting well-below 2º C target would increase energy sector jobs globally” no jornal One Earth[1] com informações surpreendentes sobre os empregos que poderiam ser gerados com a adesão ao Acordo de Paris.

O Acordo de Paris é um tratado mundial que possui o objetivo de combater o aumento da temperatura provocada pelo aquecimento global. Na prática, significa impedir o aumento de 2º C na temperatura global em relação à era pré-industrial. Ele foi discutido entre 195 países durante a COP21, em Paris. O compromisso internacional foi aprovado em 12 de dezembro de 2015 e entrou em vigor oficialmente no dia 4 de novembro de 2016. Um tempo recorde para um acordo climático dessa envergadura.

O artigo mostrou que se o mundo seguir o Acordo de Paris e minimizar os efeitos das mudanças climáticas para atingir a meta de 2º C, poderia gerar 8 milhões de empregos no setor de energia até 2050.

Cumprir a meta climática global do Acordo de Paris de ficar abaixo de 2ºC ou mesmo atingir 1,5ºC, requer um rápido crescimento da energia de baixo carbono e a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis. Essa mudança nos sistemas de energia teria implicações de amplo alcance, além do cumprimento da meta climática. Um impacto relevante seria sobre os empregos em todo o setor de energia.

De acordo com a pesquisa, globalmente, 18 milhões de pessoas trabalham na indústria de energia, extraindo petróleo e carvão, refinando e produzindo energia, fabricando sistemas eólicos e solares - 12,6 milhões de pessoas nas indústrias de combustíveis fósseis, 4,6 milhões nas indústrias de energia renovável e 0,8 milhões na indústria nuclear.

Sabendo que grande parte dos trabalhadores estão empregados em setores de extração de combustíveis fósseis (mineração de carvão e extração de petróleo e gás), indica que os setores de extração são onde os governos precisam concentrar seus esforços a fim de criar políticas de transição justa, já que o setor de extração é mais vulnerável à descarbonização do que outros setores de energia.

Como os pesquisadores chegaram a esses números? Para realizar o estudo, os pesquisadores passaram dois anos coletando dados de 50 países sobre os tipos de trabalhos disponíveis atualmente em energia, para relacioná-los com modelos que fazem previsões sobre empregos.

Eles compilaram um conjunto de dados global dos 50 países, 11 tecnologias de energia e cinco categorias de trabalho (construção e instalação, operações e manutenção (O&M), fabricação, produção de combustível e refino), usando artigos científicos, relatórios de governo disponível publicamente ou relatórios de consultoria, bases de dados nacionais, relatórios anuais e documentos oficiais das principais empresas de energia e correspondência com sindicatos. Ao todo, o conjunto de dados de empregos cobriu diretamente 80% do total de empregos globais estimados de processos de produção e conversão de energia, representando todos os principais países produtores de combustíveis fósseis.

Trabalhos anteriores mostram que as políticas pró-clima podem aumentar o emprego em 20 milhões de empregos líquidos de energia, porém, segundo os pesquisadores, boa parte desses levantamentos tendem a olhar somente para os países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e para dados dos EUA, generalizando os resultados para o resto do mundo.

Os Resultados da Pesquisa

A pesquisa chegou à conclusão que para limitar o aquecimento global abaixo de 2ºC, os combustíveis fósseis devem ser substituídos por fontes de energia de baixo carbono. O apoio a essa transição costuma ser atenuado pelo impacto sobre os empregos dos combustíveis fósseis. Estimou-se os empregos de energia direta sob um cenário abaixo de 2ºC e cenários considerando as políticas atuais. Descobriu-se que:

  1. A implementação das metas do Acordo de Paris implicará mudanças nos empregos de energia.
  2. Em 2050, os empregos no setor de energia cresceriam dos 18 milhões de hoje para 26 milhões em um cenário abaixo de 2ºC, em comparação com 21 milhões no cenário político atual.
  3. Do total dos empregos no setor de energia em 2050, 84% seriam no setor renovável, 11% em energia fóssil e 5% em energia nuclear.
  4. Os empregos na extração de combustíveis fósseis diminuiriam rapidamente, mas as perdas seriam compensadas por ganhos em empregos solares e eólicos, particularmente no setor manufatureiro (totalizando 7,7 milhões em 2050).
  5. Há um potencial enorme para a geração de empregos, mas isso se dará em proporções diferentes em cada país. Algumas regiões podem ter de implementar políticas específicas para criar vagas no setor renovável.

Até mais!

[1] One Earth 4, 1026–1036, July 23, 2021. https://www.cell.com/one-earth/fulltext/S2590-3322(21)00347-X#relatedArticles

Sobre o blog

Economista, com formação na Universidade Federal de Sergipe (UFS), Mestre em Geografia (desenvolvimento regional) e Especialista em Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). Experiências no setor governamental (municipal e estadual), setor privado (Associação Comercial Empresarial de Sergipe - ACESE e Federação do Comércio de Bens e Serviços e Turismo - Fecomércio), foi professora substituta no Departamento de Economia na UFS, pesquisadora e uma das fundadoras do Núcleo de Propriedade Intelectual, hoje Cintec-UFS.

Arquivos