Economia e Inovação

Por: Sudanês B. Pereira

15/03/2021

Os Ecossistemas da Força de Trabalho e o Futuro do Trabalho

É fato que o trabalho como o conhecemos vem passando por mudanças há alguns anos. Porém, com a pandemia da Covid-19 o processo acelerou. Mudanças impulsionadas pelas forças tecnológicas, sociais e econômicas, estão afetando três dimensões do trabalho: o trabalho em si, quem faz o trabalho e onde o trabalho é feito. Para criar valor, as empresas devem ter uma perspectiva mais ampla para lidar com os vários macrocondicionamentos, que estão mudando a forma como o trabalho é feito na empresa.

Segundo o artigo do MIT Sloan Management, a abordagem do ecossistema da força de trabalho pode ajudar as empresas a lidar com essas mudanças. Hoje, mais empresas estão contando com ‘não funcionários’ para realizar mais trabalhos; mais trabalho está se tornando baseado em tarefas e projetos, e um número crescente de executivos está reconhecendo que uma força de trabalho mais diversa e inclusiva oferece melhores resultados.

Com base nessa realidade, gerenciar com eficácia o capital humano da empresa, composta por atores internos e externos, de uma forma que esteja alinhada com os objetivos estratégicos da organização e consistente com seus valores, é agora uma necessidade crítica de negócios.

A pesquisa global do MIT com 5.118 gerentes, constatou que 75% dos entrevistados veem sua força de trabalho em termos de funcionários e não funcionários. O crescimento na variedade, número e importância de diferentes tipos de arranjos de trabalho, tornou-se um fator crítico em como o trabalho é feito na (e para) empresa.

Várias, e novas práticas de gerenciamento do capital humano, surgiram no cenário dos negócios. Mesmo assim, existem poucas para lidar estrategicamente e operacionalmente com uma força de trabalho distribuída e diversa, que cruza as fronteiras internas e externas das empresas.

Os pesquisadores do MITSloan e da Deloitte, afirmam que a melhor maneira de lidar com essas mudanças e novas práticas de gestão do capital humano, é através das lentes dos ecossistemas da força de trabalho. Mas o que é exatamente esse ecossistema da força de trabalho?

Segundo os autores, o ecossistema da força de trabalho é definido como uma estrutura que consiste em atores interdependentes, dentro e fora da organização, trabalhando para perseguir objetivos individuais e coletivos. Digamos que é um conceito um pouco geral, porque não dizer, até previsível, mas vamos em frente.

Temos percebido que há muito tempo as empresas vêm contratando trabalhadores externos, em especial de tecnologia da informação, para realizar tarefas específicas, por tempo determinado. No entanto, profissionais de outras áreas passaram a fazer parte dessa relação, como os da área de marketing, P&D, finanças, e atendimento ao cliente. Segundo os autores, isso permitiu a formação de um ‘ecossistema de força de trabalho’ composto por funcionários próprios, provedores de serviços profissionais, colaboradores via crowdsourcing (terceirização), entre outros arranjos.

Os pesquisadores sugerem que as práticas de gestão atuais, não abordam, de forma adequada, as inúmeras mudanças que estão provocando o ambiente interno das empresas. Segundo eles, os ecossistemas da força de trabalho podem permitir que os gerentes lidem de forma mais eficaz com essas mudanças. Quais são as mudanças que as práticas atuais de gestão não abordam de forma adequada? A figura 1 ilustra as razões para focar nos ecossistemas da força de trabalho.

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Fonte: The Future of Work Is Through Workforce Ecosystems. MITSloan, January, 14, 2021. Elaboração Própria

De fato, as mudanças no mercado de trabalho exigem novas formas de gerenciamento da organização e do seu capital humano. Do ponto de vista das empresas, gerenciar um ecossistema da força de trabalho vai além dos esforços para unificar práticas de gestão

diferentes, atualmente organizadas em torno de funcionários e ‘não funcionários’. É uma nova abordagem para uma nova realidade, que exigirá uma novas soluções e práticas.

Os executivos e gestores vão se deparar com escolhas críticas sobre como gerenciar sua força de trabalho. Duas alternativas podem estar postas: a) continuar a gerenciar funcionários e ‘não funcionários’ por meio de sistemas diferentes, e muitas vezes paralelos, ou b) desenvolver uma abordagem nova e mais holística da força de trabalho, que abrange diferentes tipos de funcionários e capacidades.

O artigo deixa claro três pontos importantes:

  1. Sugere que a abordagem do ecossistema da força de trabalho tem muitos benefícios estratégicos.
  2. Com os ecossistemas da força de trabalho, os executivos podem identificar e desenvolver interdependências entre funcionários e não funcionários.
  3. Essa abordagem tem desvantagens potenciais e exige cautela em questões como leis trabalhistas, benefícios aos trabalhadores, diversidade e inclusão, e cultura organizacional.

No limite, abordagem do ecossistema da força de trabalho permite uma perspectiva integrada, colaborativa, e mais eficiente e eficaz entre os trabalhadores, o que, por sua vez, permite novas perspectivas sobre que trabalho é possível para a organização.

Considerando todos esses desafios, os ecossistemas da força de trabalho lançam uma questão estratégica a pensar. Em vez de (apenas) perguntar: "De que força de trabalho preciso para minha estratégia?" os ecossistemas da força de trabalho permitem que os líderes perguntem: “Que estratégia é possível com minha força de trabalho?”

De fato, estamos convivendo com forças que estão mudando a maneira de fazer as coisas, de compartilhar conhecimento, de colaborar com pessoas no mesmo ambiente de trabalho e fora dele, a forma como enxergamos os negócios e o impacto dos negócios na transformação da sociedade, assim como a própria transformação do que conhecemos como trabalho.

Até mais!

Sobre o blog

Economista, com formação na Universidade Federal de Sergipe (UFS), Mestre em Geografia (desenvolvimento regional) e Especialista em Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). Experiências no setor governamental (municipal e estadual), setor privado (Associação Comercial Empresarial de Sergipe - ACESE e Federação do Comércio de Bens e Serviços e Turismo - Fecomércio), foi professora substituta no Departamento de Economia na UFS, pesquisadora e uma das fundadoras do Núcleo de Propriedade Intelectual, hoje Cintec-UFS.

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