Economia e Inovação

Por: Sudanês B. Pereira

12/04/2021

Os Desafios do Novo Paradigma de Produção e Trabalho

A pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrou que a taxa de desocupação do Brasil no 4º trimestre encerrado em dezembro de 2020, foi de 13,9%, e o número de desempregados (pessoas que procuram emprego, mas não encontram) chegou a 13.9 milhões. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PnadC).

Outro dado agravante que a PnadC revelou, está relacionado ao número de trabalhadores subutilizados. Em dezembro, cerca de 32.031 milhões de pessoas estavam subutilizadas. Nessa categoria, estão três grupos de trabalhadores: os desempregados; os empregados que gostariam e poderiam trabalhar mais horas; e as pessoas que não estão procurando emprego, mas se consideram disponíveis para trabalhar.

A informalidade é outro problema na economia brasileira. A taxa de informalidade em 2020 foi de 38,7%, representando 33,3 milhões pessoas sem carteira assinada (empregados do setor privado ou trabalhadores domésticos), sem CNPJ (empregadores ou empregados por conta própria) ou trabalhadores sem remuneração. Os informais foram os primeiros atingidos pelos efeitos da pandemia, no ano passado.

O ciclo de desemprego e informalidade da economia brasileira revela a natureza da recessão que a economia vem passando, e a dificuldade de retomada sustentável da economia brasileira. Ainda, a informalidade não se restringe a um único setor da economia, ela está em todas as atividades econômicas.

O que fazer com essas pessoas que estão fora do mercado de trabalho formal? A nova economia está mostrando que a natureza do trabalho vai mudar, e os requisitos exigidos pelo novo paradigma de produção e trabalho estão apontando para novas habilidades, competências e áreas de conhecimento diferentes do paradigma vigente.

Dentro desse contexto, os formuladores de políticas públicas, educadores e empresas; precisam pensar quais são os possíveis caminhos para melhorar as habilidades e a transição dos trabalhadores fora de ocupações em risco de declínio, além daqueles que estão desempregados.

Estudos das consultorias McKinsey, Boston Consulting Group (BCG), Banco Mundial, OCDE, entre outros órgãos e instituições, mostram que as próximas duas décadas prometem uma revolução em larga escala no mundo do trabalho e das profissões. O que estamos observando hoje com relação ao mercado de trabalho global?

Para além do desemprego no Brasil, a edição World Employment and Social Outlook: Trends (WESO), 2020[1], da Organização Internacional do Trabalho (OIT), mostra que o descompasso entre a oferta e a demanda de trabalho se estende além do desemprego para uma subutilização mais ampla de trabalho. O mundo tem uma população em idade ativa de 5,7 bilhões de pessoas, desses, 3,3 bilhões estão empregados, 2,2 bilhões fora da força de trabalho, e um total de 473 milhões de pessoas subutilizadas.

Além do número global de desempregados, cerca de 188 milhões, 165 milhões de pessoas não têm trabalho remunerado suficiente e 119 milhões desistiram de procurar trabalho ativamente ou não têm acesso ao mercado de trabalho [força de trabalho potencial]. Entre os jovens de 15 a 24 anos, uma estimativa 429 milhões (36%) estavam empregados em 2019, outros 509 milhões (42%) estavam estudando ou em treinamento, porém desempregados, e 22% é a juventude sem emprego, sem educação e sem treinamento. Esse é o capital humano global subutilizado. Os desafios são muitos. Ver a figura 1 logo abaixo

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Fig 1 Desemprego global.jpg

O relatório mostra que outras desigualdades significativas - gênero, idade e localização geográfica - permanecem como características persistentes dos mercados de trabalho atuais, limitando as oportunidades individuais e o crescimento econômico geral. O relatório alerta que a intensificação das restrições ao comércio e do protecionismo pode ter um impacto significativo sobre o emprego, tanto direta quanto indiretamente.

Olhando para o crescimento econômico mundial, chega-se a conclusão que o ritmo e a forma atuais de crescimento estão prejudicando os esforços para reduzir a pobreza e melhorar as condições de trabalho em países de baixa renda. O WESO recomenda que o tipo de crescimento precisa mudar para encorajar atividades de maior valor agregado, por meio de transformação estrutural, atualização tecnológica e diversificação.

Em artigo publicado no Fórum Econômico Mundial[1], Bernadette Wightman chama atenção para o fato de que, somente em 2022, 75 milhões de empregos provavelmente serão deslocados nas 20 principais economias do mundo, enquanto 133 milhões de novos empregos surgirão em indústrias que estão apenas ganhando força. Ao mesmo tempo, estima-se que quase dois terços das crianças que começaram a escola em 2016, terão empregos que ainda não existem.

Antes de olharmos para os próximos 20 anos, vamos dar uma rápida olhada no presente - e algo que já foi considerado paradoxal. De fato, já estamos vivendo a era dos robôs.

Os indicadores sobre a utilização de robôs mostram uma realidade atual, e não mais do futuro. De acordo com o Sumário Executivo do World Robotics 2020 Industrial Robots, da International Federation of Robotics (IFR), as instalações globais de robôs alcançaram em 2019, 373.240 unidades, correspondendo a um valor de US$ 13,8 bilhões (sem software e periféricos). O estoque operacional de robôs foi calculado em 2.722.077 unidades, um aumento de 12% em relação a 2018. Desde 2010, a demanda por robôs industriais aumentou consideravelmente devido à tendência contínua para a automação e contínuas inovações técnicas em robôs industriais.

A Ásia é o maior mercado de robôs industriais do mundo. Após seis anos de crescimento e liderança, 245.158 unidades foram instaladas no continente em 2019, abaixo do pico alcançado de 283.080 unidades em 2018. Mesmo assim, dois em cada três robôs (66%) implantados em 2019, foram instalados na Ásia. Os três maiores mercados asiáticos são: China (140.492 unidades), Japão (49.908 unidades) e República da Coreia (27.873). Existem cinco mercados principais para robôs industriais: China, Japão, Estados Unidos, República da Coréia e Alemanha. Esses países respondem por 73% das instalações globais de robôs. Ver o gráfico 1 com a evolução anual das instalações de robôs industriais nos continentes.

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O que vai determinar com mais propriedade a utilização dos robôs inteligentes para as linhas de produção fabril, e além, é o rápido desenvolvimento tecnológico, considerando aí a inteligência artificial (IA).

O relatório da IFR deixa claro que a 4ª revolução industrial, conhecida também como indústria 4.0, já está ocorrendo em larga escala e em diversas parte do mundo, com implicações profundas para o desenvolvimento econômico, nas novas fronteiras da economia (digital, em particular), na geopolítica de poder econômico, e no mundo do trabalho.

Aqui no Brasil já estamos com escassez de profissionais qualificados e talentos para preencher vagas de trabalho, em especial nas áreas de tecnologia da informação e na maioria de seus segmentos. A mudança tecnológica continuará aumentando, portanto, aprender novas habilidades será uma necessidade contínua ao longo da vida. Isso não é capacitação, é aprendizagem ao longo da vida.

A discussão mais construtiva não é se haverá ou não mudanças, mas o que devemos fazer para garantir os melhores resultados, dada a dinâmica do desemprego atual e o novo paradigma de produção.

Diante dessa nova realidade, como é possível preparar adequadamente a força de trabalho do amanhã, ao mesmo tempo em que é necessário requalificar centenas de milhões de pessoas cujo trabalho está evoluindo?

A rápida mudança tecnológica que estamos assistindo está mostrando que as pessoas que operam máquinas em constante evolução, precisam aprender novas habilidades – e rapidamente. Nosso sistema educacional atual não consegue se adaptar às mudanças necessárias que a nova dinâmica da indústria 4.0 está a exigir.

Para além do universo fabril, o novo paradigma de trabalho está apontando para a necessidade de novas habilidades, habilidades essas que um diploma por si só não garante as competências necessárias. O nosso universo educacional precisa repensar a qualificação das pessoas, seus currículos, e integrar as grades curriculares habilidades nas quais as máquinas não são boas, quais sejam, as soft skills, ou seja, as demandas que não são encontradas no ensino técnico, que são as habilidades cognitivas, ou competências comportamentais: liderança, inteligência emocional, criatividade, capacidade de resolver problemas, habilidades interpessoais, colaboração, persuasão e negociação. As habilidades softs são tão importantes quanto as habilidades hard ou técnicas. É importante ter um equilíbrio entre as duas. Os desafios em relação ao novo paradigma de produção e trabalho são muitos.

[1] Emprego Mundial e Perspectivas Sociais: Tendências 2020.

[2] https://www.weforum.org/agenda/2020/01/hundreds-of-millions-of-workers-need-reskilling-where-do-we-start/

Até a próxima semana!

Sobre o blog

Economista, com formação na Universidade Federal de Sergipe (UFS), Mestre em Geografia (desenvolvimento regional) e Especialista em Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). Experiências no setor governamental (municipal e estadual), setor privado (Associação Comercial Empresarial de Sergipe - ACESE e Federação do Comércio de Bens e Serviços e Turismo - Fecomércio), foi professora substituta no Departamento de Economia na UFS, pesquisadora e uma das fundadoras do Núcleo de Propriedade Intelectual, hoje Cintec-UFS.

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