Economia e Inovação

Por: Sudanês B. Pereira

29/03/2021

O Que a Tecnologia está fazendo com a Economia

Transformação. A digitalização está criando uma nova economia e fazendo a maior mudança estrutural desde a última revolução industrial. Para lembrar algumas características das revoluções industriais, segue abaixo a figura com as características básicas.

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Figura1. As Revoluções Industriais e suas Características Básicas

Todas as revoluções industriais tinham modelos de desenvolvimento que eram conduzidos por basicamente três forças:

  1. Uma nova tecnologia - difundida por um país ou conjunto de países, com objetivo de aumentar a produtividade e a produção.
  2. Um ou mais países servindo como polo econômico - que se tornava o motor do crescimento global, e que, por sua vez, impulsionava o crescimento em outros países, especialmente parceiros comerciais.
  3. Um sistema favorável de governança global - com regras de comércio relativamente estáveis, que facilitou o crescimento do PIB global.

Essas forças moldavam um novo padrão de competição, consequentemente: a) novas formas de organização social; b) novo modelo de produção; c) novo padrão de desenvolvimento. O que estamos vivenciando é justamente a formação de um novo padrão de competição e desenvolvimento, que vai exigir novos parâmetros e métricas para medir o desenvolvimento econômico.

O que está moldando essa nova fase do capitalismo-desenvolvimento-economia? É possível identificar uma série de tendências inovadoras, em graus variados, e que tipifica esse novo modelo de produção. Basicamente, essas tendências envolvem as tecnologias digitais, e estas estão transformando:

  1. A maneira como vivemos, trabalhamos, consumimos e produzimos bens e serviços.
  2. A forma como as empresas operam, facilitando tarefas que dependem intensamente de conectividade, uso de informações, previsão e colaboração.

Todo esse movimento, está delineando novas formas de valorar e qualificar a economia. Alguns teóricos estão chamando de economia digital, por estar vinculada justamente às novas tecnologias digitais, ao uso do conhecimento e informação digitalizados, aos novos processos de produção, e as novas fronteiras de negócios.

Segundo Carlsson (2004)[1], na velha economia o fluxo de informações era físico: dinheiro, cheques, faturas, conhecimentos de embarque, relatórios, reuniões face to face, chamadas telefônicas analógicas ou transmissões de rádio e televisão, plantas, mapas, fotografias, partituras musicais e mala direta de anúncios. Na nova economia [digital], a informação em todas as suas formas torna-se digital - reduzida a bits armazenados em computadores, movendo-se na velocidade da luz, através das redes. Um novo mundo de possibilidades se abre.

Sim, as informações não são novas, apenas a forma como são coletadas, manipuladas, armazenadas e transferidas. Não custa lembrar que os dados são o principal recurso da economia digital, a importância dos recursos intangíveis na economia ficou patente.

Do ponto de vista conceitual, o que é economia digital? Qual o papel da tecnologia no escopo da nova economia? Embora a literatura seja recente, já é possível compilar alguns conceitos, como os citados na figura abaixo.

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Elaboração própria

Como visto acima, as definições sobre economia digital são diferentes, mas com algo em comum, a de que é uma economia baseada em tecnologias digitais, daí o termo economia digital, algo completamente diferente das tecnologias por trás das revoluções industriais anteriores. A Figura 3, logo abaixo, possui uma representação do conceito de Bukht & Heeks (2017) [2], sobre a economia digital. Segundo esses autores, o escopo da economia digital abrange tanto a) o setor digital (principal core) - núcleo impulsionador da nova economia; b) uma nova economia, impulsionada pelas novas tecnologias; e c) uma gama mais ampla da atividade digital.

Ou seja, nessa perspectiva, o escopo da economia digital tem um núcleo principal, que permite a difusão de um conjunto de modelos de negócios digitais emergentes e dinâmicos; e de forma mais ampla, aplicações de tecnologias digitais em negócios existentes, sem afirmar que toda atividade digitalizada faz parte da economia digital. Esse, por sinal, é um conceito que está sendo utilizado pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), nas suas publicações sobre o fluxo, os dados e os valores na economia digital global.

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Figura 3. Escopo da Economia Digital

É importante observar na figura acima, alguns fenômenos novos, como a economia de plataforma, e outros que gravitam na borda da economia digital, como a gig economia e a economia compartilhada. Que fenômenos são esses?

a) A economia de plataforma é aquela baseada em um ecossistema de software, no qual produtores, consumidores e a própria plataforma, estabelecem um conjunto de relações, não apenas no mundo digital. Segundo Bukht & Heeks (2017), a economia de plataforma agrega modelos de negócios que extraem valor a partir da prestação de dois serviços (ou ambos): plataformas multilaterais (facilita a conexão entre distintos usuários) e plataformas de inovação (ecosistemas digitais[1]).

b) A gig economia é o mercado de trabalho que compreende, de um lado, trabalhadores temporários e sem vínculo empregatício (freelancers, autônomos) e, de outro, empresas que contratam estes trabalhadores.

c) A economia compartilhada foi citada pela primeira vez em 2008, pelo Lawrence Lessig, da Universidade de Harvard. O termo se refere ao consumo colaborativo realizado nas atividades de compartilhamento, troca ou aluguel de bens sem que haja, necessariamente, a aquisição destes. Essa tendência se popularizou nos últimos anos.

Alguns desses fenômenos convivem com modelos de negócios tradicionais, que se utilizam de instrumentos (aplicativos) desenvolvidos através da tecnologia (programas de softwares), que possibilitam novas formas de interação entre negócios, trabalhadores e clientes.

De fato, são as tecnologias digitais e a inovação que estão transformando a economia e sua estrutura produtiva, assim como as relações sociais em uma dimensão jamais vista. Essa transformação, está associada a várias fronteiras tecnológicas (inteligência artificial, análise de dados, automação e robótica avançada, internet das coisas, computação em nuvem, blockchain), e é alimentada por dados e informações – em suas diversas formas.

Para além das tecnologias e inovações associadas, a economia mundial está se transformando rapidamente, com grandes implicações para o desenvolvimento econômico e social. Os dados da OCDE[4] mostram que a geografia da economia digital é altamente concentrada em dois países - China e Estados Unidos. O que isso representa em alguns dados:

  1. 75% de todas as patentes relacionadas a tecnologias blockchain estão nos EUA, somente 25% está com o resto do mundo.
  2. 50% dos gastos globais em IoT estão nos EUA (26%) e China (24%), em terceiro lugar o Japão (9%), 26% com o resto do mundo.
  3. Os EUA possuem mais de 75% do mercado de computação em nuvem
  4. Cerca de 40% dos data centers estão nos EUA, 31% no resto do mundo.

Ou seja, existe uma enorme desigualdade digital, que já está causando exclusão digital em várias partes do mundo. Os avanços digitais estão gerando uma enorme riqueza em tempo recorde, mas essa riqueza está se concentrando em torno de um pequeno número de pessoas, empresas e países. Se essa trajetória permanecer sem um acordo global de políticas e regulamentações, possivelmente aumentará a desigualdade no mundo. A inclusão é essencial para a construção de uma economia digital que oferece oportunidades para todos, pois existe sim um potencial social e econômico da economia digital.

[1] Carlsson, Bo. The Digital Economy: what is new and what is not? In Structural Change and Economic Dynamics, 15 (2004) 245–264.

[2] Bukht, Rumana & Heeks, Richard. Defining, Conceptualising and Measuring the Digital Economy. 2017. In Centre for Development Informatics. Global Development Institute, SEED. University of Manchester.

[3] Basta lembrar algumas empresas como Amazon e Mercado Livre.

[4] OECD - Digital Economy Outlook 2020, November, 2020.

Até o próximo artigo!!

Sudanês B. Pereira

Sobre o blog

Economista, com formação na Universidade Federal de Sergipe (UFS), Mestre em Geografia (desenvolvimento regional) e Especialista em Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). Experiências no setor governamental (municipal e estadual), setor privado (Associação Comercial Empresarial de Sergipe - ACESE e Federação do Comércio de Bens e Serviços e Turismo - Fecomércio), foi professora substituta no Departamento de Economia na UFS, pesquisadora e uma das fundadoras do Núcleo de Propriedade Intelectual, hoje Cintec-UFS.

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