Economia e Inovação

Por: Sudanês B. Pereira

26/05/2022

O Metaverso, a Economia Virtual e seus Impactos

Segundo a Meta, o metaverso será um projeto coletivo, indo além de uma única empresa. O Google Trends mostra que o interesse de pesquisa pela palavra-chave “metaverso” nos últimos sete dias, no mundo e no Brasil, reforça que o termo é um assunto em evidência, assim como realidade virtual e inteligência artificia. Aliás, a busca por inteligência artificial no Brasil, nesse período, foi mais significativa que no mundo. Ver a figura 1.

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Fig. 1. Metaverso, Realidade Virtual e Inteligência Artificial no Mundo e no Brasil no Google Trends (18-24:05:2022).png

Saindo um pouco desse buzz sobre metaverso nos jornais e nas redes sociais, o artigo dessa semana trás um resumo de uma pesquisa acadêmica a respeito do Metaverso, seu total funcionamento, porém, ainda está por vir. Já existe uma vasta literatura sobre o assunto, muitas pesquisas com conteúdo técnico, outras com abrangência maior, para além dos conteúdos técnicos, é o caso da que vou compartilhar com vocês. A referência é o artigo “All One Needs to Know about Metaverse: A Complete Survey on Technological Singularity, Virtual Ecosystem, and Research Agenda”, de professores da Universidade de Cornell.

O paper coordenado pelo professor Lik-Hang Lee, faz um esforço para oferecer uma abordagem de entendimento sobre o metaverso, considerando as dimensões das tecnologias de ponta e dos ecossistemas de sustentação do mesmo, e sugere a possibilidade de um big bang digital - semelhante à teoria da origem e expansão do universo. Para os professores, as tecnologias emergentes serão os facilitadores que conduzirão a Internet atual para o metaverso. Para tanto, eles fizeram um exercício de análise com oito tecnologias de habilitação ou capacitadoras - Realidade Estendida, Interatividade do Usuário (Interação Humano-Computador), Inteligência Artificial, Blockchain, Visão Computacional, IoT e Robótica, Computação de Borda e Nuvem e Redes Móveis do Futuro. Em relação ao ecossistema do metaverso, este permitirá que os usuários vivam dentro de um espaço autossustentável e compartilhado. A partir daí, são discutidos possibilidades vinculadas a seis fatores centrados no usuário - Avatar, Criação de Conteúdo, Economia Virtual, Aceitabilidade Social, Segurança e Privacidade e Confiança e Responsabilidade.

Considero esse trabalho riquíssimo. O paper possui 66 páginas, 47 delas com a descrição da pesquisa, e 19 páginas com as referências bibliográficas (isso é sensacional). Os autores usam uma abordagem holística, como eles mesmo afirmam, por considerar que o metaverso funcionará como uma entidade paralela à nossa realidade física. Ao pesquisar os trabalhos mais recentes, com várias tecnologias e ecossistemas, os professores proporcionam uma discussão ampla, identificam os desafios fundamentais e propõem uma agenda de pesquisa para moldar o futuro do metaverso nas próximas décadas.

De forma simples, o metaverso é visto como um universo gerado por computador, com vários e diversos espaços, que alguns chamam de espaço coletivo na virtualidade, internet incorporada/internet espacial, mundo espelho, omniverso: um local de simulação e colaboração. No paper, os autores consideram o METAVERSO como “um ambiente virtual que mescla o físico e o digital, facilitado pela convergência entre as tecnologias da Internet e da Web, e a Realidade Estendida (XR)”. O XR integra o digital e o físico em vários graus, por exemplo, realidade aumentada (AR), realidade mista (MR) e realidade virtual (VR).

No metaverso, todos os usuários individuais serão representados por avatares - um cibercorpo digital -, em analogia ao eu físico do usuário, para experimentar uma vida alternativa em uma virtualidade, que é uma metáfora do mundo real do usuário. Segundo os autores, para alcançar tal dualidade, o desenvolvimento do metaverso tem que passar por três etapas ou estágios sequenciais, a saber: (I) gêmeos digitais, (II) nativos digitais e, eventualmente (III) coexistência da realidade físico-virtual ou a surrealidade. Os gêmeos digitais são o ponto de partida, onde nossos ambientes físicos são digitalizados, e, portanto, possuem a capacidade de refletir periodicamente as mudanças em seus equivalentes virtuais. Ou seja, de acordo com o mundo físico, os gêmeos digitais criam cópias digitais dos ambientes físicos, como “muitos” mundos virtuais, e os usuários humanos com seus avatares, trabalham em novas criações nesses mundos virtuais, como nativos digitais. Ver a ideia na figura 2.

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Fig. 2. Metaverso: Relação entre os Três Estágios.png

A ideia de que o desenvolvimento do metaverso consiste em três fases sucessivas nessa perspectiva macro de (i) gêmeos digitais, (ii) nativos digitais e, eventualmente, (iii) surrealidade, é também compartilhada por outros professores no artigo “A Survey on Metaverse: Fundamentals, Security, and Privacy”, Wang et al. (2022).

Olhando a estrutura de tecnologias capacitadoras e a natureza interdisciplinar do metaverso, os autores fizeram uma análise baseada na relação entre as tecnologias que suportam o metaverso e seu ecossistema (um mundo virtual independente e de tamanho meta, espelhando o mundo real), sugerindo assim, um modelo de funcionamento do metaverso. Ver a figura 3.

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Fig.3. Tecnologias e Ecossistema para o Metaverso.png

Com o uso de tecnologias emergentes e o desenvolvimento progressivo do ecossistema do metaverso e seu refinamento, os mundos virtuais (ou gêmeos digitais) parecerão radicalmente diferentes nos próximos anos. Tudo isso requer tanto esforços para o desenvolvimento de tecnologias quanto para o estabelecimento do ecossistema de per si.

A Figura 4, logo abaixo, ilustra uma visão de construção e atualização do ciberespaço em direção ao metaverso nas próximas décadas, segundo a proposta dos pesquisadores. São seis pilares do ecossistema e oito tecnologias habilitadoras, todas inter-relacionadas. Portanto, quando se fala hoje em metaverso, penso que é algo que ainda não existe, é uma ideia, dada a complexidade associada. Os desafios para a sociedade serão muitos.

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Fig. 4 Uma Visão de Construção para o Metaverso nas Próximas Décadas.png

O Metaverso e a Economia Virtual

Com base no que se depreende a cerca do que seria o metaverso, entende-se que a economia virtual será uma derivada das atividades dentro do metaverso. Sendo assim, considerando a economia dos mundos real e virtual, os autores apresentam uma proposta da governança para a economia virtual, onde as áreas podem ser separadas em duas vertentes, dependendo se estão relacionados ao mundo real ou virtual. Entre elas, a governança econômica interna/externa que forma a base da economia virtual. A partir dessa visão, todo um arcabouço regulatório sobre o mercado da indústria do metaverso no mundo real e o comércio, especificamente o comércio no mundo virtual, seria construído.

O que se pode imaginar é que um conjunto completo de sistemas econômicos e sociais será formado no “metaciberespaço”, resultando em novos mercados de moedas, mercados de capitais, mercados de commodities, culturas, normas, regulamentos e outros fatores econômico-sociais. Ver a figura 5.

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Fig. 5 Economia Virtual e Metaverso.png

Como os usuários do mundo virtual também serão residentes do mundo real, as economias virtual e real gêmeas, inevitavelmente estarão entrelaçadas, e, certamente, não devem ser tratadas como duas entidades mutuamente exclusivas, o que será um desafio sem precedentes.

Na visão dos pesquisadores, nosso futuro digitalizado será mais interativo, mais vivo, e mais multimídia, devido à existência de dispositivos de computação poderosos e wearables inteligentes. A fronteira entre ambientes virtuais e físicos será mais tênue do que nunca.

A forma final do metaverso está longe de ser experimentada, digamos assim, mas as tendências subjacentes em como os consumidores valorizam suas identidades digitais e gastam dinheiro online, já estão criando oportunidades e desafios de longo alcance. Do varejo ao banco, e à publicidade, os setores já estão pensando em remodelar seus negócios.

Segundo a pesquisa “Metaverse of madness: 13 big industries the rise of virtual worlds could disrupt”, da CB Insights Technology Market Intelligence, esse mercado poderia se tornar o próximo grande negócio tech de US$ 1 trilhão, envolvendo internet de última geração, ferramentas de modelagem 3D e outras tecnologias para alimentar ambientes digitais imersivos. A pesquisa sinaliza treze segmentos da atividade econômica que serão potencialmente afetados pela chegada do metaverso, a saber: Moda, Varejo, Jogos, Esportes, Condicionamento Físico (Fitness), Setor Imobiliário, Serviços Financeiros, Cibersegurança, Publicidade, Ambiente de Trabalho e Ferramentas de Colaboração, Educação, Eventos, Direito.

Especificamente sobre cibersegurança, a Check Point Research (CPR) em um de seus Attack Reports semanais, informou que de 2021 a 2021, houve um aumento de 50% nos ataques cibernéticos em redes corporativas. Segundo a CPR, o surgimento do metaverso pode representar mais riscos para a segurança cibernética, “de imóveis virtuais à propriedade intelectual de bens digitais e identidade de avatar”, as empresas de segurança cibernética precisarão desenvolver soluções inovadoras para proteger os mundos virtuais, sinaliza o relatório.

E o mundo do Direito? O metaverso já está mobilizando diversas discussões legais: a) regulações inexistentes para negócios virtuais, b) falta de padrão para contratos inteligentes, c) as pessoas têm direito de posse no mundo virtual?, d) as regras do trabalho serão as mesmas no metaverso?, e) o que acontece com os negócios que acontecem dentro do metaverso? vai ter que pagar imposto pelas propriedades?, f) o que acontece com quem invadir a propriedade alheia no metaverso? etc etc etc.

Existem muitos desafios a serem superados antes que o metaverso se integre ao mundo físico e à nossa vida cotidiana.

Deixo aqui essa frase do Gerd Leonhard. "A humanidade é onde o verdadeiro e duradouro valor é criado."

Até mais!

Sobre o blog

Economista, com formação na Universidade Federal de Sergipe (UFS), Mestre em Geografia (desenvolvimento regional) e Especialista em Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). Experiências no setor governamental (municipal e estadual), setor privado (Associação Comercial Empresarial de Sergipe - ACESE e Federação do Comércio de Bens e Serviços e Turismo - Fecomércio), foi professora substituta no Departamento de Economia na UFS, pesquisadora e uma das fundadoras do Núcleo de Propriedade Intelectual, hoje Cintec-UFS.

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