Economia e Inovação

Por: Sudanês B. Pereira

23/08/2022

O Capital Estrangeiro e o Mercado Global de Energia Solar

Dando prosseguimento ao artigo anterior sobre investimento estrangeiro direto (IED) global sobre energias renováveis, este artigo vai tratar do IED no segmento de energia solar. As fontes serão o The Switch Report 2022 e a International Renewable Energy Agency (IRENA).

Panorama Geral

Segundo o relatório World Energy Transition Outlook 2022 (Irena), entre as tecnologias renováveis, a energia solar teve o crescimento mais rápido nos últimos anos, algo em torno de 21 vezes no período 2010-21, resultado de grandes reduções de custos apoiadas por avanços tecnológicos, altas taxas de aprendizado, apoio de políticas públicas e modelos de financiamento inovadores.

A capacidade instalada global de energia solar fotovoltaica atingiu 843 GW em 2021, o marco de 100 GW aconteceu em 2012. Os analistas esperam que isso seja apenas a ponta do iceberg, uma vez que a energia solar fotovoltaica pode liderar a revolução da energia renovável, se tornando cada vez mais um pilar fundamental em qualquer esforço de descarbonização. No cenário de 1,5°C, a capacidade instalada deverá atingir 5.200 GW até 2030 e 14.000 GW até 2050, segundo estimativas da Irena.

Segundo a Irena, todos os tipos de capacidade de geração de energia renovável devem ser ampliados em todas as regiões para atingir a meta de 1,5°C (ver a figura 1). Ásia, América do Norte e Europa serão responsáveis por mais de 80% das instalações até 2030. A eletricidade baseada em energias renováveis é agora a opção de energia mais barata na maioria das regiões. De acordo com a agência, o custo nivelado médio ponderado global de eletricidade de projetos de energia solar fotovoltaica (PV) em escala de utilidade recentemente comissionados, caiu 85% entre 2010 e 2020. As reduções de custo correspondentes para energia solar concentrada (CSP) foram de 68%; eólica terrestre, 56%; e eólica offshore, 48%.

A Irena estima que, para atingir o zero líquido de emissões carbônicas e criar economias neutras em termos de CO2 até 2050, será necessário um aumento maciço de investimentos até o final desta década, em todos os setores e regiões, para atingir os necessários US$ 5,7 trilhões por ano. Os setores público e privado têm papéis fundamentais a desempenhar. Ver a figura abaixo com a capacidade instalada (GW) e investimentos de energias renováveis para gerar energia no cenário de 1,5ºC entre as regiões (2021-2050).

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Fig. 1. Distribuição regional da capacidade total instalada (GW)

Ainda segundo a Irena, o consumo global de energia precisaria diminuir 11% em relação aos níveis de 2019 por meio de melhorias ambiciosas de eficiência energética, com um aumento simultâneo na participação de energias renováveis no mix global de energia -de 19% em 2019 para 79% até 2050. As energias renováveis teriam que aumentar em todos os setores de uso final, enquanto uma alta taxa de eletrificação em setores como transporte ou edifícios, exigiria um aumento de dez vezes na capacidade de eletricidade renovável até 2050. Enxergo aqui uma oportunidade significativa para os setores privado e governamental - políticas públicas de incentivos fiscais e de C&T e inovação.

O Investimento Estrangeiro Direto em Energia Solar

Segundo o The Switch Report 2022, o investimento direto estrangeiro (IED) tem sido fundamental para o rápido crescimento e difusão das aplicações de energia solar. As empresas de energia, principalmente da Europa, desencadearam uma primeira onda de IED transfronteiriço em energia solar nos anos 2000. Seus pares da América do Norte e Ásia seguiram o exemplo na década seguinte, acelerando a globalização do mercado de energia solar.

Como pode ser visto no gráfico 1, o investimento estrangeiro direto em projetos de energia solar está em uma trajetória ascendente desde 2005, atingindo o pico em 2019 no valor de US$ 61,4 bilhões, de acordo com dados do monitor de investimentos estrangeiros fDi Markets. No total, US$ 388,6 bilhões de capital estrangeiro foram destinados à geração solar entre 2005 e 2022.

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Gráfico 1. Investimento direto estrangeiro anunciado em projetos de energia solar

O IED no setor de energia solar deixou de ser concentrado principalmente na Europa Ocidental, se difundindo em todo o mundo. Os dados do fDi mostram que, em meados dos anos 2010, os fluxos de capital começaram a incluir destinos fora da Europa, particularmente na América Latina e África.

O Chile tornou-se o catalisador do crescimento dos investimentos europeus e norte-americanos em toda a América Latina. O país possui uma estrutura regulatória aprimorada e orientada para o mercado, tornando-se um hot spot dessa nova onda de IED solar. Investidores estrangeiros anunciaram projetos solares no valor de US$ 18,2 bilhões no país entre 2010 e 2020. A maioria deles (75%) veio da Europa, com empresas espanholas na liderança.

Os investimentos de empresas da Europa Ocidental em empreendimentos de energia solar na América Latina, alcançaram US$ 7,7 bilhões entre 2010 e 2020. Enquanto isso, os investimentos de empresas norte-americanas na região foram insignificantes, chegando a alcançar US$ 1,9 bilhão em 2019.

No período de 2015-2020, o IED global em energia solar alcançou US$ 186,6 bilhões, com cerca de 45% fluindo para a Ásia-Pacífico, 19% para a América Latina e Caribe, 12% par a África, 9% para a América do Norte. Ver a figura 2.

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Fig. 2. Distribuição geográfica do IED em energia solar por região

Mas o relatório do fDi tem mais informações interessantes. Se a dispersão dos investimentos parece menos centrada na Europa, há peculiaridades regionais nesse novo mercado solar global. A Ásia-Pacífico, por exemplo, continua sendo um mercado solar regional, com mais de 65% dos investimentos em energia solar provenientes de outros países asiáticos em 2019.

A China tem uma história própria. A clara contribuição política de Pequim [1] em apoio à energia solar - consagrada em sucessivos planos quinquenais desde o início dos anos 2000 - colocou em movimento a máquina de produção do país para atender à crescente demanda por painéis solares fotovoltaicos. Sua capacidade cumulativa de energia solar instalada aumentou de 4,2 GW em 2012 para 253,4 GW em 2020, a maior do mundo de acordo com os números da Irena.

Com Pequim também interessada em promover uma agenda “Go Global” para o setor privado e, assim, exportar parte da capacidade de produção local, os desenvolvedores de energia solar chineses tornaram-se investidores estrangeiros ativos em meados da década de 2010. Somente em 2014, os investimentos estrangeiros em geração solar por empresas chinesas atingiram um pico de 17 projetos no valor total de US$ 6,5 bilhões, e se espalharam pelo Japão, Índia, Reino Unido e Marrocos.

No entanto, o fDi mostra que eles recuaram gradualmente nos últimos anos, à medida que as prioridades internas mudaram. O IED chinês em energia solar caiu para US$ 1,7 bilhão em 2019, US$ 2,4 bilhões em 2020 e apenas US$ 361 milhões em 2021.

O fato é que, o impressionante crescimento geral dos investimentos não apenas contribuiu para o avanço dos processos de descarbonização, mas também teve um impacto importante na dinâmica socioeconômica nos países de destino onde os investimentos trouxeram novos empregos e oportunidades de trabalho.

No período de 2005 a 2020, estima-se que 83.362 empregos diretos tenham sido criados globalmente como resultado do IED solar - aproximadamente 30% do total de empregos estimados criados a partir de IED de fontes renováveis.

Principais Empresas Investidoras e Projetos

As principais empresas da Europa Ocidental e da América do Norte, como a Enel e a Canadian Solar, dominaram o ranking dos principais investidores em energia solar nos últimos 16 anos.

A empresa italiana de energia Enel lidera a lista de projetos solares entre 2005 e 2022 com US$ 15,6 bilhões investidos em mais de cem projetos no exterior, seguida pela Canadian Solar, com sede em Ontário, com US$ 13,9 bilhões investidos em 64 projetos de geração solar. A Sun Cable, com sede em Cingapura, investiu US$ 15,6 bilhões em um único projeto. Ver a tabela 1 com detalhes.

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Tab. 1. Os 10 maiores Investidores Estrangeiros em Energia Solar (2005-2022)

Ao longo dos anos, seu portfólio solar de IDE se expandiu, abrangendo países como Japão, Austrália, Reino Unido, EUA, Brasil, Itália, entre outros. Nos anos 2020-2021, a Enel foi acompanhada pela EDF (Electricite de France) em sua liderança de mercado. A empresa francesa anunciou projetos de IED solar no valor de US$ 3,04 bilhões no período, contra US$ 34 bilhões da Enel.

Os dados também mostram que os investidores ocidentais ainda estão em alta na lista, com empresas norte-americanas e europeias em 7º lugar entre as 10 principais. No entanto, os investidores do Oriente Médio e da Ásia se juntaram ao grupo, tornando-se uma parte proeminente do investimento solar estrangeiro em 2020-2021. Neste contexto de maior diversificação geográfica, a Masdar - subsidiária de energias renováveis do fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos, Mubadala - tornou-se um significativo investidor solar, classificando-se como o quarto maior investidor solar ao longo de 2020-2021. Em 2021, o fDi rastreou projetos na Armênia, Iraque e Uzbequistão, no valor total estimado de US$ 1,5 bilhão.

Já o conglomerado sul-coreano Hanwha - basicamente ausente do mercado internacional de energia solar antes de 2020 - ocupa o 6º lugar entre os principais investidores em energia solar em termos de números de projetos. Ver a figura 3 com os principais projetos de investimento estrangeiro direto em energia solar ao redor do mundo, no período de 2020-2022.

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Fig. 3. Os 10 Principais Projetos de IED Solar por Capex 2020-2022

A contribuição da energia solar é importante não somente para a transição energética, mas é uma fonte de energia limpa e segura para o presente e o futuro. Os investimentos no segmento confirmam.

Excelente semana!

[1] Sugiro ler o livro O Estado Empreendedor, da Mariana Mazzucato.

Sobre o blog

Economista, com formação na Universidade Federal de Sergipe (UFS), Mestre em Geografia (desenvolvimento regional) e Especialista em Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). Experiências no setor governamental (municipal e estadual), setor privado (Associação Comercial Empresarial de Sergipe - ACESE e Federação do Comércio de Bens e Serviços e Turismo - Fecomércio), foi professora substituta no Departamento de Economia na UFS, pesquisadora e uma das fundadoras do Núcleo de Propriedade Intelectual, hoje Cintec-UFS.

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