Economia e Inovação

Por: Sudanês B. Pereira

17/01/2023

Mercado das Tecnologias de Fronteira deve alcançar US$ 3,2 trilhões até 2025

O debate sobre a relação entre mudança tecnológica e desigualdades tem uma longa tradição nos estudos de desenvolvimento. As recentes tecnologias de ponta, incluindo inteligência artificial, robótica e biotecnologia, possuem um enorme potencial para o desenvolvimento econômico e a sustentabilidade. Porém, elas também correm o risco de aumentar as desigualdades ao exacerbar e criar novas divisões digitais entre os que têm e os que não têm tecnologia.

O Relatório Technology and Innovation Report 2021 da Agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), examina a probabilidade de tecnologias de fronteira ampliarem as desigualdades existentes ou mesmo criarem novas.

Segundo o relatório, de acordo com algumas estimativas, as tecnologias de ponta já representam um mercado de US$ 350 bilhões, que pode crescer mais de US$ 3,2 trilhões até 2025. Isso oferece grandes oportunidades, porém, muitos países, especialmente os menos desenvolvidos e os da África subsaariana, não estão preparados para usar, adotar e se adaptar de forma equitativa à revolução tecnológica em curso.

O relatório da Unctad concentra-se nos países em desenvolvimento de baixa e média renda e nos países menos desenvolvidos, bem como nos segmentos mais vulneráveis da sociedade, ao mesmo tempo em que oferece uma discussão sobre os efeitos nos países de alta renda como parte do contexto mais amplo, e dos principais impulsionadores das tecnologias de fronteira. Aborda também as políticas, instrumentos e reformas institucionais nacionais e internacionais, necessárias para criar oportunidades igualitárias para todos.

AS ONDAS TECNOLÓGICAS

Para entender o relatório é importante contextualizar como as tecnologias podem moldar o desenvolvimento econômico, permitindo grandes saltos de desenvolvimento.

As teorias mostram que as mudanças tecnológicas se combinam com o capital financeiro para criar novos paradigmas tecnoeconômicos – o conjunto de tecnologias, produtos, indústrias, infraestrutura e instituições que caracterizam uma revolução tecnológica. Nos países que estão no centro dessas novas ondas tecnológicas, o evento pode ser compreendido em duas fases. A primeira é a fase de instalação, à medida que a tecnologia é introduzida nas principais indústrias – ampliando as lacunas entre os trabalhadores dessas indústrias e as demais. A segunda é a fase de implantação, que também tende a ser desigual: nem todos têm acesso imediato aos benefícios do progresso.

De acordo com o relatório, atualmente o mundo está chegando ao fim da fase de implantação da ‘Era das TIC’ e iniciando a fase de instalação de um novo paradigma, envolvendo tecnologias de ponta e por vezes chamado de Indústria 4.0 (Fig. 1).

Observe que no período de implantação das TIC as preocupações estavam ligadas à concentração de riqueza na propriedade das principais plataformas digitais, no acesso desigual aos benefícios das mesmas. No período de instalação da chamada indústria 4.0 (I4.0), as preocupações estão concentradas na desigualdade de renda entre os trabalhadores da I4.0 e os demais, nas expectativas “irracionais” de lucros em novas tecnologias, no desemprego e no aumento das disparidades dentro e entre as sociedades. Pergunta-se: como a Indústria 4.0 afetará as desigualdades entre os países? Muito dependerá de os países estarem alcançando, avançando ou ficando para trás – o que, por sua vez, dependerá de suas políticas nacionais e de seu envolvimento no comércio internacional.

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Fig. 1. Revoluções tecnológicas e desigualdades

AVANÇANDO NAS FRONTEIRAS DIGITAIS

Segundo o relatório, as tecnologias de fronteira são um grupo de novas tecnologias que aproveitam a digitalização e a conectividade que permitem que se combinem, para multiplicar seus impactos. O relatório da Unctad abrange 11 dessas tecnologias: inteligência artificial (IA), Internet das coisas (IoT), big data, blockchain, 5G, impressão 3D, robótica, drones, edição de genes, nanotecnologia e energia solar fotovoltaica (Solar PV).

Essas tecnologias podem ser usadas para aumentar a produtividade e melhorar os meios de subsistência (a ver). A IA, por exemplo, combinada com a robótica pode transformar processos de produção e negócios. A impressão 3D permite uma produção de baixo volume mais rápida e barata e a prototipagem rápida e iterativa de novos produtos. Como um grupo, essas 11 tecnologias já representam um mercado de US$ 350 bilhões, que até 2025 poderá crescer mais de US$ 3,2 trilhões (figura 2). Observem o alcance de mercado que as tecnologias de IoT, robótica, energia solar fotovoltaica, 5G e IA, poderão ter em 2025.

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Fig. 2 Estimativas do tamanho do mercado de tecnologias de ponta (US$ bilhões)

Entre as tecnologias de fronteira, a maior por receita de mercado é a IoT. Em 2018, as vendas totalizaram US$ 130 bilhões, e nos próximos cinco anos podem crescer para US$ 1,5 trilhão, o que representa cerca de metade das receitas de tecnologia de ponta. Isso ocorre porque a IoT abrange uma vasta gama de dispositivos: em 2017 já havia mais IoT dispositivos em uso do que pessoas na Terra - 8,4 bilhões. Outra área de expansão futura é a internet industrial das coisas (IIoT), que usa vários dispositivos interconectados para várias formas de fabricação. Outro mercado em expansão é o de energia solar fotovoltaica. Em 2018, as receitas do mercado foram de US$ 55 bilhões e até 2026 podem chegar a US$ 334 bilhões.

É importante também saber quais setores estão adotando essas tecnologias e como estão usufruindo. O relatório cita que os setores financeiro e de manufatura foram os primeiros a adotar IA, IoT, big data e blockchain (ver figura abaixo). As empresas financeiras têm usado essas tecnologias, por exemplo, para decisões de crédito, gerenciamento de riscos, prevenção de fraudes, negociação, serviços bancários personalizados e automação de processos. O setor manufatureiro tem usado essas tecnologias para manutenção preditiva, controle de qualidade e atividades combinadas de trabalho humano-robô.

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Fig. 3. Setores que foram os primeiros a adotar a tecnologia de fronteira

DESAFIOS PARA OS PAÍSES EM DESENVOLVIMENTO

Teorias e modelos apontam possíveis canais de impacto das tecnologias de fronteiras, mas o efeito real dependerá dos setores afetados, das capacidades dos países e das políticas e estratégias adotadas. No entanto, a experiência mostra que com o tempo as novas tecnologias provavelmente permearão vários setores da economia e atividades sociais.

Nessas circunstâncias, o relatório sugere que os países em desenvolvimento devem se adaptar e usar deliberadamente a automação para aumentar a produtividade, promover a diversificação econômica e criar empregos. Preparar pessoas, empresas e instituições para tais mudanças pode limitar quaisquer efeitos negativos sobre a desigualdade. Ao perseguir esses objetivos, os países em desenvolvimento precisarão superar uma série de desafios, entre os quais:

: Mudanças demográficas – Os países de renda baixa e média-baixa normalmente têm populações em expansão e mais jovens, o que aumentará a oferta de mão de obra e reduzirá os salários, reduzindo os incentivos à automação.

: Menor capacidade tecnológica e de inovação – Os países de baixa renda têm menos pessoas qualificadas e dependem em grande parte da agricultura, que tende a ser mais lenta para aproveitar as vantagens das novas tecnologias.

: Diversificação lenta – Os países em desenvolvimento normalmente inovam imitando os países industrializados, diversificando suas economias e absorvendo e adaptando novas tecnologias para uso local, mas esse processo é mais lento nos países mais pobres.

: Mecanismos de financiamento fracos – A maioria dos países em desenvolvimento aumentou seus gastos com P&D, mas ainda são relativamente baixos. A União Africana, por exemplo, estabeleceu uma meta de um por cento do PIB, mas em média os países da África subsaariana ainda estão em 0,38 por cento. Há muito pouco financiamento privado de tecnologias industriais para aplicações produtivas.

: Direitos de propriedade intelectual e transferência de tecnologia – A proteção rigorosa da propriedade intelectual restringirá o uso de tecnologias de ponta que podem ser valiosas em áreas relacionadas aos objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS), como agricultura, saúde e energia.

Considerações finais

O relatório é muito rico de dados e informações. O progresso tecnológico é essencial para o desenvolvimento econômico sustentável, mas também pode perpetuar desigualdades ou criar novas desigualdades.

A Unctad é direta quanto à participação dos governos. A tarefa dos governos é maximizar o potencial oferecido pelas tecnologias de ponta, além de mitigar resultados prejudiciais e garantir o acesso para todos. Estender os benefícios das tecnologias de ponta aos países pobres exigirá políticas públicas eficazes – elaborando planos, conscientizando e criando incentivos dentro de um sistema nacional de inovação, ao mesmo tempo em que incentiva o investimento.

Parte disso será alcançado por meio de compras inteligentes. O governo deve usar seu poder de compra para criar mercados para tecnologias que estimulem o desenvolvimento econômico e, ao mesmo tempo, melhorem a vida das famílias pobres. Com base nas aquisições, os governos devem incorporar constantemente tecnologias de ponta em serviços como saúde e educação. Isso exigirá um projeto cuidadoso, prestando muita atenção às possíveis mudanças nas desigualdades verticais e horizontais.

Países em todos os estágios de desenvolvimento precisam promover o uso, adoção e adaptação de tecnologias de ponta, preparando pessoas e empresas para as novas possibilidades futuras.

Sobre o blog

Economista, com formação na Universidade Federal de Sergipe (UFS), Mestre em Geografia (desenvolvimento regional) e Especialista em Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). Experiências no setor governamental (municipal e estadual), setor privado (Associação Comercial Empresarial de Sergipe - ACESE e Federação do Comércio de Bens e Serviços e Turismo - Fecomércio), foi professora substituta no Departamento de Economia na UFS, pesquisadora e uma das fundadoras do Núcleo de Propriedade Intelectual, hoje Cintec-UFS.

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