Economia e Inovação

Por: Sudanês B. Pereira

15/06/2022

ISRAEL: Clusters, Tecnologia e Cibersegurança

O artigo dessa semana trata de tecnologia e inovação em Israel, um país que tem aproximadamente o tamanho do meu estado, Sergipe. Segundo a Autoridade de Investimentos Estrangeiros e Cooperação Industrial (Invest in Israel), o país tem a maior concentração de empresas de alta tecnologia do mundo, depois Vale do Silício. O que o faz diferente?

No paper “A Panorama of the Israeli Software Startup Ecosystem”, Fabio Kon (USP) cita que alguns fatores levaram Israel a ser reconconhecido como ecossistema de startups e inovação: 1) a cultura da dúvida e do argumento, onde a liderança sempre pode ser questionada, se for razoável; 2) assertividade, pensamento crítico e independente, ambição; 3) incentivos ao emprego de imigrantes, especialmente cientistas e trabalhadores do conhecimento altamente qualificados, 4) gastos militares como uma importante fonte inovação tecnológica, entre outros. O papel do governo na formulação de políticas públicas para inovação e na formação de capital empresarial sustentável foi e é fundamental para os clusters de tecnologia e inovação em Israel.

Em economia, clusters são aglomerações produtivas de indústrias de um mesmo setor, dentro de uma cadeia de valor, a partir da qual são geradas externalidades produtivas e tecnológicas. Uma empresa inserida em um cluster permite dar maior competitividade às economias locais e empresariais, uma vez que amplia os níveis de ‘eficiência coletiva’ proporcionada pelo arranjo. A eficiência coletiva pode estar associada à redução de custos de produção e transação em virtude das economias de especialização, e de outras externalidades em escala local. As empresas em um cluster se beneficiam de alta concentração de capital humano, conhecimento compartilhado, capital social, apoio institucional.

Os Clusters em Israel

De acordo com a agência de investimentos, Invest in Israel, o país possui diversos clusters com especializações variadas, em regiões específicas no país:

Investimento é um fator primordial para o desenvolvimento de tecnologia e inovação. Somente em 2020, o investimento em empresas de alta tecnologia em Israel foi de US$ 10,8 bilhões, quatro vezes mais que no fim da década anterior. Ver o gráfico abaixo.

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Gráfico 1. Investimento em Empresas de Alta Tecnologia em Israel (Em Us$ Bilhões)

Segundo a Invest in Israel, mais de mil novas empresas de tecnologia surgem a cada ano no país. Quase 50% estão nas áreas de software, Internet e TIC. O valor médio arrecadado pelas startups israelenses é de aproximadamente US$ 10 milhões, ou US$ 423 per capita – mais que o dobro do valor arrecadado pelas startups americanas e 20 vezes mais do que as startups europeias.

O Cluster de Segurança Cibernética em Israel

A Global X ETFs, gestora de fundos de investimentos, divulgou um relatório colocando Israel numa posição crucial no ecossistema global de segurança cibernética. Segundo o relatório, o crescimento dessa indústria fez do país um dos maiores centros de inovação em segurança cibernética do mundo.

Segundo a Global X, três regiões se destacam globalmente como os maiores clusters de inovação em segurança cibernética considerando fatores como financiamento de capital de risco, número de empresas líderes, capital humano e efeitos de transbordamento de conhecimento, que são: a área da baía de São Francisco, a região metropolitana de Washington D.C. e Israel.

Dos três clusters mencionados, Israel é o segundo em termos de financiamento de capital de risco - US$ 4 bilhões (2021). A cidade de Tel Aviv é o coração da segurança cibernética e da indústria de tecnologia do país. No entanto, o estudo alerta para outra localidade que também converge para um novo local de desenvolvimento em cibersegurança, a cidade de Be’er Sheva, onde o governo trabalha com estratégia para transferir unidades cibernéticas nacionais para lá.

As principais explicações para a rápida ascensão da segurança cibernética de Israel podem estar associadas, em parte pelo foco do país na defesa nacional, mas também nos esforços do governo para promover a indústria de tecnologia. Em 2017, Israel fundou um centro nacional de educação cibernética, hoje o país já possui 80 centros de aprendizado em e 330 funcionários vinculados aos mesmos.

Com o incentivo do governo e as parcerias com o setor privado, o segmento de tecnologia em cibersegurança se desenvolveu. Entre 2011 e 2021, o número de empresas de segurança cibernética ativas em Israel foram multiplicadas, aumentando de 162 para 459. Entre essas empresas estão Check Point e CyberArk, dois gigantes globais de segurança cibernética, com uma capitalização de mercado combinada de mais de US$ 20 bilhões em abril de 2022.

O gráfico abaixo ilustra como as empresas cibernéticas israelenses estão posicionadas no mercado, considerando o crescimento de receita em comparação com outros países, como Estados Unidos, Japão e Reino Unido. Segundo a Global X, os dados mostrados no gráfico 2 ainda não refletem os impactos de mercado da guerra Rússia-Ucrânia.

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Gráfico 2. Crescimento de Receita no Mercado de Segurança Cibernética por País

Segundo o relatório, o setor de segurança cibernética de Israel acumulou US$ 8,84 bilhões em financiamento durante o ano de 2021, apresentando um aumento de mais de três vezes em comparação com os US$ 2,75 bilhões de 2020. Globalmente, 40% dos investimentos privados em rodadas de financiamento cibernético foram para Israel em 2021. Ver o gráfico 3.

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Gráfico 3. Financiamento de Startups de Segurança Cibernética em Israel

A entrada de fundos de financiamento em startups de segurança cibernética em Israel contribuiu para o surgimento de 11 novos unicórnios no setor de segurança cibernética, em 2021. Segundo a Direção Nacional Cibernética de Israel (DNCI), em 2021 foram firmados mais de 40 acordos de aquisição de empresas israelenses por entidades locais e estrangeiras, com um valor estimado de US$ 3,5 bilhões.

Além disso, de acordo com dados do Instituto de Exportação de Israel, as exportações vinculadas às tecnologias ‘cibernéticas’ atingiram US$ 11 bilhões em 2021, acima dos US$ 6,9 bilhões em 2020. Ver o quadro abaixo.

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Fig. 1. Indústria Cibernética Israelense - Investimentos e Aquisições 2021

Segundo a Global X, a invasão da Ucrânia pela Rússia mostrou como as tensões geopolíticas se correlacionam com o crescente medo de ataques cibernéticos. De acordo com os dados, a Ucrânia foi o segundo país mais visado por ataques cibernéticos, atrás apenas dos Estados Unidos, entre julho de 2020 e junho de 2021, potencialmente prenunciando a invasão em 2022. Os setores mais atingidos por ataques cibernéticos são governos e organizações não governamentais. Ver a figura abaixo.

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Fig. 2. Países e Setores Visados por Ataques Cibernéticos

Por fim, o estudo mostra que os governos estão aumentando seus investimentos com segurança cibernética. Nos Estados Unidos, o governo Biden está propondo US$ 2,5 bilhões para a Agência de Segurança Cibernética e Infraestrutura (CISA) em 2023, a Austrália está gastando US$ 10 bilhões para dobrar o tamanho da Australian Signal Directorate, a França está trabalhando para construir o Campus Cyber, um centro de inovação em segurança cibernética financiado pelo Estado que é modelado no centro CyberSpark de Israel, em Be’er Sheva.

Conclusão Básica e Direta:

A indústria de alta tecnologia de Israel é global. O que permitiu o país ser referência foi sua estratégia no desenvolvimento ECONÔMICO e de CIÊNCIA E TECNOLOGIA. Esse é o modelo de sucesso do qual a literatura fala, o da hélice tríplice – modelo de inovação em que universidade, indústria e governo, interagem para promover o desenvolvimento através da inovação e do empreendedorismo. Israel, literalmente, “gira a hélice”.

Para quem deseja conhecer a indústria de alta tecnologia israelense em um mapa, ver esse link: The Israeli hi-tech industry https://mappedinisrael.com/

Excelente semana!

Sobre o blog

Economista, com formação na Universidade Federal de Sergipe (UFS), Mestre em Geografia (desenvolvimento regional) e Especialista em Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). Experiências no setor governamental (municipal e estadual), setor privado (Associação Comercial Empresarial de Sergipe - ACESE e Federação do Comércio de Bens e Serviços e Turismo - Fecomércio), foi professora substituta no Departamento de Economia na UFS, pesquisadora e uma das fundadoras do Núcleo de Propriedade Intelectual, hoje Cintec-UFS.

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