Por: Sudanês B. Pereira
Economista, com formação na Universidade Federal de Sergipe (UFS), Mestre em Geografia (desenvolvimento regional) e Especialista em Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). Experiências no setor governamental (municipal e estadual), setor privado (Associação Comercial Empresarial de Sergipe - ACESE e Federação do Comércio de Bens e Serviços e Turismo - Fecomércio), foi professora substituta no Departamento de Economia na UFS, pesquisadora e uma das fundadoras do Núcleo de Propriedade Intelectual, hoje Cintec-UFS.
Exclusão das mulheres do mundo digital eliminou US$ 1 trilhão do PIB de Países de Baixa e Média Renda
No último dia 06 de março, a Subsecretária-Geral da ONU e Diretora Executiva da ONU Mulheres, Sima Bahous, abriu os trabalhos da 67ª sessão da Comissão sobre o Estado da Mulher (CSW67). No discurso de abertura, ela foi assertiva ao alertar para “um novo tipo de pobreza que agora confronta o mundo, que exclui mulheres e meninas de forma devastadora - a pobreza digital". Segundo ela, a exclusão digital tornou-se a nova face da desigualdade de gênero, que está sendo agravada pela resistência contra mulheres e meninas que constatamos no mundo hoje.
Não será por acaso que o tema do Dia Internacional das Mulheres é “Por um mundo digital inclusivo: inovação e tecnologia para a igualdade de gênero”, em alinhamento com o tema prioritário da CSW67: “Inovação, mudança tecnológica e educação na era digital para alcançar a igualdade de gênero e o empoderamento de todas as mulheres e meninas”.
A diretora executiva da ONU Mulheres prosseguiu seu discurso revelando dados alarmantes. As mulheres têm 18% menos probabilidade do que os homens de possuir um smartphone e muito menos probabilidade de acessar ou usar a Internet. Somente no ano passado, 259 milhões de homens a mais do que mulheres estavam online. Apenas 28% dos graduados em engenharia e 22% dos trabalhadores de inteligência artificial em todo o mundo são mulheres, apesar de as meninas terem desempenho igual ao dos meninos em assuntos de ciência e tecnologia em muitos países. No setor de tecnologia em todo o mundo, as mulheres não apenas ocupam menos cargos, mas também enfrentam uma diferença salarial de 21%. Quase metade de todas as mulheres que trabalham com tecnologia já enfrentaram assédio no local de trabalho.
A lacuna no acesso a ferramentas e oportunidades digitais é maior onde mulheres e meninas são frequentemente mais vulneráveis. Essa lacuna afeta desproporcionalmente mulheres e meninas com baixa escolaridade ou baixa renda, que vivem em áreas rurais ou remotas, migrantes, mulheres com deficiência e mulheres mais velhas.
Apesar das melhorias recentes, ainda existe uma grande lacuna de gênero continua em tecnologia e inovação. Segundo o relatório da ONU Mulheres - UN Women’s Gender Snapshot 2022, mulheres e meninas estão sub-representadas nas indústrias, na academia e no setor de tecnologia em geral. Globalmente, as mulheres ocupam apenas 2 em cada 10 empregos em ciência, engenharia e tecnologia da informação e comunicação. Nas 20 maiores empresas globais de tecnologia, as mulheres representaram 33% da força de trabalho em 2022, mas ocupam apenas uma em cada quatro posições de liderança. As mulheres inventoras representam apenas 16,5% dos inventores listados em pedidos de patentes internacionais em todo o mundo. Ver o gráfico abaixo.
Um dado alarmante. O relatório mostrou que a exclusão das mulheres do mundo digital eliminou 1 trilhão de dólares do produto interno bruto (PIB) de países de baixa e média renda na última década, uma perda que crescerá para 1,5 trilhão de dólares até 2025, se não houver nenhuma mudança.
Segundo a diretora da ONU Mulheres, a exclusão digital das mulheres influencia fundamentalmente se uma mulher conclui seus estudos, possui sua própria conta bancária, ou obtém um emprego produtivo. No fundo, a lacuna digital é generalizada porque a tecnologia está presente em todos os aspectos de nossas vidas modernas.
A Internet, embora ofereça oportunidades, dados e informações significativas, pode expor mulheres ao assédio e abusos online. O relatório da ONU cita que um estudo com 51 países revelou que 38% das mulheres já sofreram violência online. Apenas 1 em cada 4 relatou isso às autoridades relevantes e quase 9 em cada 10 optaram por limitar sua atividade online, aumentando assim a divisão digital de gênero. Incorporar a perspectiva de gênero na inovação, tecnologia e educação digital ajudaria mulheres e meninas a se tornarem mais conscientes de seus direitos e fortaleceria o exercício delas, além do seu ativismo. Tecnologia e inovação são, de fato, facilitadores. O que eles permitem depende de nós.
Por fim, cito algumas ações sugeridas pela diretora da ONU Mulheres que podem ajudar a avançar na luta contra a exclusão digital e a desigualdade de gênero.
[1] Acabar com a divisão digital de gênero. Todos os membros da sociedade, especialmente os mais marginalizados, devem ter igual acesso a habilidades e serviços digitais. Os serviços digitais, especialmente os serviços de governo eletrônico, devem ser adaptados e acessíveis para todas as mulheres e meninas.
[2] Investir em educação digital, científica e tecnológica para meninas e mulheres. Essas oportunidades não podem ser meramente o fornecimento de conhecimentos básicos de informática. Eles devem se estender a todo o conjunto de recursos necessários para garantir os empregos do século 21 em um mundo digital.
[3] Garantir empregos e posições de liderança para as mulheres nos setores de tecnologia e inovação.
[4] Garantir a transparência e a responsabilidade da tecnologia digital. A tecnologia deve ser segura, inclusiva, econômica e acessível. Isso inclui garantir que preconceitos inconscientes ou conscientes não sejam incorporados a novas tecnologias e no campo da inteligência artificial.
[5] Colocar os princípios de inclusão, interseccionalidade e mudança sistêmica no centro da digitalização. Se as mulheres não forem incluídas entre os criadores de tecnologia e inteligência artificial, ou tomadores de decisão, os produtos digitais não refletirão as prioridades de mulheres e meninas.
[6] Enfrentar a desinformação de frente e trabalhar com homens e meninos para promover um comportamento on-line ético e responsável e fazer da igualdade uma pedra angular da cidadania digital.
[7] Fazer o esforço e o investimento necessários para garantir que os espaços online sejam livres de violência e abuso, com mecanismos e responsabilização clara para enfrentar todas as formas de assédio e discriminação e discurso de ódio.
Todas essas soluções exigem ações articuladas não apenas dos governos, mas de toda a sociedade e, em particular, do setor privado.
Boa semana!
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