Economia e Inovação

Por: Sudanês B. Pereira

02/12/2021

Empreendedorismo e Políticas Públicas

A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), é o órgão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas que busca promover a integração dos países em desenvolvimento na economia mundial. A Unctad lida com questões de comércio, investimento, finanças, tecnologia e desenvolvimento sustentável de uma maneira integrada.

Com a pandemia da Covid-19, a agência realizou uma série de estudos, análises e acompanhamento de políticas públicas ao redor do mundo. O empreendedorismo foi uma das alternativas utilizadas em todo mundo para incrementar a renda das pessoas e dinamizar a economia.

A Unctad possui um programa extremamente interessante nessa área que visa apoiar os formuladores de políticas de países em desenvolvimento, na concepção de iniciativas, medidas e instituições para promover o empreendedorismo. Segundo a agência, a estrutura de uma política de incentivo ao empreendedorismo deveria observar os pontos primordiais ilustrados na figura abaixo.

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Fig. 1Principais Componentes da Estrutura de Política de Empreendedorismo.png

Sabemos que o empreendedorismo é um dos motores importantes para criação de empregos e do crescimento econômico, e é crucial para o desenvolvimento de um setor formal vibrante de pequenas e médias empresas. Além disso, o empreendedorismo aumenta o crescimento da produtividade e pode ajudar a encontrar soluções práticas de negócios para os desafios sociais e ambientais, incluindo as mudanças climáticas.

Pensando os Componentes da Estrutura de Política de Empreendedorismo

1.Formulando a Estratégia

Não obstante a sua importância, o empreendedorismo nem sempre é incentivado ativamente por meio de iniciativas de políticas públicas específicas. Para uma política pública ser efetiva, é necessário definir estratégias para atingir objetivos específicos, atingir grupos-alvo específicos, desenvolver e priorizar ações. Além disso, é importante alinhar as estratégias de empreendedorismo com a estratégia geral de desenvolvimento e assim criar sinergias de políticas, não esquecendo o papel do setor privado enquanto ator importante da estratégia. Não esquecer dos indicadores e monitoramento dos impactos das ações.

2. Sobre o Ambiente Regulatório

Para facilitar o empreendedorismo, é importante um ambiente que permita ao empreendedor criar, operar, gerenciar e, se necessário, fechar uma empresa da forma mais fácil e rápida possível.

O ambiente regulatório deve encorajar as pessoas a abrir o seu próprio negócio, a experimentar novas ideias de negócios e a assumir riscos calculados. Em períodos difíceis, como recessão ou mesmo esse momento de pandemia, é importante ter políticas para a formalização, fazer campanhas de informação sobre como formalizar os pequenos negócios, estabelecer parcerias com organismos que possam apoiar o empreendedor.

3. Sobre a educação para o empreendedorismo e o desenvolvimento de habilidades

As habilidades empreendedoras giram em torno de atitudes (soft skills), como persistência, networking e autoconfiança, por um lado, e habilidades habilitadoras ou técnicas (hard skills), incluindo conhecimentos de planejamento de negócios, educação financeira e habilidades gerenciais Políticas e programas eficazes de educação para o empreendedorismo concentram-se no desenvolvimento dessas competências e habilidades empreendedoras, que são transferíveis e benéficas em muitos contextos de trabalho. O objetivo dessa ação não é apenas fortalecer a capacidade e o desejo das pessoas de iniciar seus negócios, mas também desenvolver uma cultura empreendedora na sociedade.

4. Facilitando o intercâmbio e a inovação tecnológica

Empreendedorismo, tecnologia e inovação se apoiam mutuamente. A tecnologia fornece aos empreendedores novas ferramentas para melhorar a eficiência e a produtividade de seus negócios, ou novas plataformas sobre as quais construir seus empreendimentos. Por sua vez, os empreendedores fomentam a inovação tecnológica desenvolvendo novos produtos, serviços ou processos, ou melhorando os existentes e garantindo a comercialização.

Do ponto de vista de políticas públicas, é importante estimular a inovação, a capacitação por meio das TICs, apoiar o desenvolvimento de plataformas para o mercado online, realizar capacitação com grupos-alvo, como mulheres e empreendedores rurais, promover as ligações horizontais por meio do desenvolvimento de cluster ou arranjos produtivos locais, também promover vínculos de negócios por meio do desenvolvimento de fornecedores. Extremamente importante é incentivar incubadoras de empresas de alta tecnologia e promover um ambiente onde as start-ups possam comercializar inovação.

5. Melhorando o acesso ao financiamento

Esse tem sido sempre um dos problemas pelos quais os empreendedores sempre esbarram. O acesso inadequado ao financiamento continua sendo um grande obstáculo para muitos aspirantes a empreendedores. Segundo pesquisas e estudos sobre esse tema, a lacuna de financiamento global para micro, pequenas e médias empresas continua enorme.

Fornecer capacitação e assistência técnica para expandir as atividades de empréstimo aos empreendedores é algo que pode ser interessante, considerar também capacitação e treinamento nas áreas financeira e contábil, que podem contribuir muito com o desempenho dos pequenos empreendimentos.

6. Promovendo a Conscientização e o Networking

É muito importante a disseminação sobre o empreendedorismo, como iniciar um negócio e promover a cultura empreendedora. Nesse sentido, promover campanhas de divulgação e conscientização em colaboração parceiros, utilizar a mídia e os espaços para o diálogo sobre políticas públicas para o empreendedorismo, divulgar informações sobre empreendedorismo, incluindo empreendedorismo social, e seu impacto na economia, organizar feiras, fóruns e encontros sobre oportunidades de negócios, inclusive em setores econômicos específicos ou em modelos de negócios específicos, como micro-franquia, startups etc.

Breve conclusão

Os desafios do empreendedorismo são muitos, mas é possível construir políticas e ações que podem contribuir para o desenvolvimento econômico e social local. Destaco alguns pontos:

  1. A promoção e facilitação do empreendedorismo deve ser parte de uma estratégia geral que englobe objetivos amplos relacionados com a criação de capacidade produtiva, considerando a educação, tecnologia e inovação, e o desenvolvimento empresarial. Essas ações devem ser cuidadosamente alinhadas para alcançar um impacto positivo.
  2. As políticas de empreendedorismo podem ter uma variedade de objetivos e prioridades diferentes. Eles podem, por exemplo, colocar ênfase na modernização e tecnologias, criar oportunidades econômicas para as mulheres, aumentar o emprego dos jovens etc.
  3. Todas as partes interessadas devem fazer parte do processo de construção de políticas públicas e contribuir para facilitar o empreendedorismo. Além disso, a forma como as políticas de empreendedorismo é implementada é tão importante para o sucesso quanto a escolha certa dos instrumentos.

Até mais!

Sobre o blog

Economista, com formação na Universidade Federal de Sergipe (UFS), Mestre em Geografia (desenvolvimento regional) e Especialista em Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). Experiências no setor governamental (municipal e estadual), setor privado (Associação Comercial Empresarial de Sergipe - ACESE e Federação do Comércio de Bens e Serviços e Turismo - Fecomércio), foi professora substituta no Departamento de Economia na UFS, pesquisadora e uma das fundadoras do Núcleo de Propriedade Intelectual, hoje Cintec-UFS.

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