Economia e Inovação

Por: Sudanês B. Pereira

07/09/2021

Competitividade Digital 2021 - o que os países estão fazendo

A pandemia da Covid-19 mostrou que as tecnologias digitais determinam não apenas se os países prosperam, mas também como eles são capazes de navegar em tempos difíceis. Aplicadas de forma eficaz, as tecnologias digitais não apenas permitem que a educação e o trabalho sejam transferidos das escolas e escritórios para casa, mas também fornecem maneiras cada vez mais eficientes de organizar processos em empresas e governos. Neste contexto, o relatório Digital Riser Report 2021, observou como os governos administraram e navegaram na transição impulsionada por tecnologias digitais entre 2018 e 2020.

O relatório analisa e classifica 137 países por sua competitividade digital nos últimos três anos. Os países que lideram a lista de 'Digital Riser' estão implementando parcerias público-privadas para promover a inovação e o empreendedorismo. Os resultados mostram que os avanços na transformação digital nem sempre vêm dos lugares mais óbvios.

Novas tecnologias como impressão 3D, realidade aumentada e virtual, sensores, inteligência artificial e robótica, têm o potencial de potencializar quase qualquer indústria. A competitividade das nações nessas tecnologias determinará o quão prósperos seus países serão nas próximas décadas.

Na nova edição do Digital Riser Report, do European Centre for Digital Competitiveness, da ESCP Europe Business School, o relatório mostra quais países perderam terreno, bem como quais países tiveram um bom desempenho e melhoraram sua posição em relação a seus pares, são destacadas também as melhores práticas e as políticas que fizeram o sucesso dos “Digital Risers”.

O relatório define a competitividade digital de um país em duas dimensões principais: seu ecossistema e sua mentalidade (mindset). Para ambas as dimensões, são considerados os elementos seguintes:

Ecossistema - Ecosystem

› Disponibilidade de capital de risco

› Custo para iniciar um negócio

› Momento de começar um negócio

› Facilidade de contratação de mão de obra estrangeira

› Conjunto de habilidades dos graduados

Mentalidade - Mindset

› Habilidades digitais entre a população ativa

› Atitudes em relação ao risco empresarial

› Diversidade de força de trabalho

› Assinaturas de banda larga móvel

› Empresas adotando ideias disruptivas

Ranking Digital Riser por Região

Dentro do G7, o Canadá foi o que mais avançou em sua competitividade digital relativa entre 2018 e 2020, o que torna o país o principal Riser Digital neste grupo; por outro lado, o Japão e a Alemanha foram os que mais diminuíram no G7. A Itália conseguiu melhorar sua posição no G7 do último lugar no ano anterior para o segundo lugar em 2021. Ver a figura abaixo com o ranking do G7.

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Ranking Digital Riser G7.jpg

Ainda no G7, ao decompor os resultados, Canadá e Itália foram os que melhoraram mais nas dimensões de ecossistema e mindset, respectivamente. Enquanto o declínio da Alemanha foi impulsionado principalmente por uma diminuição na dimensão do ecossistema, o Japão teve uma pontuação baixa na dimensão mindset.

O desempenho superior do Canadá pode ser explicado principalmente pelo lançamento da iniciativa “Innovation and Skills Plan - Plano de Inovação e Habilidades". Essa agenda inclui o Fundo de Inovação Estratégica, que criou e manteve mais de 70.000 empregos e alavancou um investimento total de mais de US$ 45 bilhões até 2021. Além disso, a Innovation Superclusters Initiative, co-investiu mais de US$ 1,2 bilhão em mais de 270 projetos para lançar superclusters, com o propósito de acelerar a inovação e impulsionar os negócios e a economia.

No G20, os três maiores Digital Risers foram a China, seguida pela Arábia Saudita e Brasil; Índia, Japão e Alemanha vieram por último. Curiosamente, nenhum país europeu ficou entre os três maiores Digital Risers do Grupo dos Vinte.

Segundo o relatório, o desempenho superior da China pode ser explicado principalmente por sua iniciativa "Made in China 2025", que define e apoia dez setores-chave nos quais a China pretende se tornar um líder mundial, incluindo tecnologia da informação e robótica. Na mesma linha, o governo da China enfatizou a importância do empreendedorismo, para a economia da chinesa.

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Ranking Digital Riser G20.jpg

O ranking para a América Latina e Caribe, mostra que o Uruguai foi o maior Digital Riser nos últimos três anos. Menos da metade dos países da região melhorou em sua competitividade digital relativa. Brasil e Colômbia foram os que mais melhoraram no ecossistema e mindset, respectivamente.

O desempenho superior do Uruguai pode ser explicado, segundo o relatório, principalmente por sua iniciativa “Agenda Uruguai Digital 2020”, com o objetivo de promover a transformação digital de forma sustentável e inclusiva. Além disso, a Agência Nacional de Pesquisa e Inovação do Uruguai (ANII) lançou o Proyecta Uruguai em 2019, um programa para tornar o país mais atraente para startups inovadoras e empreendedores.

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Algumas Melhores Práticas Apontadas pelo Digital Riser 2021

O relatório cita diversas experiências e práticas elencadas como de iniciativas que diferenciam a estratégia para uma economia digital. O que caracteriza cada estratégias são as metas ambiciosas, com recursos focados nos programas que possuem convergência e poder de espraiamento, com potencial de desenvolvimento e inclusão. Segue alguns exemplos que considerei interessantes para divulgar por aqui.

BRASIL

O Brasil aparece no relatório por meio de três programas com esforços públicos e público-privados para estimular o empreendedorismo no país, como o programa “InovAtiva Brasil”, “StartOut Brasil” e o Comitê Nacional de Iniciativas de Apoio a Start-Up. Em 2020, foi adotada uma nova Estratégia de Governo Digital para 2020-2022, que visa a centralização no cidadão, a transparência, a eficiência e a confiabilidade das ações governamentais. Apesar do relatório citar esses programas, infelizmente eles estão com metas e ações atrasadas, ou mesmo com recursos insuficientes para dar prosseguimento. Talvez no próximo relatório o país deva cair de posição no ranking.

CHINA

Sobre a China, o relatório cita a iniciativa Made in China 2025, um plano estratégico nacional para desenvolver as capacidades industriais do país e reduzir a dependência de tecnologia estrangeira. Nesse sentido, induz apoio estatal para dez setores-chave nos quais a China pretende se tornar um líder mundial, incluindo: Tecnologia da Informação, Ferramentas de controle numérico e robótica, Equipamentos de engenharia oceânica e navios de alta tecnologia. Outro programa chinês é citado no relatório, China Standards 2035, inicialmente anunciado em 2018, que visa definir padrões globais para novas tecnologias. Além disso, o governo da China colocou o empreendedorismo também como prioridade.

CANADÁ

O governo do Canadá, através do Innovation and Skills Plan - Plano de Inovação e Habilidades, tem como propósito fornecer aos canadenses habilidades essenciais para a criação de empregos bem remunerados e ajudar a fortalecer e aumentar a classe média. As principais áreas incluem: Pessoas e habilidades, Pesquisa, tecnologia e comercialização, Investimento, aumento de escala e crescimento limpo. Como parte do programa Connect to Innovate, o governo anunciou que iria investir US$ 585 milhões até 2023, fornecendo Internet de alta velocidade a 975 comunidades rurais e remotas.

EGITO

No Egito, o governo apoiou o desenvolvimento de seis parques tecnológicos para fomentar a inovação e o empreendedorismo. O plano contribui para a visão do Egito para 2030, por meio da criação do Egito Digital que se baseia nos principais pilares da transformação digital - habilidades e empregos digitais, e inovação digital. O relatório também cita que, como parte da estratégia, o Ministério das Comunicações e Informação lançou a iniciativa Future Work is Digital (Egypt FWD), uma bolsa de estudos de aprendizagem e qualificação em tecnologia para desenvolver as habilidades de TIC de 100.000 jovens egípcios.

HUNGRIA

A Hungria definiu sua meta de se tornar um dos 10 países líderes em tecnologias digitais na Europa até o final de a década. O relatório cita a Estratégia Nacional de Digitalização, que abrange diferentes subestratégias. A Estratégia Nacional visa promover a indústria das TIC durante o período de financiamento da UE 2021-2027. Os objetivos incluem, por exemplo, que 95 por cento dos domicílios sejam cobertos por redes de Gigabit até 2030. Além disso, compreende iniciativas em áreas como infraestrutura digital, competências digitais, economia digital e governo digital.

ITÁLIA

A estratégia da Itália é o “Repubblica Digitale”, um programa para superar a exclusão digital e fortalecer o desenvolvimento de habilidades digitais entre os cidadãos. Como parte da iniciativa, em conjunto com a União Europeia, inclui as seguintes medidas: Promover entre os cidadãos as competências digitais e as competências necessárias para as novas tecnologias, Aumentar a conscientização sobre a importância das habilidades digitais, Encontrar novos meios de treinamento para qualificação, requalificação e requalificação superior.

URUGUAI

O Uruguai, é citado através da Agenda Uruguai Digital 2020 (AUD 2020). A agenda é uma estratégia nacional que agrupa diferentes iniciativas de acordo com a prioridade, e visa promover a transformação digital do Uruguai de forma sustentável e inclusiva. A agenda 2020 consiste em quatro pilares principais: Fomentar a política social e a inclusão por meio do uso de tecnologias digitais, Acelerar o desenvolvimento econômico sustentável por meio da construção de uma economia digital, Melhorar a gestão governamental, Implementar a governança para uma sociedade da informação, a fim de aumentar a segurança e a confiança nas novas tecnologias.

VIETNÃ

O Vietnã quer que sua economia digital responda por 30% do PIB até 2030, nesse sentido o Programa Nacional de Transformação Digital 2025 é visto como um dos caminhos. O programa se utiliza de novas tecnologias e modelos para atualizar processos de negócios, revisar atividades governamentais e desenvolver um ambiente digital seguro, protegido e humano. Diversas iniciativas caminham lado a lado com o programa, a exemplo da introdução de produtos e plataformas digitais “Make in Vietnam” e o lançamento da plataforma de gestão escolar MISA QLTH em 2020, para promover a transformação digital no setor educacional. Enormes esforços em infraestrutura digital resultaram na expansão da cobertura da Internet de quase 0% da população em 2000 para 64% em 2020. Para impulsionar a inovação nas áreas de IA, IOT e infraestrutura em nuvem, o governo anunciou um centro de operações de cidade inteligente, com um investimento total de mais de US$ 1,4 milhão.

Alguns comentários finais

Com base no que venho lendo, o Digital Riser Index mostra o que outros relatórios já vinham apontando, que o cenário competitivo em torno das tecnologias digitais está evoluindo com extrema rapidez. Os governos que colocam a transformação digital no topo de sua agenda podem alcançar resultados tangíveis em intervalos de tempo relativamente curtos - vide China.

De forma clara, o relatório demonstra que a velocidade da transformação difere entre países. Embora essa velocidade não signifique que o ganho de um seja a perda de outro, ele demonstra que os governos devem enfatizar formas de administrar estrategicamente suas políticas nessa área, que é crucial para o futuro.

Para melhorar a competitividade em tecnologias do futuro, os governos devem criar um ecossistema e uma mentalidade que apoiem a economia digital. Entre as medidas, pode-se citar uma maior concentração de ações em educação, atração de talentos e apoio financeiro para inovação e empreendedorismo.

Boa semana!

Sobre o blog

Economista, com formação na Universidade Federal de Sergipe (UFS), Mestre em Geografia (desenvolvimento regional) e Especialista em Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). Experiências no setor governamental (municipal e estadual), setor privado (Associação Comercial Empresarial de Sergipe - ACESE e Federação do Comércio de Bens e Serviços e Turismo - Fecomércio), foi professora substituta no Departamento de Economia na UFS, pesquisadora e uma das fundadoras do Núcleo de Propriedade Intelectual, hoje Cintec-UFS.

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