Economia e Inovação

Por: Sudanês B. Pereira

20/06/2022

Brasil Lidera Queda no Interesse por Notícias

O Reuters Institute lançou o Digital News Report 2022. O relatório, revela insights sobre o consumo de notícias digitais com mais de 93.000 consumidores de notícias on-line em 46 mercados, cobrindo metade da população mundial. Esta é décima edição do relatório, que tem como objetivo lançar luz sobre as principais questões que a indústria enfrenta, e entender como as notícias estão sendo consumidas em vários países. A pesquisa foi realizada pelo YouGov usando um questionário online, no final de janeiro/início de fevereiro de 2022.

O relatório documenta maneiras pelas quais a conexão entre o jornalismo e o público pode estar se desgastando, incluindo queda na confiança e declínio do interesse em notícias. Ele também analisa a polarização do público e explora como os jovens acessam as notícias.

Algumas das Informações Importantes

A confiança nas notícias caiu em quase metade dos países pesquisados, aumentou em apenas sete, revertendo parcialmente os ganhos obtidos no auge da pandemia do coronavírus, segundo a Reuters. A Finlândia continua sendo o país com os níveis mais altos de confiança geral (69%), enquanto a confiança nas notícias nos EUA caiu três pontos percentuais e continua sendo a mais baixa (26%) da pesquisa.

O consumo de mídia tradicional, como TV e mídia impressa, caiu muito em 2021, em quase todos os mercados (pré-invasão da Ucrânia), com o consumo online e social não preenchendo a lacuna. O interesse em notícias caiu drasticamente em todos os mercados, de 63% em 2017 para 51% em 2022.

Uma constatação interessante que o relatório mostra é que a proporção de consumidores de notícias que dizem evitar notícias, com frequência ou às vezes, aumentou acentuadamente entre os países. Esse tipo de evasão seletiva dobrou no Brasil (54%) e no Reino Unido (46%) nos últimos cinco anos, com muitos entrevistados dizendo que as notícias têm um efeito negativo em seu humor.

Outro fato relevante é que uma proporção significativa de pessoas mais jovens e menos instruídas, diz que evita notícias porque pode ser difícil de acompanhar ou entender – sugerindo que a mídia de notícias poderia fazer muito mais para simplificar a linguagem e explicar melhor, ou contextualizar histórias complexas.

Quais as Vias de Consumo de Notícias

A pesquisa revela que o acesso às notícias é mais distribuído. Em todos os mercados, menos de um quarto (23%) prefere iniciar suas jornadas de notícias com um site ou aplicativo, uma queda de nove pontos desde 2018. De acordo com a pesquisa, queles com idades entre 18 e 24 anos, têm uma conexão ainda mais fraca com sites e aplicativos, preferindo acessar notícias via rotas de porta lateral, como mídia social, pesquisa e agregadores móveis.

O Facebook continua sendo a rede social mais usada para notícias, os usuários são mais propensos a dizer que veem muitas notícias em seu feed em comparação com outras redes. Embora os grupos mais antigos permaneçam fiéis à plataforma, a geração mais jovem volta sua atenção para redes mais visuais nos últimos três anos.

A pesquisa mostrou que a TikTok se tornou a rede que mais cresce na pesquisa deste ano, atingindo 40% dos jovens (18-24 anos), com 15% usando a rede para notícias. O uso é muito maior em partes da América Latina, Ásia e África, do que nos Estados Unidos ou no norte da Europa. O Telegram também cresceu significativamente em alguns mercados, fornecendo uma alternativa flexível ao WhatsApp.

O smartphone se tornou a maneira dominante pela qual a maioria das pessoas acessa as notícias pela manhã. Na Noruega, Espanha, Finlândia e Reino Unido, o smartphone é acessado primeiro, à frente da televisão, enquanto o rádio mantém um papel importante na Irlanda. A leitura de jornais matinais ainda é popular na Holanda; a televisão ainda domina no Japão.

O crescimento de podcasts tem sido relevante, com 34% consumindo um ou mais podcasts no último mês. Os dados mostram que o Spotify continua ganhando terreno sobre os podcasts da Apple e do Google em vários países, e o YouTube se beneficiando da popularidade dos podcasts híbridos e liderados por vídeo.

O Interesse por Notícia

A pesquisa encontrou pessoas com menor interesse por notícias na grande maioria dos países. Em alguns deles, como Argentina, Brasil, Espanha e Reino Unido, essas quedas vêm ocorrendo há algum tempo. Em alguns países o declínio está ocorrendo mais lentamente, isso inclui nações mais ricas da Europa Central/Ocidental, onde houve menos turbulência política ou econômica nos últimos anos. Hoje, menos da metade da amostra (47%) da pesquisa, diz estar muito ou extremamente interessada em notícias, em comparação com 67% em 2015.

A figura 1 ilustra o resultado da pesquisa cuja pergunta foi “quão interessada(o) em notícias você diria que está?” Observe que o Brasil lidera o ranking de países com maiores quedas no interesse por notícias, seguido por Espanha e Argentina.

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Fig. 1. Proporção que Estão Muito ou Extremamente Interessados em Notícias

Fuga Seletiva de Notícias

O relatório mostra que as pessoas estão optando cada vez mais por racionar ou limitar sua exposição às notícias - ou pelo menos a certos tipos de notícias. A Reuters chama esse comportamento de “evasão seletiva de notícias”, e o crescimento dessa atividade pode ajudar a explicar por que os níveis de consumo, em sua maioria, não aumentaram. A proporção que diz evitar as notícias, às vezes ou com frequência, dobrou no Brasil (54%) e no Reino Unido (46%) desde 2017 – e também aumentou em todos os outros mercados (ver o gráfico 1 logo abaixo).

Esse tipo de evasão seletiva parece ser menos difundido em países do norte da Europa, como Alemanha (29%), Dinamarca e Finlândia (20%), bem como em alguns países asiáticos, como Japão (14%). Os brasileiros estão mais propensos a reduzir conscientemente sua “ingestão” de notícias. Uma média de 38% dos entrevistados de mais de 40 países, disse que, às vezes ou muitas vezes, evitam ativamente as notícias, um aumento significativo em relação a 27% em 2017.

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Gráfico 1. Proporção que às vezes ou frequentemente evitam ativamente as notícias

Segundo o relatório, as pessoas que evitam notícias seletivamente dão uma variedade de razões para seu comportamento. A pergunta para entender esse comportamento foi “Por que você se encontra tentando ativamente evitar as notícias?” Em todos os mercados, muitos entrevistados dizem que se sentem desencorajados pela repetitividade da agenda de notícias - especialmente em torno de política e da Covid-19 (43%), ou que muitas vezes se sentem desgastados pelas notícias (29%).

Uma proporção significativa diz que evita notícias porque acha que não é confiável (29%). Cerca de um terço (36%), principalmente aqueles com menos de 35 anos, dizem que as notícias desanimam. Outros, dizem que a notícia leva a discussões que eles preferem evitar (17%), ou leva a sentimentos de impotência (16%). Uma pequena proporção diz que não tem tempo suficiente para notícias (14%), ou que é muito difícil de entender (8%).

O que o Relatório Mostra Sobre o Brasil

O relatório trás informações interessantes, sendo a primeira delas que a propriedade da mídia no país continua altamente concentrada. Grandes conglomerados dominam o mercado de transmissão e impressão, mas enfrentam maior concorrência online e nas mídias sociais.

No Brasil, mais da metade dos entrevistados (54%) diz que muitas vezes, ou às vezes, fazem uma pausa nas notícias. Esta é a terceira maior proporção de todos os mercados pesquisados. Para a Reuters, essa forte tendência de alta parece refletir uma espécie de “fadiga de más notícias”.

Quase dois terços dos brasileiros (64%) agora recebem suas notícias das redes sociais, toda semana, usando uma ampla variedade de redes. O próprio Facebook vem perdendo terreno e foi ultrapassado pelo YouTube como a rede social mais popular para o consumo de notícias. Também houve um forte aumento no uso de redes visuais mais recentes, como Instagram (35%) e TikTok (12%) para notícias, enquanto os aplicativos de mensagens WhatsApp (41%) e Telegram (9%) continuam sendo formas importantes de discutir e compartilhar notícias. Ver a figura 2.

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Fig. 2. Brasil - Principais Mídias Sociais e de Mensagens Utilizadas para Compartilhar Notícias

A TV continua dominante em termos de gastos com mídia no Brasil, mas está perdendo espaço para a mídia online. A participação da televisão aberta na quota de publicidade caiu de 51,9% (2020) para 45,4% (2021). Em comparação, a participação publicitária das revistas caiu em um terço.

A circulação média diária paga dos dez jornais mais vendidos, totalizou 1,51 milhão de exemplares no ano passado, uma queda de quase 3,5% desde 2020. Mas a digitalização avança rapidamente. Nos dois primeiros meses de 2021, as assinaturas digitais, que incluem PDF e acesso ao site, representaram 59% da circulação dos dez jornais mais vendidos do Brasil; no final do ano, esse número era de 67%.

Segundo o relatório, os brasileiros percebem o ambiente midiático como relativamente homogêneo em termos de posicionamento político. Apenas 23% dos entrevistados percebem as organizações de notícias como politicamente “distantes”.

Enquanto em outros países há uma percepção de que os jornalistas devem se limitar a reportar as notícias ao usar as mídias sociais, a maioria das pessoas no Brasil (60%) acha que esses profissionais devem poder expressar opiniões pessoais, bem como relatar as notícias.

Mudança de Mídia

O público da mídia tradicional, como TV e mídia impressa, diminuiu significativamente na última década, enquanto o tráfego para sites de mídia online e social, permaneceu relativamente estável. O uso de smartphones para notícias aumentou rapidamente com o Brasil agora tendo mais dispositivos inteligentes do que pessoas, cerca de 18% dos pesquisados pagam por notícias online. Ver a figura abaixo.

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Fig. 3. Brasil - Fontes de Notícias (2013-22) e Dispositivos para Notícias (2013-22)*

Confiança nas Notícias

De acordo com a pesquisa, a confiança geral nas notícias vem mudando ao longo do tempo, caiu seis pontos percentuais em relação a 2020, atualmente 48% dos entrevistados dizem confiar nas notícias. O país ocupa o 14º lugar entre os 46 mercados pesquisados pelo Reuters Institute. Ver a figura 4.

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Fig. 4. Brasil - Pontuação Geral - Confiança

Outras informações interessantes foram apresentadas no relatório em relação ao Brasil. De acordo com a pesquisa, os brasileiros percebem o ambiente midiático como relativamente homogêneo em termos de posicionamento político. Apenas 23% dos entrevistados percebem as organizações de notícias no Brasil como politicamente “distantes”.

Sobre os jornalistas, o relatório mostra que, enquanto em outros países há uma percepção de que os jornalistas devem se limitar a reportar as notícias ao usar as mídias sociais, a maioria das pessoas no Brasil, cerca de 60%, acha que esses profissionais devem poder expressar opiniões pessoais, bem como relatar as notícias.

O gráfico abaixo mostra a pontuação de confiança para cada marca dos principais meios de comunicação do Brasil.

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Gráfico 2. Brasil - Pontuações de Confiança da Marca

Alguns Comentários

Considero três coisas importantes que a pesquisa revela: 1) A pesquisa constatou que a desconexão é apenas um sinal das dificuldades de engajar alguns públicos em um ambiente mais digital. 2) O surgimento de uma minoria de pessoas ativas online, muitas delas mais jovens ou menos instruídas, mas que se tornaram amplamente desconectadas das notícias, talvez porque não sintam que isso seja relevante para suas vidas. 3) Um declínio mais generalizado no interesse e consumo de notícias afetando um grupo muito maior, o que pode estar relacionado a mudanças estruturais na maneira como as notícias são distribuídas, como a mudança para o online, a natureza do próprio ciclo de notícias, ou ambos.

Excelente semana!

Sobre o blog

Economista, com formação na Universidade Federal de Sergipe (UFS), Mestre em Geografia (desenvolvimento regional) e Especialista em Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). Experiências no setor governamental (municipal e estadual), setor privado (Associação Comercial Empresarial de Sergipe - ACESE e Federação do Comércio de Bens e Serviços e Turismo - Fecomércio), foi professora substituta no Departamento de Economia na UFS, pesquisadora e uma das fundadoras do Núcleo de Propriedade Intelectual, hoje Cintec-UFS.

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