Economia e Inovação

Por: Sudanês B. Pereira

05/07/2022

Banda Larga pode Gerar 15 Milhões de Empregos na América Latina

O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), divulgou o Relatório Anual do Índice de Desenvolvimento da Banda Larga (IDBL) - Lacuna Digital na América Latina e Caribe (2020), publicação mais recente do índice. O objetivo índice é avaliar a situação atual e o desenvolvimento da banda larga no continente.

O índice é formado pela associação de 30 variáveis em quatro dimensões [Políticas públicas e visão estratégica, Regulamentação estratégica, Infraestrutura, Aplicativos e capacitação], por meio da atribuição de pesos definidos. O IDBL possui uma faixa que varia de 1 a 8, em que 1 é o pior caso e 8 o melhor. A figura abaixo ilustra a definição e variáveis de cada pilar do IDBL.

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Fig. 1. Pilares do Índice de Desenvolvimento da Banda Larga

A Banda Larga e seus Benefícios Socioeconômicos

O termo banda larga está tão incorporado ao nosso vocabulário que se quer damos conta se realmente entendemos de fato o que é, apenas vamos absorvendo o termo e desejando que o mesmo nos permita acessar a internet “de forma mais rápida”, que é apenas isso o que imaginamos que a banda larga faz. Mas o que é banda larga?

A União Internacional de Telecomunicações (UIT/ONU) e sua Comissão sobre Banda Larga para o Desenvolvimento Digital, não definem banda larga como uma velocidade de transmissão ou um conjunto específico de serviços, mas como uma conexão de alta capacidade (capaz de transmitir voz, dados, imagens e vídeos) e sempre disponível. Talvez seja por isso que se fala muito em conexão. Para a UIT, a boa qualidade da banda larga é definida pela média de velocidade para baixar arquivos, de pelo menos 10 mbps (esses são dados transmitidos por cabos de fibra, satélite, ondas de rádio e outras tecnologias).

Nesse sentido, para o BID, a banda larga deriva das demandas dos usuários e, portanto, não é um conceito estático independente do comportamento do mercado, mas sim um conceito dinâmico (moving target) que evolui com as preferências e necessidades dos usuários. O fato de ser orientado para o usuário exige uma atualização contínua da infraestrutura e das redes para manter os sistemas de comunicações de ponta nos países.

Alguns estudos já sinalizam benefícios socioeconômicos derivados do investimento em banda larga, que são classificados como “quantificáveis” - por permitirem a mensuração direta do valor econômico que geram -, e “intangíveis” - por estar vinculados a externalidades decorrentes do impacto da banda larga no cotidiano da população, para os quais a medição do impacto em termos monetários é complicada e subjetiva. Os benefícios socioeconômicos mais importantes podem ser vistos na figura 2.

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Fig. 2. Benefícios Socioeconômicos da Implantação da Banda Larga

O estudo da McKinsey Global Institute “Getting tangible about intangibles: The future of growth and productivity? mostrou que em 2019 os intangíveis representaram 40% de todo o investimento nos Estados Unidos e dez economias europeias. Na era da Economia Digital e do Conhecimento, o sucesso das empresas é medido mais pelas pessoas e suas habilidades do que por máquinas, produtos ou serviços. Esse cenário não vai mudar, posto que essa é a natureza da nova vantagem competitiva, empresas como Amazon, Apple, Microsoft claramente continuam crescendo, conduzidas pelos intangíveis. A banda larga e o 5G são elementos fundamentais para dar maior competitividade a empresas e países.

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU/2020), o uso da internet continua a crescer globalmente. Atualmente, 4,1 bilhões de pessoas utilizam a rede mundial. O número de usuários corresponde a 53,6% da população de todo o mundo. O desafio será levar a internet a 3 bilhões de pessoas ainda sem acesso à rede mundial, o que demandará investimento público e privado de, pelo menos, US$ 428 bilhões até 2030. Ou seja, os desafios serão muitos.

Cabe deixar claro que, os “riscos imprevisíveis” das novas tecnologias incluem o impacto dessas tecnologias no futuro do trabalho, na segurança global, na confiança e no bem-estar das pessoas na sociedade digital.

Os Resultados do Índice de Desenvolvimento da Banda Larga (2020)

Com base no que o IDBL propõe, é importante enxergar que um país deve ter políticas públicas que favoreçam, em especial, um ambiente regulatório de telecomunicações adequado que permita um cenário favorável para o desenvolvimento de infraestrutura, que por sua vez, estimula o investimento em novos serviços de banda larga. O resultado certamente será o impulso para adoção de novas tecnologias, gerando um círculo virtuoso de desenvolvimento, promovendo a competitividade da economia do país, região ou localidades.

O ranking global de 2020 é liderado pela Suécia, seguido por Dinamarca e Noruega. Segundo o relatório, a Dinamarca subiu cinco posições em relação à ultima edição (2018) devido, principalmente, à melhora no pilar ‘políticas públicas e visão estratégica’, a Noruega é o terceiro no que se refere ao quesito ‘infraestrutura’. No geral, os países nórdicos estão na fronteira dos esforços de melhoria do desenvolvimento da banda larga em seus países. Ver a figura 3.

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Fig. 3. Top 10 – Ranking Global do IDBL (2020)

Os países da OCDE se destacam no quesito ‘Infraestrutura’, liderados pela Islândia (6,95), Noruega (6,81), e Dinamarca (6,79). Importante destacar que, fora da OCDE, mas na segunda posição em ‘Infraestrutura’, está a Coreia do Sul (6,84). Nessa dimensão, encontram-se variáveis como porcentagem da população com cobertura de banda larga móvel 4G, servidores de internet seguros por milhão de habitantes, velocidade de acesso com redes 4G, entre outras.

Os Estados Unidos (7,52) ocupam o primeiro lugar no ranking de ‘Políticas Públicas e Visão Estratégica’, devido, principalmente, aos elevados gastos com pesquisa e desenvolvimento em comparação aos demais países. Em segundo lugar, está a Suíça (7,48) e em terceiro a Suécia (7,34). Algumas variáveis analisadas nesse quesito são adaptabilidade do marco legal para negócios digitais, governança das TIC, gastos em pesquisa e desenvolvimento, qualidade das políticas públicas para o fomento do setor privado.

O surpreendente no ranking de 2020 são os países índia (7,55) e Rússia (7,04), estarem em primeiro e segundo lugar, respectivamente, no quesito ‘Regulamentação Estratégica’, a França (6,95) é o terceiro colocado. As variáveis dessa dimensão representam a visão e eficácia das medidas governamentais que o país toma a este respeito. Estão inclusas variáveis como eficiência do fundo para o acesso e serviço universais, concentração de operadores de banda larga fixa, concentração de operadores de banda larga móvel, alocação do espectro das comunicações móveis em bandas abaixo de 3GHz, entre outras.

A Austrália (7,37) lidera o ranking “Aplicativos e Capacitação’, seguido por Luxemburgo (7,30), Islândia (7,30) e Suíça (7,26). Essa dimensão inclui variáveis como competências/habilidades digitais da população, acesso à Internet nas escolas de ensino fundamental, índice de desenvolvimento do governo eletrônico, igualdade de gênero no uso da Internet, usuários de internet para cada 100 habitantes, entre outras igualmente importantes. A tabela abaixo ilustra a classificação do Ranking Global do IDBL 2020. Observe que nenhum país da América Latina e Caribe estão entre os 20 primeiros classificados do ranking. O Brasil está na 39º colocação.

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Tab. 1. Ranking Global IDBL 2020 - Pontuação Geral e por Pilares

O Índice de Desenvolvimento da Banda Larga (IDBL) na América Latina e Caribe

O relatório mostrou que os países com as melhores colocações são Barbados, Chile, Costa Rica, Brasil e Argentina. O Brasil é o 4º no ranking da América Latina e Caribe, denotando a necessidade de melhorar, em todos os pilares, como pode ser visto na tabela abaixo.

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Tab. 2. Ranking IDBL América Latina e Caribe - Pontuação Geral e por Pilares (2020)

O relatório do BID trás ainda uma informação extremamente relevante. Com base nos dados obtidos no índice, foi desenvolvida uma metodologia que permitiu estimar em alto nível, as necessidades de investimento para preencher a lacuna que existe entre a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) e a região da América Latina e Caribe (ALC).

Com base nesta metodologia, e em função das características sociodemográficas dos países e dos níveis de penetração da banda larga atuais, foram estimadas as necessidades de gastos de investimento, tanto em banda larga fixa como móvel, e os empregos diretos que seriam gerados se a penetração aumentasse. Da mesma forma, foi simulado um cenário adicional, que consistiria em aumentar em 10 pontos percentuais a penetração fixa e móvel em cada país.

De acordo como estudo, seria necessário um investimento total superior a US$ 68 bilhões nos 26 países da região, e seriam gerados mais de 15 milhões de empregos diretos. A Tabela abaixo mostra os resultados obtidos para a região.

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Tab. 3. Cenários de Investimento para Acabar com a Lacuna Digital na ALC

Considerações

Estamos longe de termos competitividade no que se refere à disponibilidade de banda larga na América Latina e Caribe, temos algumas experiências isoladas de países em alguns pilares. O Chile é o único país que está bem-posicionado, em todos os pilares.

Não tem como competir em um mundo digital sem estratégia de desenvolvimento que não priorize toda a infraestrutura que a economia do conhecimento exige. Não esquecer que o investimento público estratégico é necessário para articular parcerias público-privadas que possibilitem alcançar as áreas mais remotas e desconectadas da região.

O relatório do BID é um farol para os países da região elaborar e executar políticas públicas que permitam melhorar sua competitividade. Eis as recomendações:

Países da América Central: investir em infraestrutura e desenvolvimento de aplicativos e programas de capacitação no uso da tecnologia.

Países do Caribe: investir em infraestrutura e atualizar os marcos normativos e regulatórios.

Países do Cone Sul: modernizar a infraestrutura e desenvolver modelos de produção baseados em tecnologias digitais.

Países Andinos: investir em infraestrutura e desenvolver políticas públicas que permitam a implantação de parcerias público-privadas para atingir as áreas mais remotas.

Excelente semana!

Sobre o blog

Economista, com formação na Universidade Federal de Sergipe (UFS), Mestre em Geografia (desenvolvimento regional) e Especialista em Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). Experiências no setor governamental (municipal e estadual), setor privado (Associação Comercial Empresarial de Sergipe - ACESE e Federação do Comércio de Bens e Serviços e Turismo - Fecomércio), foi professora substituta no Departamento de Economia na UFS, pesquisadora e uma das fundadoras do Núcleo de Propriedade Intelectual, hoje Cintec-UFS.

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