Economia e Inovação

Por: Sudanês B. Pereira

05/01/2022

As Desigualdades Contemporâneas de Renda e Riqueza

O World Inequality Lab, lançou em dezembro de 2021 o “World Inequality Report 2022”, um trabalho coordenado pelos pesquisadores Lucas Chancel, Thomas Piketty, Emmanuel Saez, e Gabriel Zucman.

O World Inequality Lab é um laboratório de pesquisa com foco no estudo da desigualdade no mundo. O WIL hospeda o World Inequality Database, o mais extenso banco de dados público sobre a dinâmica da desigualdade global. Ambos são financiados por instituições públicas e sem fins lucrativos.

O objetivo do World Inequality Report 2022 é apresentar os dados mais recentes, completos e disponíveis, para rastrear as desigualdades globais e subsidiar o debate democrático em todo o mundo. A desigualdade econômica é generalizada, e está no centro dos debates atuais. A crise inesperada do Covid-19 ilustra isso claramente. Fechou grandes setores da economia, privando muitos de seus meios de subsistência. Ainda assim, em muitos países, sistemas de apoio à renda compensatória foram implantados rapidamente, demonstrando o grande poder das sociedades, por meio de seus governos, para aliviar a desigualdade e evitar catástrofes sociais e políticas.

De modo geral, as perguntas que precisam ser respondidas são basicamente: o crescimento econômico é distribuído de maneira justa? A rede de segurança social é ampla e profunda o suficiente? Os países de baixa renda estão alcançando os mais ricos? As desigualdades raciais e de gênero estão caindo? Em todo o mundo, as pessoas têm opiniões muitas vezes contraditórias sobre o que constitui uma desigualdade aceitável e inaceitável, e o que deve ser feito a respeito. Os pesquisadores afirmam que não existe uma verdade científica única sobre o nível de desigualdade, muito menos sobre as políticas e instituições sociais ideais.

O relatório de 2022 apresenta descobertas em quatro áreas principais. Em primeiro lugar, fornece dados de desigualdade de renda abrangentes para quase todos os países do mundo, ao longo de longos períodos. Em segundo lugar, o relatório fornece evidências mais detalhadas sobre a riqueza e sua distribuição em todo o mundo. Terceiro, analisa a desigualdade de gênero, criando dados sistemáticos sobre a parcela da renda do trabalho mundial ganha pelas mulheres e quão bem representadas as mulheres estão no topo da distribuição da renda do trabalho. Quarto, apresenta novas evidências de desigualdade nas emissões de carbono em todo o mundo. Por fim, o relatório propõe políticas que poderiam reduzir a desigualdade.

O estudo chama atenção sobre a realidade de vivermos em um mundo com abundância de dados, e ainda carecermos de informações básicas sobre a desigualdade. Os números do crescimento econômico são publicados todos os anos por governos em todo o mundo, mas eles não nos falam sobre como o crescimento é distribuído pela população - sobre que ganha e quem perde com as políticas econômicas.

O acesso a esses dados é fundamental para a democracia. Além de renda e riqueza, também é fundamental para melhorar nossa capacidade coletiva de medir e monitorar outras dimensões socioeconômicas, incluindo gênero e desigualdades ambientais. Os pesquisadores alertam: acesso livre, informações de desigualdade transparentes e confiáveis é um bem público global.

PRINCIPAIS RESULTADOS

1- As desigualdades contemporâneas de renda e riqueza são muito grandes

Os 10% mais ricos da população global, respondem atualmente por 52% da renda global, enquanto a metade mais pobre da população recebe 8,5% dela. Em média, um indivíduo entre os 10% mais ricos da distribuição de renda global, ganha € 87.200 (US$ 122.100) por ano, enquanto um indivíduo da metade mais pobre da distribuição de renda global ganha € 2.800 (US $ 3.920) por ano.

As desigualdades de riqueza global são ainda mais pronunciadas do que as desigualdades de renda. A Figura 1 mostra que a metade mais pobre da população global mal possui qualquer riqueza, possuindo apenas 2% do total. Em contraste, os 10% mais ricos da população global possuem 76% de toda a riqueza. Segundo o relatório, em média, a metade mais pobre da população possui € 2.900 por adulto, ou seja, US$ 4.100, e os 10% mais ricos possuem € 550.900 (ou US$ 771.300) em média. Observe que os maiores detentores de riqueza não são necessariamente os maiores detentores de renda.

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Figura 1. Renda global e desigualdade de riqueza, 2021.png

2- MENA é a região mais desigual do mundo, a Europa tem os níveis de desigualdade mais baixos

A Figura 2 mostra os níveis de desigualdade de renda entre as regiões. A desigualdade varia significativamente entre a região mais igual (Europa) e a mais desigual (Oriente Médio e Norte da África, ou seja, MENA). Na Europa, a parcela dos 10% da renda mais alta é de cerca de 36%, enquanto no MENA chega a 58%. Entre esses dois níveis, é possível ver uma diversidade de padrões. No Leste Asiático, os 10% que estão no topo representam 43% da receita total. Na América Latina, os 10% mais ricos capturam 55% da renda nacional, em comparação com 36% na Europa. Ver a figura 2.

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Figura 2. A metade mais pobre fica para trás em todo mundo em 2021.png

3- A renda média nacional nos diz pouco sobre a desigualdade

O mapa mundial da desigualdade (Figura 3) revela que os níveis de renda média nacional são indicadores fracos de desigualdade. O relatório mostra que entre os países de alta renda, alguns são muito desiguais (como os EUA), enquanto outros são relativamente iguais (por exemplo, Suécia). O mesmo é verdadeiro entre países de renda baixa e média, com alguns exibindo desigualdade extrema (por exemplo, Brasil e Índia), níveis um tanto elevados (por exemplo, China) e níveis moderados a relativamente baixos (por exemplo, Malásia, Uruguai). No Brasil, os 50% mais pobres ganham 29 vezes menos do que os 10% mais ricos. O valor na França é de 7 vezes.

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Figura 3. Mapa Mundial da Desigualdade – Principais lacunas de renda em todo o mundo, 2021 .png

4- A desigualdade é uma escolha política, não uma inevitabilidade

De acordo com o relatório, as desigualdades de renda e riqueza aumentaram em quase todos os lugares desde a década de 1980, após uma série de programas de desregulamentação e liberalização que assumiram diferentes formas em diferentes países. O aumento não foi uniforme, alguns países experimentaram aumentos significativos na desigualdade (incluindo os EUA, Rússia e Índia), enquanto outros (países europeus e China) experimentaram aumentos relativamente menores. Essas diferenças confirmam que a desigualdade não é inevitável, é uma escolha política.

5- As desigualdades globais contemporâneas estão próximas dos níveis do início do século 20, no auge do imperialismo Ocidental

Embora a desigualdade tenha aumentado na maioria dos países, nas últimas duas décadas as desigualdades globais entre os países diminuíram.

O relatório mostra que a diferença entre a renda média dos 10% mais ricos e os 50% mais pobres dos indivíduos dentro dos países quase dobrou, de 8,5x para 15x. Esse aumento acentuado nas desigualdades dentro dos países, significou que, apesar da recuperação econômica e forte crescimento nos países emergentes, o mundo continua particularmente desigual hoje. Isso também significa que as desigualdades dentro dos países são agora ainda maiores do que as desigualdades significativas observadas entre os países.

Os dados do relatório evidenciam que as desigualdades globais parecem ser tão grandes hoje quanto no auge do imperialismo ocidental no início do século XX. A parcela da renda atualmente capturada pela metade mais pobre da população mundial é cerca de metade do que era em 1820, antes da grande divergência entre os países ocidentais e suas colônias (Figura 4). Em outras palavras, ainda há um longo caminho a percorrer para desfazer as desigualdades econômicas globais herdadas da organização muito desigual da produção mundial, entre meados do século XIX e meados do século XX.

A figura revela que, a parcela da renda global que chega aos 10% das rendas mais altas em nível mundial, oscilou em torno de 50-60% entre 1820 e 2020 (50% em 1820, 60% em 1910, 56% em 1980, 61% em 2000, 55% em 2020), enquanto a parcela que vai para os 50% das rendas mais baixas tem sido geralmente em torno ou abaixo de 10% (14% em 1820, 7% em 1910, 5% em 1980, 6% em 2000, 7% em 2020).

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Figura 4. Desigualdade de renda global, 1820-2020.png

6- As nações ficaram mais ricas, mas os governos tornaram-se pobres

As informações do relatório sobre essa temática são bem ricas. Existe uma lacuna entre a riqueza líquida dos governos e a riqueza líquida do setor privado. Nos últimos 40 anos, os países tornaram-se significativamente mais ricos, mas seus governos ficaram significativamente mais pobres. A parcela da riqueza detida pelos atores públicos é próxima de zero ou negativa nos países ricos, o que significa que a totalidade da riqueza está em mãos privadas (Figura 5). Os pesquisadores mostram que essa tendência foi ampliada pela crise da Covid-19, durante a qual os governos tomaram emprestado, essencialmente do setor privado, o equivalente a 10-20% do PIB. Para os pesquisadores, a atual baixa riqueza dos governos tem implicações importantes para a capacidade do Estado de enfrentar a desigualdade no futuro, bem como para os principais desafios do século 21, como as mudanças climáticas. A título de exemplo, a riqueza pública caiu de 60% da renda nacional em 1970 para -106% em 2020 no Reino Unido.

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Figura 5. A ascensão do setor privado versus o declínio da riqueza pública nos países ricos, 1970-2020 .png

7-As desigualdades de gênero permanecem consideráveis em nível global, e o progresso dentro dos países é muito lento

O relatório de 2022 trás as primeiras estimativas da desigualdade de gênero nos ganhos globais. No geral, a participação das mulheres na renda do trabalho se aproximava de 30% em 1990, hoje é menos de 35% (Figura 6). Os pesquisadores mostram que a atual desigualdade de renda de gênero continua muito alta. Em um mundo com igualdade de gênero, as mulheres ganhariam 50% de toda a renda do trabalho. Em 30 anos, o progresso foi muito lento em nível global, e a dinâmica foi diferente entre os países, com alguns registrando progresso, mas outros observando reduções na participação das mulheres nos rendimentos.

A parcela da renda feminina na renda global do trabalho era de 30% em 1990 e se aproxima dos 35% em 2015-2020. Hoje, a parcela de renda dos homens representa 65% da renda total do trabalho.

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Figura 6. Participação feminina na renda global do trabalho, 1990-2020.png

8- Lidar com grandes desigualdades nas emissões de carbono é essencial para enfrentar as mudanças climáticas

A análise dos pesquisadores é interessante nesse tópico. Segundo eles, as desigualdades globais de renda e riqueza estão intimamente ligadas às desigualdades ecológicas e às desigualdades nas contribuições para a mudança climática. Em média, os humanos emitem 6,6 toneladas de equivalente dióxido de carbono (CO2) per capita, por ano.

Os dados sobre as desigualdades nas emissões de carbono revelados pelo relatório, mostram importantes desigualdades nas emissões de CO2 em nível mundial: os 10% principais emissores são responsáveis por cerca de 50% de todas as emissões, enquanto os 50% inferiores produzem 12% do total. Ver a figura 7.

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Figura 7. Desigualdade global de carbono, 2019. .png

Considerações

O relatório World Inequality Report 2022 é um documento extremamente importante para os dias atuais. Construir um novo modelo de desenvolvimento significa considerar as desigualdades, sejam elas em qualquer dimensão.

Enfrentar os desafios do século 21 não é viável sem uma redistribuição significativa das desigualdades de renda e riqueza. O relatório revela, a partir dos dados analisados, que a ascensão dos Estados de bem-estar modernos no século 20, que foi associada a um progresso na saúde, educação e oportunidades para todos, foi associada ao aumento das taxas de tributação progressivas. Isso desempenhou um papel fundamental para garantir a aceitabilidade social e política do aumento da tributação e da socialização da riqueza.

Uma evolução semelhante será necessária para enfrentar os desafios do século XXI. Desenvolvimentos recentes na tributação internacional mostram que o progresso em direção a políticas econômicas mais justas é de fato possível em nível global, bem como dentro dos países. O relatório é rico em experiências para combater a desigualdade.

A desigualdade é sempre uma escolha política e aprender com as políticas implementadas em outros países ou em outros momentos é fundamental para desenhar caminhos de desenvolvimento mais justos.

Vale conhecer o relatório completo!

Sobre o blog

Economista, com formação na Universidade Federal de Sergipe (UFS), Mestre em Geografia (desenvolvimento regional) e Especialista em Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). Experiências no setor governamental (municipal e estadual), setor privado (Associação Comercial Empresarial de Sergipe - ACESE e Federação do Comércio de Bens e Serviços e Turismo - Fecomércio), foi professora substituta no Departamento de Economia na UFS, pesquisadora e uma das fundadoras do Núcleo de Propriedade Intelectual, hoje Cintec-UFS.

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