Economia e Inovação

Por: Sudanês B. Pereira

21/10/2021

A Transformação Digital das MPEs Brasileiras está no Início da Jornada

A Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), trabalha para promover a convergência de políticas públicas e ações estratégicas voltadas para melhorar a competitividade da economia brasileira. Um dos programas mais importantes que a agência vem desenvolvendo é o projeto para incentivar a transformação digital no setor produtivo brasileiro - digital.br. O digital.br é uma iniciativa com objetivo de estimular políticas, projetos e programas propostos por redes e ecossistemas de inovação, que estejam voltados à transformação digital do setor produtivo, com foco em micro, pequenas e médias empresas.

O que é a transformação digital?

O atual desenvolvimento tecnológico tem causado impactos profundos na economia, independente do estágio das economias, dos segmentos de atividade econômica, assim como do tamanho do negócio (pequeno, médio, grande). As tecnologias digitais são uma realidade, estejam elas presentes em qualquer estágio, ou mecanismo de interface ou interação com os negócios.

É fato que as regras dos negócios mudaram com a difusão das tecnologias digitais, e novos desafios foram postos aos empreendedores. No livro Transformação Digital – repensando o seu negócio para a era digital (2017), David L. Rogers, diz que os cinco domínios da transformação digital são: clientes, competição, dados, inovação e valor. Segundo Rogers (2017),

  1. As tecnologias digitais mudaram a forma como as empresas se conectam com os consumidores (clientes), dinamizando a interação cliente-empresa. Os clientes se comportam como redes conectadas coesas.
  2. As tecnologias também transformaram a maneira como se encara a competição (não somente com empresas rivais, mas com negócios de outros setores de atividade econômica). Os recursos competitivos não estão somente na organização, mas na rede de parceiros, em uma relação de negócios mais difusa.
  3. Colocou os dados no centro dos negócios (nos negócios tradicionais os dados eram vistos como caros de se obter, difíceis de armazenar, e o seu gerenciamento exigia a compra e manutenção de grandes sistemas de TI. O grande desafio de hoje é converter a enorme quantidade de dados em informações valiosas.
  4. As tecnologias digitais estão transformando como as empresas inovam. Testar novas ideias era difícil e dispendioso. Hoje as tecnologias possibilitam a verificação e experimentações de forma contínua, o teste de ideias é rápido, posto que as comunidades de usuários e o aprendizado contínuo antes do lançamento de qualquer novo produto ou serviço é o novo padrão.
  5. Por fim, mas não menos importante, as tecnologias digitais forçam a pensar de forma diferente como se compreende e se cria valor para os clientes. O que os clientes valorizam pode mudar rapidamente, buscar novas fontes de valor para os clientes é imperativo. Qual a proposta de valor que o negócio entrega ao cliente?

Com base nas considerações acima, é possível percebe que a necessidade de reconfiguração dos negócios está posta com a digitalização da economia, sendo a transformação digital uma forma para se repensar e redefinir os negócios.

Para a ABDI, a transformação digital é o “processo de transformar o modelo de negócio vigente através do uso de ferramentas digitais, acompanhando a mudança no perfil do consumidor e nos formatos de consumo de produtos e serviços”.

Porém, a definição do David L. Rogers é bem interessante e mais profunda, para ele “a transformação digital não é sobre tecnologia - trata-se de estratégia e de novas formas de pensar. Transformar para a era digital exige que sua empresa atualize sua mentalidade estratégica”. Ou seja, as tecnologias digitais são importantes, mas a transformação digital vai além da utilização das tecnologias.

Como está a digitalização das empresas brasileiras?

Considerando que as micro e pequenas empresas (MPEs) têm papel fundamental na geração de emprego e renda, respondendo por mais de 90% dos empreendimentos do país e 30% do produto interno bruto (PIB), elas devem ser campo prioritário em qualquer projeto de transformação digital. Nesse sentido, a estratégia da ABDI é muito assertiva.

Para conhecer o estágio atual da digitalização das empresas brasileiras, em especial das MPEs, a agência, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), desenvolveu um modelo de diagnóstico para identificar a maturidade ou prontidão digital das MPEs. Esse modelo, fundamentou o “Mapa de Digitalização das Micro e Pequenas Empresas Brasileiras”, que tem por objetivo conhecer como as micro e pequenas empresas nacionais estão atuando na digitalização de seus negócios e em que nível de maturidade digital se encontram, a partir da mensuração do grau de implementação de um conjunto de 25 boas práticas digitais, e da utilização das tecnologias habilitadoras deste processo.

A pesquisa abrangeu microempresas e empresas de pequeno porte, sendo que, 1.176 empresas eram do setor serviços, 804 empresas do comércio e 537 do setor industrial. Cerca de 36% das empresas eram da região sudeste, 26% do nordeste, 21% da região sul, 10% do centro-oeste e 7% da região norte.

Principais resultados da pesquisa

Nível de Maturidade

A pesquisa revelou que a transformação digital dos micro e pequenos negócios está em estágio inicial, independente do seu setor econômico. Do total de empresas pesquisadas, 66% das MPEs estão nos níveis 1 e 2 de maturidade digital, sendo 18% analógicas (nível 1) e 48% emergentes (nível 2), em uma escala de 4 níveis. O nível 2 representa as empresas emergentes que estão realizando esforços para se digitalizar, mas ainda possuem uma estrutura e modelos de negócios tradicionais. Apenas 3% das empresas pesquisadas estão no nível 4 e podem ser consideradas líderes digitais, e 30% estão no nível 3. Ver o gráfico com a escala do nível de maturidade.

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Gráfico 1. Nível de Maturidade Digital das Empresas Brasileiras (MPEs).png

Maturidade por Setor da Economia

De acordo com a pesquisa, a média de maturidade digital das MPEs brasileiras é de 40,77 pontos, em uma escala que varia de 0 a 100 pontos, sendo 0 nada digital e 100 totalmente digital. O setor de serviços apresentou os melhores resultados, com uma pontuação média de 43,73, enquanto o setor do comércio apresentou a menor pontuação média, 36,75 pontos. O setor industrial registrou média de 40,49 pontos.

Implantação de Boas Práticas Digitais

Considerando os cinco objetivos ou dimensões no caminho para a transformação digital: 1. Conectar e engajar clientes, 2. Estabelecer novas bases de competição, 3. Construir uma organização orientada a dados, 4. Inovar mais rápido e colaborativamente, 5. Gerar mais valor para os clientes -, as empresas demonstraram maior maturidade digital na dimensão ‘inovar mais rápido e colaborativamente’, com pontuação média de 47,72 pontos. A transformação digital das empresas passa, necessariamente, pela mudança de sua estratégia de inovação e capacidade de responder rapidamente às necessidades dos clientes e dos mercados. Este foi o objetivo que as empresas melhor pontuaram em toda a pesquisa.

O foco dessa dimensão é reposicionar a atuação da empresa em função das novas formas de concorrência e ampliar mercados a partir de novos formatos de negócios, com uso de ferramentas e tecnologias digitais para transformar os negócios tradicionais em empresas digitais. Nesse aspecto, 43,7% das empresas pesquisadas afirmam estar abertas a opiniões e sugestões para o desenvolvimento de produtos ou serviços, mas apenas 11,6% colaboraram com outras empresas e com seus clientes nesse processo. Um fato interessante é que 51,1% das empresas disseram que usam a rede de parceiros e fornecedores para inovar, porém, apenas 22,8% disseram que interagem com o ecossistema de inovação da sua região. Eis aqui um alerta para os ecossistemas de inovação local.

A dimensão “estabelecer novas bases de competição” foi aquela para a qual as empresas demonstraram menor maturidade, com média de 35,01 pontos. De acordo com a metodologia, as práticas relacionadas a este objetivo demandam dos empresários uma reavaliação de suas estratégias e modelos de negócio, temas notadamente mais complexos de lidar. Esse foi o objetivo com a pontuação média mais baixa de todos, demonstrando a dificuldade que as micro e pequenas empresas possuem em repensar sua atuação e “pivotar” seus modelos de negócios tradicionais. Pivotar é mudar a direção de um negócio mantendo a base que já existia.

Nesse quesito, somente 7,2% das empresas informaram que participam de canais de venda online ou marketplaces. Isso quer dizer que a prática de participar de plataforma de negócios não é implementada por 80,1% das empresas. Outro fato grave é que 53,3% informaram não saber como desenvolver novas formas de competição, como estratégias multicanais para acessar públicos de perfis diferentes de consumo de seus produtos ou serviços.

Em relação a dimensão “conectar e engajar clientes”, as empresas apresentaram maturidade com média de 44,41 pontos. Segundo o relatório, as práticas desse objetivo podem ser consideradas como “a porta de entrada ao universo digital”. São práticas simples, que não demandam uso de tecnologias complexas nem aquisição de hardwares e softwares. Considerando essas práticas, as empresas tiveram boa pontuação, com destaque para a prática “usar mídias sociais para conectar e engajar clientes”, segunda prática mais utilizada entre as 25 práticas testadas na pesquisa, com 81% de empresas que implementaram total ou parcialmente ações desta prática.

É importante relatar que as empresas não avançam nas práticas que demanda uso de aplicativos ou API para personalização da experiência, atuação em multicanais e implementação de um mínimo grau de automação para atender clientes e responder a dúvidas interativamente.

Construir uma organização orientada para dados é uma das dimensões mais importantes quando se pensa na complexidade da economia digital. Essa dimensão abrange a necessidade de entender a necessidade e a importância de se usar dados na tomada de decisão, bem como estar preparado para lidar com a segurança e privacidade dos dados, desenvolvendo procedimentos de coleta, tratamento e análise de dados voltados para identificação de insights e desenvolvimento de novos produtos e serviços. Nesse quesito, as empresas apresentaram maturidade com média de 39,20 pontos.

Uma das fronteiras mais exploradas atualmente pelas empresas digitalmente maduras é a análise de dados estruturados e não estruturados, com apoio de ferramentas de big data e machine learning. A pesquisa revelou que apenas 25,3% das MPEs exploram dados de diversas fontes (estruturados ou não estruturados), somente 19% coletam e armazenam dados nas relações com clientes, 22,9% usam dados para tomada de decisões, 43,3%não qualificam os funcionários para uso dos dados, e apenas 25,8% já possuem práticas implementadas para desenvolver análises preditivas a partir dos dados.

Por último, mas não menos importante, o fundamento “gerar mais valor para os clientes”. Aqui as empresas apresentaram maturidade média de 37,53 pontos. As práticas dessa dimensão levam as empresas a repensar suas estratégias e analisar se seus modelos de negócios continuam competitivos e entregando valor a seus clientes, capturando uma parte desse valor no processo. Este foi o segundo objetivo de pior pontuação geral das empresas. A dificuldade em pensar o negócio surge como barreira à transformação digital.

Aqui, 71% das empresas informaram que ainda não desenvolveram novos modelos de negócios de teste rápido, ou seja, não possuíam nenhuma estratégia para analisar potenciais novos modelos de negócios, 48,7% usam feadbacks online para gerar novos produtos, , 40% usam tecnologia para compreender valor para o cliente.

Utilização de Tecnologias Habilitadoras

De acordo com a ABDI, a transformação digital não trata de comprar as tecnologias de ponta, mas sim sobre a mudança nas estratégias e atuação das empresas, utilizando as tecnologias como ativos para modelos de negócios que habilitem as empresas a gerar mais valor para os clientes nos ambientes físico e virtual. A pesquisa testou o uso de cinco tecnologias habilitadoras e constatou a dificuldade em acessar essas tecnologias por parte das MPEs brasileiras.

Tecnologia 1 (acesso à banda larga). A pesquisa revelou que o acesso à banda larga já faz parte da realidade de 68,7% das empresas.

Tecnologia 2 (serviço de cloud). Cerca de 56,2% das MPEs não usam serviços de cloud computing, 25,4% afirmaram usar desse serviço e 18,4% estão com esse serviço parcialmente implementado.

Tecnologia 3 (uso do e-learning para qualificação de equipe). 63,7% das MPEs não utilizam dessa ferramenta para qualificar seus funcionários, 17,7% já utilizam e 18,7% afirmaram não usar essa ferramenta.

Tecnologia 4 (ferramentas de cybersegurança). 56,9% das empresas não possuem essas ferramentas implantadas, 21,4% já utilizam e 21,7% possuem ferramenta de cybersegurança parcialmente implantadas.

Tecnologia 5 (armazenamento de dados e rotinas de back-ups). Cerca de 40,3% não possuem esse tipo de ferramenta ou rotinas de back-up, 37,9% afirmaram possuir e 21,8% possuem parcialmente essas tecnologias.

Conclusões

  1. A maior parte dos empresários acredita que a transformação digital é um caminho complexo e custoso para ser trilhado.
  2. As tecnologias existentes são acessíveis a todo e qualquer empresário que deseje transformar seu negócio. Porém, é necessário que lhe sejam apresentados os caminhos e “pegue em sua mão” nessa caminhada.
  3. Para quase 40% dos entrevistados a principal dificuldade com a transformação digital é a falta de recursos para investir e a falta de estratégia e o desconhecimento de como construir um caminho apropriado para a sua transformação digital.
  4. A principal conclusão da pesquisa é que 68% dos empresários estão abertos e disponíveis para participar de um programa de aceleração da maturidade digital que os ajude no caminho da transformação digital.

Sobre o blog

Economista, com formação na Universidade Federal de Sergipe (UFS), Mestre em Geografia (desenvolvimento regional) e Especialista em Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). Experiências no setor governamental (municipal e estadual), setor privado (Associação Comercial Empresarial de Sergipe - ACESE e Federação do Comércio de Bens e Serviços e Turismo - Fecomércio), foi professora substituta no Departamento de Economia na UFS, pesquisadora e uma das fundadoras do Núcleo de Propriedade Intelectual, hoje Cintec-UFS.

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