Economia e Inovação

Por: Sudanês B. Pereira

12/04/2022

A Globalização em Transição

O McKinsey Global Institute (MGI), fornece aos líderes globais, a sociedade e aos países, insights sobre uma diversidade de temas que ajudam a dar maior compreensão sobre o mundo e a economia global.

Em janeiro de 2019, o McKinsey Global Institute (MGI) lançou o estudo “Globalization in Transition: The Future of Trade and Value Chains”. A publicação faz uma análise de 23 cadeias de valor, em 43 países, responsáveis por 96% do comércio global. O propósito do estudo foi entender como o comércio, a produção e a participação dessas cadeias na economia mundial, mudaram nos últimos anos (1995-2017). É um estudo bem denso, mas riquíssimo em dados e informações.

A pesquisa da McKinsey é importante para entendermos como a globalização, ao longo dos anos, vem mudando. Isso nos permite entender o momento atual, a partir desses movimentos globais.

O estudo revelou cinco mudanças estruturais:

  1. Diminuição da intensidade do comércio de bens
  2. Comércio crescente (e muitas vezes não medido) de serviços
  3. Menos arbitragem de custo de mão de obra (terceirização ou offshoring)
  4. Maior intensidade de conhecimento
  5. Mais comércio intrarregional

Segundo o documento, as principais forças que vem afetando o comércio global são:

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Fig. 1. Principais Forças que vem afetando o Comércio Global.png

Vários estudos já apontavam para essa face da globalização, a pesquisa do MGI fortaleceu essa percepção. Outros fatos relevantes da pesquisa mostraram a face da globalização no período analisado (1995-2017).

Um dos primeiros dados relevantes diz respeito aos serviços transfronteiriços. Esses serviços estão crescendo 60% mais rápido do que o comércio de bens, e geram muito mais valor econômico do que as estatísticas comerciais tradicionais capturaram. Foram avaliados três aspectos incontáveis desses serviços: 1) os serviços de valor agregado que contribuem para os bens exportados, 2) os intangíveis que as empresas enviam para filiais estrangeiras, e 3) os serviços digitais gratuitos disponibilizados para usuários globais. O estudo aponta que as estatísticas nacionais atribuem 23% de todo o comércio aos serviços, mas a inclusão desses três canais aumentaria sua participação para mais da metade.

Outra informação importante. Todas as cadeias de valor globais estão se tornando mais intensivas em conhecimento. O trabalho de baixa qualificação está se tornando menos importante como fator de produção. Ao contrário da percepção de muitos, apenas cerca de 18% do comércio global de bens é agora impulsionado pela arbitragem trabalhista.

Ou seja, as cadeias de valor globais estão mais intensivas em conhecimento e dependentes de mão de obra altamente qualificada. Segundo o MGI, em todas as cadeias de valor, o investimento em ativos intangíveis (como P&D, marcas e propriedade intelectual) mais que dobrou como participação da receita, de 5,5% para 13,1%, desde 2000.

Além disso, as cadeias de valor produtoras de bens (particularmente automotiva, bem como computadores e eletrônicos), já estavam se tornando mais concentradas regionalmente, especialmente na Ásia e na Europa.

O trabalho da MGI também mostra que as cadeias de valor globais estão sendo reformuladas por fluxos de dados transfronteiriços e novas tecnologias, incluindo plataformas digitais, internet das coisas (IoT) e automação e inteligência artificial (IA). Em alguns cenários, essas tecnologias podem diminuir ainda mais o comércio de bens e, ao mesmo tempo, impulsionar o comércio de serviços na próxima década.

Os custos e os riscos das operações globais estão mudando, as empresas precisam decidir onde competir ao longo da cadeia de valor, considerar novas ofertas de serviços e reavaliar sua presença geográfica. Isso porque, as cadeias de valor globais refletem milhões de decisões tomadas pelas empresas sobre onde obter insumos, onde estabelecer a produção e onde vender mercadorias/bens. Essas decisões moldam o movimento e o volume dos fluxos globais de bens, serviços, finanças, pessoas e dados.

Quanto a esse raciocínio, o estudo ilustra dois exemplos: 1) as cadeias de valor mais simples, em indústrias como metais básicos, envolvem uma sequência de etapas de produção que processam insumos e matérias-primas provenientes de empresas localizadas em diferentes países. 2) as cadeias de valor mais complexas, como as de eletrônicos, automóveis e aeronaves, podem envolver centenas de insumos de dezenas de países e subconjuntos de componentes complexos. 3) os serviços também são prestados por meio de cadeias de valor.

Outro dado importante: dois terços do comércio mundial são insumos intermediários, não bens e serviços finais, ressaltando a escala e complexidade dessas redes de produção transfronteiriças.

O documento agrupou as cadeias de valor da indústria em seis tipos: quatro em indústrias produtoras de bens e dois em serviços. A classificação se baseou em inputs, intensidade de comércio e participação do país. O que a pesquisa revelou sobre essas cadeias:

1.Cadeias de inovações globais.

Estão aqui as indústrias, incluindo automotiva, computadores e eletrônicos e maquinário. Essas cadeias deram origem às mais valiosas, altamente negociadas e intensivas em conhecimento de todas as cadeias de valor produtoras de bens. Esses produtos representam 13% da produção bruta, 35% do comércio global.

O que esses produtos têm? segundo o estudo, eles envolvem muitas etapas sequenciais e componentes complexos que podem exigir submontagem. Na verdade, pouco mais da metade de todo o comércio dentro dessas cadeias de valor é de bens intermediários e não de produtos acabados. Um terço da força de trabalho nessas cadeias é altamente qualificada, uma parcela que perde apenas para serviços intensivos em conhecimento. Os gastos em P&D e ativos intangíveis representam em média 30% das receitas, duas a três vezes o valor em outras cadeias de valor. A participação nessas cadeias é altamente concentrada em um pequeno conjunto de economias avançadas, sem esquecer o papel crescente da China. Em média, apenas 12 países respondem por 75% das exportações.

2.Cadeias de bens intensivos em mão de obra.

Essas cadeias de valor, incluindo têxteis e vestuário, brinquedos, calçados e móveis, são altamente intensivas em mão de obra e comércio. Mais de dois terços da renda vão para o trabalho, a maioria dos quais é de baixa qualificação. Dado o seu peso, os produtos dessas indústrias são altamente comercializáveis e 28% da produção global é exportada. A produção deslocou-se para os países em desenvolvimento na última onda da globalização, e esses países hoje respondem por 62% do comércio, uma parcela maior do que em qualquer outra cadeia.

Embora essas cadeias de valor sejam sinônimos de “globalização”, elas representam apenas 3% da produção bruta global e empregam apenas 3% da força de trabalho global (cerca de 100 milhões de pessoas). A China é o maior produtor, mas novas tecnologias de fabricação e mudanças na demanda provavelmente mudarão a participação do país no futuro.

3.Cadeias de processamento regional

As indústrias nessa cadeia incluem metais fabricados; borracha e plásticos; vidro, cimento e cerâmica; e alimentos e bebidas. Essas cadeias de valor usam relativamente poucos bens intermediários. Com exceção de alimentos e bebidas, mais de dois terços da produção que eles produzem, tornam-se insumos intermediários que alimentam outras cadeias de valor, particularmente inovações globais.

Segundo a pesquisa, 82% da produção em produtos metálicos fabricados e 74% da produção em papel e impressão, são bens intermediários. A característica definidora do processamento regional é a baixa comercialidade, devido ao peso, volume ou perecibilidade dos bens produzidos. A produção é, portanto, distribuída ao redor do mundo, com muitos países (incluindo economias em desenvolvimento) participando e uma alta participação no comércio intrarregional (56%).

No entanto, o estudo mostrou que o comércio está crescendo mais rápido nessas cadeias do que nas inovações globais ou nas cadeias de bens intensivos em mão de obra. Essas cadeias representam cerca de 9% da produção bruta global e empregam em torno de 169 milhões de pessoas, ou 5% da força de trabalho global. Elas são frequentemente negligenciadas devido ao seu valor agregado por trabalhador relativamente baixo, mas são indústrias essenciais em todas as economias.

4.Cadeias de bens intensivos em recursos

Essas cadeias incluem agricultura, mineração, energia e metais básicos. De acordo com o MGI, essas cadeias geram US$ 20 trilhões de produção bruta anualmente, quase tanto quanto as cadeias de inovações globais. Grande parte dessa produção vai para outras cadeias de valor como insumo intermediário. No caso de mineração e metais básicos, toda a produção é de bens intermediários. Acesso a recursos naturais e proximidade de armazenamento, transporte e infraestrutura, determinam onde a produção está localizada. Países ao redor do mundo participam dessa cadeia - 19 países respondem por 75% das exportações de bens intensivos em recursos.

As cadeias de valor com uso intensivo de recursos contribuem com 11% do valor agregado global, a maior parcela entre todas as cadeias de valor produtoras de bens. Mineração e energia têm o maior valor agregado por funcionário entre todas as cadeias de valor que o MGI analisou.

5.Cadeia de serviços intensivos em mão de obra

Essas cadeias de valor incluem varejo e atacado, transporte e armazenamento e saúde. Dada a natureza presencial desses serviços, a intensidade do comércio é baixa, mas o comércio está crescendo mais rápido do que em qualquer outra cadeia.

Essas cadeias são as maiores criadoras de empregos, representam cerca de 23% da força de trabalho global, dois terços das quais estão no comércio atacadista e varejista. Embora muitas vezes ignorados pelos formuladores de políticas, esses setores são uma parte importante da economia em todos os países. Seu valor agregado por funcionário é o mesmo que na manufatura com uso intensivo de mão de obra e empregam sete vezes mais pessoas.

6.Cadeias de serviços intensivos em conhecimento

São cadeias cujo setores são de alto valor, incluem serviços profissionais, intermediação financeira e serviços de tecnologia da informação (TI). Mais da metade das pessoas empregadas em serviços intensivos em conhecimento têm nível superior. Segundo a pesquisa, essas cadeias têm menor intensidade comercial do que as indústrias produtoras de bens, em grande parte devido a barreiras regulatórias. Os fluxos comerciais que ocorrem abrangem todo o globo, uma vez que os custos não estão diretamente relacionados à distância.

A participação dos países é altamente concentrada nas economias avançadas; apenas 21% de todas as exportações nesta categoria vêm de economias em desenvolvimento, a menor participação entre todos os tipos de cadeias de valor. A alta concentração entre os países reflete o investimento significativo em mão de obra qualificada e ativos intangíveis, necessários para o sucesso nessas cadeias de valor.

O QUE ESPERAR

A McKinsey estima que o papel das novas tecnologias, das cadeias de valor com produção mais regional e menos longas, ou o nearshoring da produção, são alguns elementos que podem definir um novo capítulo da globalização.

Quais os desafios para os países? O documento sinaliza alguns:

  1. Construir ou favorecer setores de serviços fortes
  2. Preparar-se para a automação, especialmente em cadeias de valor com uso intensivo de mão de obra
  3. Aprofundar os laços comerciais regionais
  4. Invistir em P&D e habilidades
  5. Modernizar as operações alfandegárias e os acordos comerciais
  6. Procurar novas oportunidades à medida que as cadeias de valor evoluem

Penso que a globalização é mais complexa do que imaginamos, talvez a conjuntura atual a transforme, mas não penso que haverá uma desglobalização, penso em uma outra globalização. Ainda veremos muitas coisas. Nada está definido por completo, apenas sinalizando mudanças.

Excelente semana!

Sobre o blog

Economista, com formação na Universidade Federal de Sergipe (UFS), Mestre em Geografia (desenvolvimento regional) e Especialista em Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). Experiências no setor governamental (municipal e estadual), setor privado (Associação Comercial Empresarial de Sergipe - ACESE e Federação do Comércio de Bens e Serviços e Turismo - Fecomércio), foi professora substituta no Departamento de Economia na UFS, pesquisadora e uma das fundadoras do Núcleo de Propriedade Intelectual, hoje Cintec-UFS.

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