Economia e Inovação

Por: Sudanês B. Pereira

23/08/2021

A escassez de Chips - Todo Negócio agora é um Negócio de Semicondutores?

A pandemia do coravírus trouxe inúmeros desafios - mudança de comportamento, novos padrões de consumo, novos protocolos para a convivência em sociedade. Ficamos todos limitados e o espaço da casa passou a ser o espaço do trabalho, do estudo, da diversão, dos encontros virtuais. Esse ficar em casa permitiu uma maior utilização dos recursos do computador, da televisão, do celular, etc. Tudo isso permitiu que a demanda por produtos e dispositivos eletrônicos aumentasse, refletindo no incremento da demanda por chips.

A escassez de chips desencadeou uma crise na economia global. Matéria do The Guardian - Global shortage in computer chips 'reaches crisis point' em 21.03.2021 -, trazia algumas informações reveladoras:

  1. A Apple, maior compradora de semicondutores do mundo, gastando em torno de US$ 58 bilhões anualmente, atrasou o lançamento do iPhone 12 em dois meses devido a escassez de chips.
  2. A Samsung, o segundo maior comprador - e o segundo maior produtor de chips – também atrasou o lançamento do seu novo smartphone.
  3. A Ford cancelou turnos em duas fábricas de automóveis e disse que os lucros podem ser atingidos em até US $ 2,5 bilhões este ano devido à escassez de chips,
  4. A Nissan paralisou a produção em fábricas no México e nos Estados Unidos.
  5. Toda a indústria automotiva global compra cerca de US$ 37 bilhões em chips, com os maiores participantes, como Toyota e Volkswagen, gastando mais de US$ 4 bilhões cada.
  6. Estima-se que a indústria automotiva global perca US$ 60,6 bilhões em receita em 2021.

A Accenture, consultoria em gestão, tecnologia da informação e outsourcing, divulgou um estudo interessante em junho de 2021 - “The long view of the chip shortage”. Segundo o estudo, a indústria automotiva trabalhou com a perspectiva de uma queda sustentada da demanda durante a pandemia. De fato, as vendas de carros caíram até 80% na Europa, 70% na China, e quase 50% nos EUA. A falta de demanda por carros novos fechou fábricas de automóveis e mandou milhões de trabalhadores para casa, enquanto os pedidos de semicondutores - usados de inúmeras maneiras, incluindo sensores de pressão de combustível, velocímetros digitais e displays de navegação - caíram vertiginosamente.

Mas, ao contrário das previsões, a demanda do setor automotivo se recuperou no segundo semestre de 2020, mais rápido do que o previsto, causando escassez de insumos na indústria, inclusive de chips. O que isso significa? Eis a resposta: a escassez de um chip de US$ 0,10 pode potencialmente interromper toda a linha de produção de um carro de US$ 30.000. Segundo o jornal O Globo de 21.08.2021, a escassez global de semicondutores reduzirá a produção mundial de automóveis em até 7,1 milhões de veículos este ano, com consequências para 2022.

Os semicondutores se tornaram parte integrante da cadeia de abastecimento de muitas indústrias. Hoje, os chips impulsionam tudo, desde carros, smartphones e equipamentos industriais, além da possibilidade de poder facilitar a ampla adoção de tecnologias emergentes, como IA, computação quântica e redes sem fio avançadas como 5G. Esse é um grande motivo pelo qual, segundo a Accenture, todas as seis principais categorias de uso final de semicondutores - automotivo, industrial, consumidor, processamento de dados, aeroespacial militar/civil e comunicação - continuam a crescer.

Para se ter uma ideia do mercado de semicondutores (vendas), o gráfico abaixo ilustra as vendas de semicondutores em 2019, por aplicação - os produtos incluem memória, microcomponentes, lógica, analógica, optoeletrônica discreta e sensores/atuadores. Embora a imprensa tenha registrado muito a falta de chips na indústria automotiva, ela não é a principal demandante por semicondutores. Ver o gráfico 1.

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Gráfico 1. Vendas de Semicondutores em 2019 por Aplicação (US$ bilhões).jpg

De fato, após a “inusitada” escassez de chips, ficou muito claro o quanto os semicondutores impulsionam o mundo moderno, que, no limite, permitem que quase tudo funcione: os sistemas e produtos que usamos para trabalhar, nos comunicar, viajar, se divertir, etc. Estaria a Accenture certa ao dizer que “todo negócio é agora um negócio de semicondutor”? ou é apenas um reducionismo? De certo, sabemos que a economia digital é transversal, que a indústria 4.0 demanda sensores, chips, IA, e que o setor digital - TI/TIC - é o núcleo da economia digital[1], o setor mais importante e que dá a dinâmica da 4ª revolução industrial. Deixo aqui essa reflexão.

Na próxima semana continuaremos com esse assunto. Boa semana!

[1] Ver meu artigo “O Que a Tecnologia está fazendo com a Economia” em 20.03.2021, aqui no Portal A8.

Sobre o blog

Economista, com formação na Universidade Federal de Sergipe (UFS), Mestre em Geografia (desenvolvimento regional) e Especialista em Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). Experiências no setor governamental (municipal e estadual), setor privado (Associação Comercial Empresarial de Sergipe - ACESE e Federação do Comércio de Bens e Serviços e Turismo - Fecomércio), foi professora substituta no Departamento de Economia na UFS, pesquisadora e uma das fundadoras do Núcleo de Propriedade Intelectual, hoje Cintec-UFS.

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