Economia e Inovação

Por: Sudanês B. Pereira

19/10/2022

A Economia do Plástico pode gerar US$ 200 bilhões por ano

Segundo o relatório “Rethinking the future of plastics”, do Fórum Econômico Mundial, a cada ano, oito milhões de toneladas de plásticos vazam para o oceano. Isto equivale a despejar o conteúdo de um caminhão de lixo por minuto. Nesse ritmo, as estimativas sugerem que, em termos de volume, em 2050, haverá mais plástico do que peixes nos oceanos. Uma política global de reciclagem e redução de uso dos plásticos é necessária para a preservação do meio ambiente, em especial dos oceanos.

Imaginar um mundo sem plásticos é quase impossível hoje. Os plásticos são cada vez mais usados em toda a economia, servindo como um facilitador essencial para setores tão diversos quanto embalagens, construção, transporte, saúde e eletrônicos. Os plásticos trouxeram enormes benefícios econômicos para esses setores, graças à combinação de baixo custo, versatilidade, durabilidade e alta relação resistência-peso. A título de exemplo, os plásticos representam cerca de 15% do peso de um carro.

Fato: os Estados Unidos, a Europa e a Ásia respondem conjuntamente por 85% da produção de plásticos. A produção de plásticos deverá dobrar em 20 anos e quase quadruplicar até 2050.

Porém, existe alternativa para mudança desse cenário. Existe um Compromisso Global por uma Nova Economia do Plástico (New Plastics Economy - A Vision of a Circular Economy for Plastic (2020)) liderado pela Fundação Ellen MacArthur que promove a economia circular pelo mundo. Ele é renovado a cada ano. Para a Fundação, devemos mudar a forma como projetamos, usamos e reutilizamos plásticos.

UMA ECONOMIA CIRCULAR PARA O PLÁSTICO

Segundo a Fundação, a economia circular é um sistema industrial que é restaurador e regenerativo. Esse sistema baseia-se em três princípios principais: preservar e melhorar o capital natural, otimizar o rendimento dos recursos e promover a eficácia do sistema.

Na economia circular os produtos e os materiais que o compõem, são valorados de forma diferenciada, se afastando do modelo atual da economia linear (fabricar - usar - dispor). A economia circular considera cada estágio da jornada de um produto - antes e depois de chegar ao cliente. Essa abordagem não é apenas vital para impedir a poluição plástica, mas também oferece benefícios econômicos, sociais e climáticos.

Até 2040, uma economia circular tem o potencial de: a) reduzir o volume anual de plásticos que inundam os oceanos em 80%, b) reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 25%, c) gerar economia de US$ 200 bilhões por ano, e d) criar 700.000 empregos adicionais líquidos.

De acordo com a visão da Fundação, a Nova Economia do Plástico é uma visão de uma economia circular para o plástico, onde o plástico nunca se torna lixo. Para criar uma economia circular para o plástico, será necessário um movimento no qual três ações são fundamentais:

1.Eliminar todos os itens de plástico problemáticos e desnecessários. Eliminar o desperdício e a poluição.
2.Inovar para garantir que os plásticos que precisamos sejam reutilizáveis, recicláveis ou compostáveis.
3.Circular todos os itens de plástico que usamos para mantê-los na economia e fora do meio ambiente.

As três ações se desdobram em seis postos-chaves:

1.A eliminação de embalagens plásticas problemáticas ou desnecessárias por meio de redesenho, inovação e novos modelos de entrega. Isso é uma prioridade.
2.Os modelos de reutilização devem ser aplicados, quando relevantes, reduzindo a necessidade de embalagens de uso único.
3.Todas as embalagens plásticas serão 100% reutilizáveis, recicláveis ou compostáveis.
4.Todas as embalagens plásticas serão reutilizadas, recicladas ou compostadas na prática.
5.O uso de plástico deve ser totalmente desacoplado do consumo de recursos finitos.
6.Todas as embalagens plásticas deverão estar livres de produtos químicos perigosos.

A ECONOMIA DO PLÁSTICO TEM HOJE DESVANTAGENS IMPORTANTES

A embalagem plástica é uma aplicação linear com perda anual de valor de material de US$ 80 a 120 bilhões

Segundo o relatório The New Plastics Economy - Rethinking the Future of Plastics, da Fundação Ellen MacArthur, plásticos baratos, leves e versáteis são os materiais dominantes da nossa economia moderna. Espera-se que sua produção dobre nas próximas duas décadas. No entanto, apenas 14% de todas as embalagens plásticas são coletadas para reciclagem após o uso, e grandes quantidades escapam para o meio ambiente. Isso resulta em uma perda de US$ 80 a 120 bilhões por ano.

Segundo o relatório, os plásticos que são reciclados são principalmente reciclados em aplicações de menor valor, que não são recicláveis novamente após o uso. A taxa de reciclagem de plásticos em geral é ainda menor do que a de embalagens plásticas, e ambas estão muito abaixo das taxas globais de reciclagem de papel (58%) e ferro e aço (70–90%). O PET, usado em garrafas de bebidas, tem uma taxa de reciclagem mais alta do que qualquer outro tipo de plástico, mas, globalmente, quase metade do PET não é coletado para reciclagem, e apenas 7% é reciclada (bottle-to-bottle). Além disso, as embalagens plásticas são quase exclusivamente de uso único, especialmente em aplicações business-to-consumer.

Além disso, impressionantes 72% das embalagens plásticas não são recuperadas: 40% são depositadas em aterros e 32% vazam do sistema de coleta – ou seja, ou não são coletadas, ou são coletadas, mas depois despejadas ilegalmente.

A produção depende de estoques finitos de matérias-primas fósseis

A indústria de plásticos como um todo é altamente dependente de estoques finitos de petróleo e gás, que representam mais de 90% de sua matéria-prima. Cerva de 4-8% da produção mundial de petróleo é usada para fazer plásticos (não apenas embalagem), com 6% como a melhor estimativa; cerca de metade disso é usado como matéria-prima de material e metade como combustível para o processo de produção. Espera-se que o uso de petróleo pela indústria de plásticos aumente em linha com a produção de plásticos (crescimento de 3,5 a 3,8% ao ano).

Plásticos e embalagens geram externalidades negativas significativas.

O relatório mostra que as externalidades relacionadas ao uso de plásticos e embalagens plásticas concentram-se em três áreas: degradação dos sistemas naturais em decorrência de vazamentos, principalmente no oceano; emissões de gases de efeito estufa resultantes da produção e incineração pós-uso; e impactos na saúde e no meio ambiente de substâncias perigosas.

Pelo menos 8 milhões de toneladas de plásticos vazam para o oceano a cada ano – o que equivale a despejar o conteúdo de um caminhão de lixo no oceano por minuto. Se nenhuma ação for tomada, isso aumentará para dois por minuto até 2030 e quatro por minuto até 2050.

Os plásticos podem permanecer no oceano por centenas de anos em sua forma original, e ainda mais em pequenas partículas, o que significa que a quantidade de plástico no oceano se acumula ao longo do tempo.

É fato que o crescimento continuado esperado na produção e uso de plásticos em geral, e embalagens plásticas em particular, vai aumentar, no entanto, se a produção e o uso continuarem dentro da estrutura linear atual, essas externalidades negativas serão exacerbadas.

Os atuais esforços de inovação e melhoria não têm impacto em escala

Esse é um ponto extremamente interessante apontado no relatório. Existem muitos esforços de inovação e melhoria que mostram potencial, mas até o momento eles provaram ser muito fragmentados e descoordenados para ter impacto em escala.

A falta de padrões e coordenação em toda a cadeia de valor permitiu a proliferação de materiais, formatos, rotulagem, esquemas de coleta e sistemas de triagem e reprocessamento, que coletivamente dificultam o desenvolvimento de mercados eficazes.

A inovação também é fragmentada. O desenvolvimento e introdução de novos materiais e formatos de embalagem nas cadeias globais de fornecimento e distribuição, está acontecendo muito rápido, mas está amplamente desconectado do desenvolvimento e implantação de sistemas e infraestrutura pós-uso correspondentes. Ao mesmo tempo, centenas, senão milhares, de iniciativas locais de pequena escala estão sendo lançadas a cada ano, focadas em áreas como a melhoria dos sistemas de coleta e a instalação de novas tecnologias de triagem e reprocessamento.

UMA OUTRA ABORDAGEM PARA A ECONOMIA DO PLÁSTICO

Na verdade, existem oportunidades para mover a indústria de plásticos para captura de valor, melhores resultados ambientais e uma economia mais dinâmica.

A Fundação mostra em seus estudos que a mudança do sistema atual para uma economia circular oferece os melhores resultados. Em comparação com os negócios habituais, uma economia circular tem o potencial de reduzir o volume anual de plásticos que entram em nossos oceanos em 80%, gerar economia de US$ 200 bilhões por ano, reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 25% e criar 700.000 adicionais empregos até 2040.

Cenários focados apenas na coleta, reciclagem e descarte ficam aquém do necessário, com grandes comprometimentos para a sustentabilidade ambiental. A figura 1 abaixo compara os diferentes cenários sobre os principais indicadores econômicos e ambientais relacionados a poluição de plásticos. Ele mostra que, em qualquer uma das abordagens - com ou sem imposição de limites técnicos - o Cenário de Mudança do Sistema produz resultados superiores nas dimensões econômica, ambiental e social.

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Fig. 1. Comparação de diferentes cenários

Comentários finais

A conclusão dos estudos é que um problema em todo o sistema exige uma mudança em todo o sistema. Qualquer uma das abordagens de estratégia de solução única atinge limites técnicos, econômicos, ambientais e/ou sociais.

Até agora, muitos esforços para combater a poluição plástica se concentraram estritamente na melhoria da gestão de resíduos ou limpeza. Outros se concentraram apenas em proibições e redução de plástico. Nenhum deles funcionará isoladamente. Para resolver o problema da poluição plástica devemos adotar uma abordagem abrangente de economia circular. Como sugere a Fundação Ellen MacArthur, devemos:

Eliminar o plástico que não usamos - indo além de apenas remover canudos e sacolas, escalando novos modelos inovadores que entregam produtos aos clientes com embalagens reutilizáveis ​​ou sem embalagens. A substituição material também pode ser considerada, quando relevante e considerando consequências não intencionais.

Circular o plástico que precisamos - as empresas devem se mover rapidamente para projetar todos os itens de plástico para serem reutilizáveis, recicláveis ​​ou compostáveis. Para também aumentar nossa capacidade de coletar e circular esses itens na prática.

Inovar em velocidade e escala sem precedentes - novos modelos de negócios, design de produtos, materiais, tecnologias, sistemas de coleta; além do escalonamento radical e imediato das soluções conhecidas.

Excelente semana!

Sugestões de links:

A circular economy for plastic https://ellenmacarthurfoundation.org/topics/plastics/overview

Breaking the Plastic Wave

https://www.pewtrusts.org/en/research-and-analysis/articles/2020/07/23/breaking-the-plastic-wave-top-findings

Sobre o blog

Economista, com formação na Universidade Federal de Sergipe (UFS), Mestre em Geografia (desenvolvimento regional) e Especialista em Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). Experiências no setor governamental (municipal e estadual), setor privado (Associação Comercial Empresarial de Sergipe - ACESE e Federação do Comércio de Bens e Serviços e Turismo - Fecomércio), foi professora substituta no Departamento de Economia na UFS, pesquisadora e uma das fundadoras do Núcleo de Propriedade Intelectual, hoje Cintec-UFS.

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