Sergipe

26/08/2019 às 17h09

Pesquisa de professora da UFS recebe bolsa da National Geographic

UFS

O comitê de pesquisa e exploração da National Geographic Society concedeu um financiamento de 7 mil dólares ao projeto de doutorado da professora do Departamento de

Foto: Arquivo Pessoal
Teatro (DTE) da Universidade Federal de Sergipe Priscilla Teixeira Campos. O projeto tem como objetivo investigar a degradação dos corais no Brasil, mais especificamente naqueles situados no litoral da Bahia, e como a arte, principalmente o teatro aliado à educação, pode auxiliar na harmonização da relação homem-oceano. O doutorado de Priscilla é realizado na Universidade de Aveiro, Portugal, sob orientação da professora Etelvina Figueira.

Priscilla Campos é formada em Oceanologia pela Universidade Federal do Rio Grande/RS (2004), tem mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente da UFS (Prodema, 2014), cuja dissertação foi com Teatro do Oprimido e especialização em arte educação - Pedagogia Waldorf pela Faculdade São Luis (2014).

“Ao conversar com meus colegas, fiquei sabendo que em Portugal estava aberto processo para o projeto Conhecer o Oceano e que tinha um convênio entre a marinha portuguesa e a brasileira com interesse em trazer para o Brasil o Letramento dos Oceanos, ou seja, trazer conhecimentos fundamentais sobre o oceano para todos os cidadãos. Foi aí que decidi o que fazer no meu doutorado”, diz a pesquisadora. O projeto Conhecer o Oceano é desenvolvido em Portugal e tem como objetivo estimular o envolvimento dos cidadãos nos temas do mar.

Foto: Diego DiSouza/Ascom UFS
O concurso da National Geographic selecionou jovens educadores, pesquisadores e exploradores em todo o mundo cujo tema da proposta versava sobre conservação, educação, pesquisa, contação de histórias ou tecnologia.

Priscilla está entre os 16 exploradores selecionados nessa temática. A bolsa concedida foi de um ano e irá finalizar em novembro de 2019.

Arte e mar

Priscilla mergulha desde os 15 anos e o mar sempre foi algo que lhe despertou interesse. “A questão com o mergulho, de estar submersa, de estar olhando como os corais se comportam, sempre foi uma questão que me chamou atenção. Os corais embelezam o mar. São os principais atores do oceano”, diz.

De acordo com a pesquisadora, com a contemporaneidade as pessoas foram se esquecendo da importância do meio ambiente para viver. Para estreitar esse abismo, como chama Priscilla, ela busca desenvolver ferramentas que sensibilizem a população acerca da importância e da preservação do meio ambiente. “Por uma questão de sobrevivência da nossa espécie”, afirma.

Ela chama essas ferramentas sensibilizadoras de educação ambiental estética, que é uma forma de tratar as questões ambientais de maneira que cada indivíduo perceba o seu entorno através dos seus sentidos. "Por isso a arte é tão importante, porque atua no aparato sensível de cada ser humano de forma diferenciada e exclusiva". O teatro entra nesse contexto. “O teatro é uma junção de linguagens artísticas. É uma ferramenta perfeita para se trabalhar com essa temática tão complexa e transversal como o meio ambiente”.

Problema socioambiental

Para Priscilla, os recifes no litoral baiano estão sofrendo impactos muito sérios a ponto de estarem mudando a fase do sistema em que se encontram. Uma só espécie de coral mole, o Palythoa cf. variabilis, mata todas as principais espécies construtoras de recife em poucos meses e forma um “tapete” sobre eles, acabando com toda a biodiversidade local.

Abrolhos, um parque nacional marinho no Sul do estado, foi a primeira região em que ela percebeu que os corais estavam morrendo. "E se lá, que é um local protegido, a 72 km da costa, isso estava acontecendo, imagine próximo ao continente", diz a pesquisadora.

Preocupada, Priscilla foi mergulhar na Baía de Todos-os-Santos, na região de Salvador, e percebeu que o mesmo processo estava acontecendo lá, só que de uma forma bem mais intensa.

O impacto do desenvolvimento do Palythoa cf. variabilis traz também graves consequências sociais. De acordo com a professora, a fonte de renda da comunidade da Vila Brandão, no Corredor da Vitória, localizada na área mais nobre de Salvador, é a pesca. Essa comunidade possui quase cem anos de tradição em pesca e atualmente apenas três famílias estão sobrevivendo dessa forma de negócio, e ainda assim precisam buscar outras atividades complementares.

Mas, por que esses problemas estão ocorrendo? Segundo a pesquisa, é por conta da quantidade de dejetos urbanos que são jogados no mar, como produtos da indústria farmacêutica (a exemplo de antibióticos), dejetos industriais (cana-de-açúcar, subprodutos e produtos da indústria de couro), esgotos, e o lixo. Todos esses dejetos, ao serem jogados no oceano, fazem com que a água se torne um ambiente tóxico e, provavelmente, enfraqueçam os outros corais duros e favoreçam o desenvolvimento do Palythoa cf. variabilis no processo competitivo. Esse organismo, por não possuir esqueleto, se reproduz de uma forma muito rápida. Segundo Priscilla, em cerca de quatro meses, ele consegue se reproduzir e matar as principais espécies construtoras dos recifes de coral.

“Esse organismo secreta um muco, com uma das mais poderosas substâncias tóxicas conhecida, a palitoxina. Provavelmente a secreção dessa substânica facilita o sucesso competitivo que leva ao surto populacional desse Palythoa ”, diz a pesquisadora.

É importante ressaltar que o Palythoa cf. variabilis não é uma espécie invasora, ele é local. Esse organismo tem uma importante função ambiental no sistema por ser hospedeiro de algas fotossintéticas. Ele provê energia para o sistema em forma de alimento. Esse organismo tem se desenvolvido de forma desenfreada devido à ação humana.

Festival Maré Arte

O festival Maré Arte aconteceu em 2018, na comunidade da Vila Brandão, em Salvador. Depois que a pesquisadora percebeu quais eram as problemáticas decorrente da ação da população em relação ao mar, como por exemplo, jogar lixo no mar, Priscilla as expôs no festival através do teatro, música, rodas de conversas e, principalmente, com o mergulho. Ela levou 30 moradores da comunidade para observar a situação dos corais. “O mergulho foi uma sensibilização para essa questão temática: foi a primeira atividade do festival, que abriu o trabalho de uma forma bem impactante. Talvez a adesão da comunidade venha daí: de observar com os próprios olhos o que estava acontecendo com os recifes”, ressalta.

 

Pesquisa futura

Os próximos projetos serão desenvolvidos no Chile e no Caribe, com a mesma metodologia realizada na Bahia, utilizando a arte como linguagem no processo educativo. Dessa vez, porém, irá incluir uma nova ferramenta: o mergulho virtual em 360 graus.

“A gente vai fazer filmagens do fundo do mar em 360 graus, para produção de conteúdos bilíngues (português/inglês) de apoio aos educadores para o Letramento dos Oceanos. Assim, as pessoas em qualquer lugar do mundo vão colocar os óculos virtuais e ter a sensação de que estão no fundo do mar, será um mergulho a seco”, brinca Priscilla.


Fonte: UFS