Mundo

05/03/2009 às 14h49

Dirigentes cubanos destituídos renunciam e admitem `erros`

Ex-vice-presidente e ex-chanceler estavam na lista de líderes que poderiam substituir Fidel após a renúncia

Redação Portal A8

Fidel e Lage aparecem juntos em 2006 (Efe)
O ex-vice-presidente cubano Carlos Lage e o ex-ministro de Relações Exteriores Felipe Pérez Roque renunciaram a todos os cargos em instituições estatais e à militância no governante Partido Comunista de Cuba, segundo cartas quase idênticas publicadas nesta quinta-feira, 5, pelo jornal oficial Granma. As cartas são dirigidas ao presidente de Cuba e segundo secretário do partido, Raúl Castro, que os destituiu na segunda-feira passada. Nelas, os dois reconhecem "erros" cometidos e assumem sua "responsabilidade", em termos muito semelhantes. Ambos estavam nas listas dos líderes que poderiam substituir Fidel na presidência quando ele renunciou, há pouco mais de um ano, e - ironicamente - eram tidos como dois de seus mais leais seguidores.

Os dirigentes apresentaram sua renúncia ao presidente cubano, Raúl Castro, e reconheceram sua "responsabilidade" em duas cartas datadas da última terça-feira e que foram fotografadas, com suas assinaturas, e reproduzidas pela imprensa local. Na segunda-feira, anunciou a mais profunda mudança no governo do país dos últimos 50 anos, removendo Lage e Pérez Roque, peças-chave da administração de seu predecessor. O anúncio tentou diminuir a importância dessas substituições, ao colocá-las em meio a uma reorganização do aparato estatal, de modo a reduzi-lo e simplificá-lo, algo que já havia sido anunciado pelo presidente cubano.

Ambos foram acusados pelo líder cubano Fidel Castro de ambiciosos e conduta "indigna". "O mel do poder despertou (em alguns ministros) ambições que os conduziram a um papel indigno", escreveu Fidel, num artigo no site Cubadebate. "O inimigo externo encheu-se de esperanças com eles". Saíram figuras políticas de peso e entraram membros da linha dura do Partido Comunista e tecnocratas relativamente desconhecidos, que até agora ocupavam o segundo escalão dos ministérios, além de militares.

"Reconheço os erros cometidos e assumo a responsabilidade. Considero que foi justa e profunda a análise realizada na passada reunião do Birô Político", diz Lage, que era secretário executivo do Conselho de Ministros (uma espécie de "premiê"), ao avaliar a reestruturação proposta por Raúl. Pérez Roque, ex-ministro das Relações Exteriores que liderava a diplomacia cubana na última década, afirmou que reconhecia "plenamente que cometi erros, que foram analisados amplamente na dita reunião. Assumo minha total responsabilidade por eles". Ambos reiteraram sua "lealdade" e "fidelidade" aos irmãos Fidel e Raúl Castro e ao Partido Comunista, assinalando que continuarão defendendo os ideais da revolução.

Lage afirma que o líder cubano pode ter certeza que seu "novo posto de trabalho", que não especifica, será "uma oportunidade para continuar servindo à revolução", e que sempre, como até agora, será "fiel ao partido, a Fidel (Castro) e ao senhor".

Expurgo é rotina

Eles são os "inimigos internos da revolução": ambiciosos demais, corrompidos até a alma, traidores da pátria. De tempos em tempos, o regime cubano realiza expurgos entre seus quadros dirigentes, derrubando, com essas justificativas, figuras emergentes no cenário político da ilha. Segundo analistas, parece ser esse o caso das destituições feitas nesta semana pelo presidente cubano, Raúl Castro.

"Líderes de regimes autoritários como o de Cuba não aceitam nenhuma ponta de concorrência", disse Susan Purcell, especialista em Cuba da Universidade de Miami. "Esses expurgos fazem parte da dinâmica política que permite o continuísmo do regime". "Não é à toa que Fidel conseguiu manter o poder por mais de 50 anos", disse ao Estado o americano Brian Latell, autor de Cuba sem Fidel (Editora Novo Conceito). "Eliminar essas possíveis ameaças fez parte da estratégia que deu sustentação a seu governo."

Os casos não param por aí. Em 1992, o chefe dos setores de propaganda do Partido Comunista, Carlos Aldana, foi destituído, acusado de "irregularidades". Até agora, nenhum processo formal foi aberto contra ele. O ministro de Transportes e vice-presidente Diocles Torralba e o ministro do Interior José Abrantes também caíram por "malversação de recursos". Em algumas situações, os ataques pessoais parecem esconder ineficiências do regime. Em abril, por exemplo, o ministro da Educação Luis Ignácio Gómez foi destituído em meio a uma grave crise do sistema de ensino. A justificativa de Fidel? "Gómez viajava demais."

O pai das reformas

Carlos Lage e Felipe Pérez Roque trabalharam no círculo mais íntimo de Fidel, conhecido como o Grupo de Apoio (Grupo de Coordinación y Apoyo del Comandante en Jefe), o que, posteriormente, fez com que fossem colocados em pontos-chave do governo, respectivamente, o Conselho de Ministros e o Ministério das Relações Exteriores. Lage foi o artífice das reformas econômicas dos anos 1990 - que trouxeram a legalização do dólar, do trabalho por conta própria e dos investimentos estrangeiros -, graças às quais o país conseguiu sobreviver ao fim do bloco comunista soviético. Entretanto, foi também durante a liderança econômica de Lage que se colocou em prática a dualidade monetária, medida que fez com que os salários caíssem e, com eles, o poder aquisitivo da maior parte da população trabalhadora.

O mais fiel

Já Felipe Pérez Roque foi o chefe do Grupo de Apoio a Fidel até que, depois da destituição de Roberto Robaina (em 1999), foi indicado pelo presidente para assumir o Ministério das Relações Exteriores, como um homem de sua inteira confiança. Quando Pérez Roque foi nomeado chanceler, muitos consideraram que ele foi escolhido por ser um dos políticos mais fiéis a Fidel Castro, mas duvidavam de sua capacidade. Mesmo assim, Pérez Roque conseguiu desenvolver um trabalho bastante efetivo na pasta. Curiosamente, sua destituição acontece no mesmo momento em que Cuba consegue os maiores êxitos diplomáticos dos últimos 50 anos, como o apoio de governos da América Latina, Rússia, China e a eliminação das sanções da União Europeia.

Fonte: Estadão