Mundo

26/02/2009 às 09h28

EUA se negam a libertar último preso britânico em Guantánamo

Defesa afirma que homem com cidadania britânica foi preso no Afeganistão durante trabalhos para ONG

Redação Portal A8

Os Estados Unidos se negam a libertar o último residente britânico que está na base americana de Guantánamo, em Cuba, informa a edição desta quarta-feira, 25, do jornal The Independent. Trata-se de Shaker Aamer, de 42 anos e que afirma ter sofrido agressões e torturas durante a detenção no campo americano em território cubano.

A esposa do detido, Zin Aamer, de 33 anos, que mora em Londres, disse ao Independent que os filhos não entendem por que o pai não voltou de Guantánamo junto com outro detido britânico, Binyam Mohammed, que voltou na segunda-feira ao Reino Unido. Aamer, a esposa e os três filhos deixaram Londres em 2001 com destino ao Afeganistão, onde Shaker se propunha a trabalhar em uma organização de ajuda à infância. No entanto, Aamer, de origem saudita e que se estabeleceu no Reino Unido em 1996, foi detido em dezembro de 2001 por forças dos Estados Unidos, que o acusaram de ser um militante taleban.

A organização britânica de direitos humanos Reprieve, que o defende, afirma que ele foi vendido por alguns aldeães à Aliança do Norte afegã, que por sua vez o vendeu aos americanos. Aamer foi levado primeiro a Bagram, a maior base americana no Afeganistão, e depois a Guantánamo, onde durante mais de quatro anos ficou detido na solitária, porque os guardas da prisão achavam que exercia uma influência excessiva sobre os outros detidos.

A última notícia direta que Zin Aamer teve do marido foi uma carta que recebeu em agosto do ano passado. Os advogados de Aamer apresentaram um documento de 16 páginas no qual exigem que ele possa sair da célula de isolamento em Guantánamo. A defesa afirma que funcionários britânicos ajudaram os americanos durante os primeiros interrogatórios a Aamer no Afeganistão e em Guantánamo.

O governo britânico pressionou recentemente o americano para que coloque Aamer em liberdade. Um porta-voz do Ministério de Relações Exteriores britânico disse ao jornal que os americanos não estão dispostos a libertá-lo, por considerarem que representa um perigo para a segurança.

Britânico libertado

Binyam Mohamed, um etíope com permissão de residência no Reino Unido, voltou no início da semana para Londres após passar quase sete anos sob custódia do Exército americano. Mohamed, que passou os últimos quatro anos detido na prisão de Guantánamo, acusou Washington de torturá-lo e disse que o governo britânico colaborou com os EUA durante o tempo em que ficou preso. Ele é o primeiro prisioneiro de Guantánamo a ser libertado desde que o presidente dos EUA, Barack Obama, chegou ao poder e prometeu fechar a prisão da base americana.

Claramente abatido e magro, Mohamed disse que não tinha capacidade física ou mental para falar com a imprensa, mas divulgou um comunicado por meio de seus advogados no qual criticava Washington pela maneira com a qual foi tratado nos últimos anos. "Eu tive uma experiência que nunca pensei que teria nem em meus mais sombrios pesadelos", afirmou em nota. "Antes dessa penosa provação, `tortura` era uma palavra abstrata para mim. Eu nunca imaginei que poderia ser vítima dela. É muito difícil acreditar que fui sequestrado, transportado de uma país para outro e torturado de maneira medieval - tudo orquestrado pelo governo dos Estados Unidos."

Mohamed foi preso em abril de 2002 em Karachi, no Paquistão, depois de tentar usar um passaporte falso para voltar para ao Reino Unido. Ele afirma que por três meses foi torturado por agentes paquistaneses que o mantiveram pendurado durante uma semana com seus pulsos amarrados. Durante esse tempo, ele afirma que teria sido interrogado por pelo menos um agente do serviço secreto britânico.

O ex-preso diz que foi entregue às autoridades americanas em julho de 2002 e foi então enviado para uma prisão secreta da CIA no Marrocos, onde foi torturado por 18 meses. Depois, ele teria sido enviado para o Afeganistão antes de chegar a Guantánamo em setembro de 2004. Segundo Mohamed, ele teve seus genitais cortados com um bisturi e foi vítima das técnicas de simulação de afogamento. O governo do Marrocos negou as acusações e os EUA também rejeitaram as declarações do ex-detento.

Fonte: France Presse