Mundo

19/02/2009 às 09h33

Afeganistão se converte na guerra de Obama

País se consolida como um santuário do terror islâmico e um atoleiro político e militar

Redação Portal A8

 

Estadão

Aos pés da Cordilheira de Hindu Kush, norte de Cabul, 38 cavaleiros disputam como bárbaros a carcaça de uma cabra sem cabeça, em uma partida de buzkashi - esporte nacional praticado desde os tempos de Gengis Khan. O sangue escorre, tingindo a terra, enquanto os homens tentam derrubar os adversários e dominar o bicho morto. É um jogo bélico. Numa metáfora da guerra, os afegãos dizem que o animal inerte é o próprio Afeganistão, dilacerado por contínuos conflitos.

 

Seu controle é disputado à força e por jogadores demais: tribos e clãs divididos em etnias, os taleban e seus aliados da Al-Qaeda, as 41 nações cujas forças internacionais ocupam o país, além de potências regionais como Irã, Paquistão e Índia.

Vencer ou não esse jogo definirá o legado diplomático e militar do governo americano de Barack Obama. Subestimada por seu antecessor, George W. Bush, em prol do Iraque, esta é a guerra de Obama. E a menos que haja uma mudança de rumo no país, alertam militares e estrategistas, o Afeganistão poderá se tornar o seu Vietnã. O general David Petraeus, chefe das operações no Afeganistão e Paquistão, a quem é atribuído o mérito de virar o jogo no Iraque, alertou o presidente que o Afeganistão será sua "mais longa campanha na longa guerra contra o extremismo islâmico".

Enviado especial de Obama ao Afeganistão e Paquistão, o veterano Richard Holbrooke, ex-embaixador americano na ONU e arquiteto dos Acordos de Dayton, que puseram fim à guerra na Bósnia, prevê que sua missão será "mais difícil do que no Iraque".

No oitavo ano da invasão, o cenário é hoje pior do que o de ontem. Há uma semana, 27 afegãos morreram no mais audacioso ataque do Taleban em pleno coração de Cabul, quando extremistas islâmicos invadiram o Ministério da Justiça e outros prédios públicos.

Reforço de soldados

Obama autorizou ontem o envio de mais 17 mil soldados. O objetivo é mandar um total de 30 mil, dobrando seu efetivo - medida vista como paliativo até o desenho de uma nova estratégia para o país. "Quem pergunta por que ainda não vencemos desconhece que o país tem 650 quilômetros quadrados de montanhas. Militarmente, é impossível dominar todo o território. Existem áreas a 50 km de Cabul onde ainda não estivemos", desabafou, em entrevista ao Estado, o porta-voz da ISAF (as forças de coalizão subordinadas à Otan), general Richard Blanchette.

Com o reforço, as tropas estrangeiras teriam pouco mais de 90 mil homens. "No Iraque, com território 50% menor do que o Afeganistão e cinco vezes mais rodovias pavimentadas, EUA e aliados chegaram a ter mais de 130 mil. É claro que precisamos de mais soldados", disse o porta-voz do Ministério da Defesa afegão, general Zahir Azimi.

As forças afegãs contam com 88 mil oficiais mal pagos, corruptíveis e despreparados - o contingente deve aumentar em cinco anos para 134 mil, mas seu treinamento leva mais tempo do que no Iraque simplesmente porque os soldados, assim como três quartos dos afegãos, são analfabetos.

No ano passado, os EUA conduziram 3.572 ataques aéreos. Em 2004 foram 86. A ofensiva foi responsável por dois terços dos 2.118 civis mortos em 2008, entre os quais mulheres e crianças - 40% a mais do que em 2007 -, segundo as Nações Unidas. "Cada civil morto pelas forças de coalizão nos rende uns três novos insurgentes e alimenta a antipatia dos afegãos contra os estrangeiros", disse Azimi.

O ano passado foi o mais sangrento também para os militares. Mil soldados afegãos e 290 estrangeiros morreram em combate, segundo o site independente icasualties.org. Destes, 150 eram americanos - pela primeira vez, os EUA perderam mais homens durante o ano no Afeganistão do que no Iraque.

"A mudança de foco dos EUA do Iraque para o Afeganistão veio tarde demais", disse o ex-funcionário do Ministério das Relações Exteriores do Taleban Wahhed Muzhda, hoje analista e escritor. "Os taleban não têm mais uma agenda de integração nacional. Eles aderiram a um movimento pan-islâmico e agora querem que os americanos saiam não apenas do Afeganistão, mas do Iraque e da Arábia Saudita."

Para afegãos que alimentavam esperança de paz e prosperidade com a invasão americana - celebrada nas ruas de Cabul - estes são dias de desespero. O presidente Hamid Karzai tem grande culpa nisso. De líder promissor, ele é hoje citado nas rodas de Cabul como um presidente ineficiente no comando de um governo corrupto contaminado por senhores de guerra - ex-mujahedin que ajudaram a expulsar os taleban e hoje ocupam cargos oficiais - acusados de ligações com o narcotráfico. O Afeganistão segue mergulhado na miséria, onde 70% da população vive com US$ 1 por dia e a expectativa de vida é de 44 anos.

Obama terá de persuadir o Paquistão a deixar de ser o paraíso de terroristas e assegurar estabilidade regional com a Índia. E lidar, ainda, com a China, que se tornou a maior investidora no Afeganistão, a Arábia Saudita, de onde fluem petrodólares para os terroristas, e o Irã.

Como num buzkashi, o sucesso depende de um difícil balanço entre o uso da força e a capacidade de enxergar e compreender os movimentos dos diferentes jogadores em meio ao caos. Um jogo complicado, mas que Obama não pode se dar ao luxo de perder. "Na visão dos extremistas, o mundo islâmico não estará seguro enquanto os americanos não forem derrotados. E o melhor lugar para se conseguir isso hoje é o Afeganistão", diz Muzhda. "Se vencer aqui, a Al-Qaeda terá vencido no mundo."

Fonte: Estadão