Esportes

18/01/2010 às 15h30

Empresários apagam o brilho do Confiança

O Confiança teve pouco a oferecer a seus atletas. Moradia, alimentação e uma ajuda de R$ 20 semanal

Redação Portal A8

Por Bruno Deiro

Em meio aos times de empresários e clubes de tradição que desfilam na Copa São Paulo de Juniores, o modesto Confiança-SE conseguiu um feito inédito. Viajou 40 horas de ônibus para se tornar o primeiro clube sergipano a avançar à segunda fase da Copinha. O sonho do título, porém, ficou na derrota para o Coritiba por 4 a 2, na quarta-feira, com a equipe vencida pelo cansaço e prejudicada pelo assédio de empresários.

O Confiança teve pouco a oferecer a seus atletas. Nada além de moradia, alimentação e uma ajuda de R$ 20 por semana. "Até melhorou, antes eram só três refeições por dia. Nos últimos meses, passou para quatro", diz o capitão Valdo, de 17 anos.

A viagem até São José dos Campos foi um sacrifício à parte para a jovem equipe, formada em "peneiras" na região de Aracaju. Sem dinheiro para bancar passagens de avião, a delegação do Confiança encarou 40 horas de estrada, desde a capital sergipana. No caminho, o ônibus teve de encostar diversas vezes para que o elenco se exercitasse. A providência, no entanto, não foi suficiente.

Debilitado, o grupo chegou quase na véspera de enfrentar o Grêmio e sofreu as consequências no campo. "Antes da metade do segundo tempo, já tínhamos feito as três substituições", diz o preparador físico Márcio Chagas. "No total, sete jogadores tiveram cãibras. O Grêmio até pensou que a gente estava fazendo cera."

Mesmo assim, conseguiu arrancar um empate por 1 a 1 com os gaúchos. Nos outros jogos, a história se repetiu. As duas vitórias (5 a 2 no São José-SP e 2 a 1 no Nacional-AM) vieram de virada e a inédita vaga foi garantida.

De coadjuvante, o Confiança passou a ser valorizado. Com direito a ligação do governador do Sergipe cumprimento o clube. Os garotos, porém, ficaram mais impressionados com outro reconhecimento. "Nossos orkuts foram invadidos por torcedores do Confiança. Nos chamaram de guerreiros", afirma o atacante Valber Lima, de 18 anos, principal destaque da equipe.

Mas a classificação não chamou a atenção só dos sergipanos. No hotel, os primeiros agentes de futebol iniciaram o assédio aos atletas. Tentadoras, as propostas davam margem a desconfianças. "Um empresário disse que ia levar um colega para o Palmeiras, mas exigia ganhar mais de 50% do que o clube pagasse para ele", conta o capitão Valdo.

O teor das ofertas, para garotos que vivem com uma ajuda de custo de R$ 80 mensais, preocupou a comissão técnica. "Tivemos de cancelar o recebimento de ligações nos quartos", explica o diretor das categorias de base, Fernando Andrade.

O deslumbramento de alguns, no entanto, começou a ser sentido dentro de campo. "Atrapalhou demais. No intervalo do jogo contra o Nacional, tive de chamar a atenção deles", disse o técnico Lima. "Alguns já estavam mudando o jeito de jogar."

Na partida seguinte, desfalcado de três titulares, o Confiança parou no Coritiba. "Temos um representante que está negociando três atletas com um grande clube de São Paulo." Outros quatro serão aproveitados pelo time principal do Confiança, que há 30 anos não disputa a Série A do Brasileiro (em 2009, disputou a Série D). O restante atuará em um campeonato de juniores em Sergipe. Mas todos se reuniram após a eliminação para mais três dias de viagem, no ônibus que conduziu a delegação pelos 2.157 quilômetros de volta a Aracaju.

Fonte: Estadão